“Maio, a festa da natureza”, António Matias Coelho

Foto: Wallhere

Este maio em que estamos é mês particularmente festivo, pois corresponde ao meio da primavera, altura do ano agrícola em que se inicia o amadurecimento das sementes e dos frutos. Por onde maio passou, tudo espigou, como afirma a sabedoria popular.

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Os Romanos dedicavam o mês mais florido do ano à deusa Maia, deusa dos campos e da fecundidade, procedendo a festejos em sua honra logo no primeiro dia do mês. A seguir, em 3 de maio, terminavam as Floralia, festas bastante licenciosas, características do renascer da Primavera, em honra de Flora, deusa das flores.

Destes costumes da antiguidade terão derivado algumas práticas folgazãs e festejos rituais que se divulgaram por toda a Europa do sul e das quais, apesar de já irem sendo uma raridade devido ao avanço do urbanismo, ainda hoje se podem encontrar resquícios. São os casos das festas do maio, ou das maias, que tinham lugar no primeiro dia de maio.

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Eram costumes tão antigos e tão significativos para as populações camponesas que muitos concelhos portugueses, no início da República, escolheram o 1.º de maio para feriado municipal. Essa escolha, fundada na natureza, nada tem a ver com o espírito dos festejos do 1.º de maio do nosso tempo: a consagração da data como Dia do Trabalhador, atualmente feriado nacional em Portugal e em muitos outros países por todo o mundo, é uma prática relativamente recente. Foi a data escolhida pelo Movimento Operário para assumir as suas reivindicações e fazer a sua festa em homenagem aos operários que morreram na luta pela jornada de trabalho de 8 horas, em Chicago, em 1 de maio de 1886. As comemorações e festejos sindicais, participados por muitos trabalhadores e divulgados pelos grandes meios de comunicação social, acabaram por se sobrepor e ofuscar o que ainda restava dos velhos usos da festa do maio, hoje praticamente desaparecidos.

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Lembro-me bem de, quando era miúdo, os mais velhos terem o costume de se levantar bem cedinho no dia 1 de maio, antes do sol nascer, para não entrar o maio, ou seja, para que o sol de maio não apanhasse ninguém a dormir, o que seria mau presságio. Em tempos era hábito, no primeiro do mês, bandos de rapazes vestirem de branco um de entre eles, a quem chamavam maio moço, enfeitarem-no com flores e irem de porta em porta, cantando e pedindo dinheiro para as suas extravagâncias.

Outro costume popular da entrada do mês era a festa das maias. Embora com variantes, consistia, geralmente, na coroação com flores de uma rapariguinha no início da puberdade, numa evidente ligação ao culto da fecundidade. A garota, a quem chamavam a maia, era vestida de branco (a cor da pureza), enfeitada com fitas, joias e flores e colocada num trono florido. Frente à casa onde ficava, dançava-se todo o dia. Às vezes, em algumas aldeias e vilas, cada rua tinha a sua maia, qual delas a mais florida, chegando a haver rixas entre os populares por causa dos excessos competitivos, o que levou as autoridades, em certas épocas, a proibir este tipo de manifestações. Um outro costume das entradas de maio, hoje completamente perdido, era o de cantar as maias pelas portas, como ainda agora se cantam as janeiras. Era mais uma forma festiva de se receber o mês de maio, como as janeiras assinalam o entrar do ano novo.

Desfile das maias, Portalegre | Foto: Rádio Portalegre

Ainda subsistem, no entanto, outras práticas características do culto à natureza que ocorrem nos princípios de maio. É o caso, por exemplo, da Festa da Bela Cruz, na zona saloia, ou Festa das Cruzes como lhe chamam no norte do país. Celebra-se a 3 de maio, o mesmo dia em que os antigos Romanos encerravam as Floralia e que o cristianismo dignificou com a designação de Dia da Vera Cruz. Na véspera, à meia-noite, colocam-se cruzes de madeira floridas nas portas e janelas das casas, nos currais e nas hortas e nas encruzilhadas dos caminhos e, onde os há, enfeitam-se com flores os cruzeiros, confiando-se que estes gestos rituais são benfazejos, protegendo as pessoas e os animais das bruxas que, pela noite, frequentam os caminhos da aldeia, espalhando malefícios.

Maio é, pois, tempo de festa. É a própria natureza que desabrocha e amadurece, aliada aos dias que vão crescendo e à temperatura que vai subindo, que convida à folgança e à alegria. A Quinta-Feira da Ascensão – que é feriado municipal em 10 concelhos do Ribatejo (Alcanena, Almeirim, Azambuja, Benavente, Cartaxo, Chamusca, Golegã, Torres Novas, Salvaterra de Magos e Vila Franca de Xira) – é o corolário destes dias que são, sem dúvida, os mais belos e mais encantadores de todo o ano.

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A espiga da Ascensão sobre o campo da Chamusca | Foto da espiga: Foto Romão | Foto do campo e composição: António Matias Coelho

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É ribatejano. De Salvaterra, onde nasceu e cresceu. Da Chamusca onde foi professor de História durante mais de 30 anos. Da Golegã, onde vive há quase outros tantos. E de Constância, a que vem dedicando, há não menos tempo, a sua atenção e o seu trabalho, nas áreas da história, da cultura, do património, do turismo, da memória de Camões, da comunicação, da divulgação, da promoção. É o criador do epíteto Constância, Vila Poema, lançado em 1990 e que o tempo consagrou. Escreve no mediotejo.net na primeira quarta-feira de cada mês.

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