“Mais papistas…”, por Aurélio Lopes

Foto: Instagram Bernardo Silva

A firme intenção da Federação Inglesa de Futebol castigar as manifestações de racismo  é algo que, naturalmente, não podemos deixar de realçar e subscrever. A ação que desenvolveu, há algum tempo, em conjunto com as autoridades, no combate à praga do holiganismo, constituiu exemplo de determinação e vontade que, hoje, serve de modelo para muitos.

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Mas, como diz o povo, “tudo o que é demais empata a venda”. E a decisão de castigar Bernardo Silva, jogador português do Manchester City, surge como manifesto exagero que, ao contrário do que se quer fazer querer (e que, afinal, seria o seu papel), não ajuda nada a combater tais manifestações discriminatórias.

Castigar alguém que se limita a trocar piadas com um (pelos vistos) amigo do peito, feitas de humor e remoque é, convenhamos, ser bem “mais papista que o Papa”.

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Aliás, eventuais recriminações apenas teriam sentido pelo facto de tal ter sido publicado numa rede social que, muitas vezes esquecemos, não se trata apenas de uma forma de conversar. Uma qualquer repreensão já seria mais que suficiente. E constituiria uma decisão bem mais pedagógica. Até para transmitir que, o que está em causa, não é (nem pode ser) apenas e principalmente aquilo que se diz.

Mas a forma como se diz. A razão porque se diz. A intenção com que se diz. E não se venha com argumentos de que a intenção não é facilmente avaliada e mensurável.

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Afinal, é o mesmo Futebol que possui leis de aplicação  disciplinar em que os casos acontecidos durante os jogos são penalizados (logo são avaliados) de acordo com a intenção do jogador. E isto, desde logo, no momento e no interior do campo; em condições que são tudo menos adequadas a apreciações ponderadas. Num contexto, convenhamos, bem mais difícil de avaliar.

Temos hoje proibições a mais. Normas a mais. Leis reguladoras a mais. A prova de que são exageradas é que as cumprimos cada vez menos. Não estão, portanto, a desempenhar o papel para que foram criadas. Talvez devêssemos investir menos em imperativos normativos e investir mais na educação da cidadania. Mesmo que os resultados previsíveis pudessem ser menos  imediatos.

Tenham lá paciência, mas a luta contra o racismo não pode contribuir para o desaparecimento (por proibição e cautela exagerada) das relações de amizade que se querem naturais e espontâneas e do imprescindível uso do humor e diversão entre pessoas de diferentes etnias. Sejam eles negros, brancos ou azuis às riscas! Isso é o pior que poderemos fazer para uma sã e natural convivência multicultural.

É envenená-la! E, portanto, inviabilizá-la!

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