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Quinta-feira, Dezembro 2, 2021

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Mação | Visitar o património sem sair do lugar? Bem-vindos ao incrível mundo das experiências imersivas

Feche os olhos. Imagine-se agora dentro de água, no rio Tejo, a conseguir visualizar de perto todas as gravuras em rocha que ficaram submersas quando a construção da barragem do Fratel, nos anos 70. É difícil imaginar, certo? E se lhe dissermos que o Museu de Mação lhe dá a possibilidade de visualizar todo o cenário envolvente, resgatando as gravuras, as águas do Tejo, salientando a rocha em diversos espaços temporais? Basta visitar e colocar os óculos, mergulhando numa experiência guiada pela voz das técnicas do museu, recuando no tempo e viajando sem sair do lugar.

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O Museu de Mação reinventou-se, aliando as experiências práticas às novas tecnologias, e aplicou um conjunto de projetos de “experiência total VERT” permitindo não só visitar mas também experimentar, reproduzir e transformar.

Ou seja, agora, além de visitar a exposição permanente do “Gesto à Arte” para compreender de que forma o gesto se assumiu desde o princípio da humanidade, nos tempos pré-históricos, enquanto mecanismo de desenvolvimento cognitivo e comunicacional, servindo propósitos de transformação do território e construção, de produção e transformação de matéria-prima em objetos e produtos e até se assumiram reveladores sob diversas formas de arte, mais ou menos ocultas.

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Tudo isto, aliado à possibilidade de caminhar pelos circuitos rupestres e visitar as gravuras rupestres no vale do Ocreza, em Envendos, conservadas como segredo bem guardado de onde o ex-libris que ressalta à mente é o cavalo paleolítico, descoberto em 2000, gravado na rocha. E é uma vitória conseguir vê-lo ao vivo depois de uns belos quilómetros a descer até lá, com algum esforço, mas que numa visita guiada pelo museu vale muito a pena.

A gravura rupestre do ‘Cavalo’ do Ocreza foi encontrada em 2000 em Mação. Foto: DR

Também merecem destaque os sítios de arte rupestre do abrigo do Pego da Rainha, junto à aldeia de Zimbreira, Envendos, e as gravuras de Cobragança, a cerca de 1 km de Caratão, outro segredo bem guardado no meio da natureza em estado puro e que só com muito bom sentido de localização ou com auxílio de quem sabe se consegue alcançar.

O mesmo com outros sítios de importância arqueológica, mais fáceis de achar, como é o caso dos que integram o circuito Lithos inicialmente previsto para englobar outros concelhos do Médio Tejo. Em Mação estão sinalizados sítios e monumentos megalíticos para visitação livre ou solicitando acompanhamento do museu.

Falamos da Anta da Foz do Rio Frio, em Ortiga, do monumento nacional que é o Castro de São Miguel, junto à Amêndoa, e o que resta da Anta da Laginha, em Cardigos, por onde os recentes incêndios desbravaram caminho com fortes labaredas a marcar de negro a rocha, além do abrigo do Pego da Rainha, onde estão as gravuras de Cobragança.

Mas feita a introdução, regressemos ao que interessa. Na salinha azul, ao lado da exposição permanente cujo avermelhado e iluminação nos capta a atenção, agora conseguimos sentir que estamos dentro de água, sem molhar os pés.

Colocamos a proteção no rosto, vamos seguindo as instruções de Sara Garcês, investigadora, e Anabela Pereira, curadora do museu, que através de um tablet se apercebem do que comandamos manualmente apontando o feixe de luz verde e clicando para avançar na experiência. Realidade virtual… tão real que nos leva a girar 360º para nos situarmos e deslumbrarmos com a localização. Estamos em cima de rocha. Nisto conseguimos colocar a um azul florescente os contornos das gravuras.

Foto: mediotejo.net

Depois o presente, vê-las submersas pelas águas do rio Tejo. Podemos baixar-nos, e sentimo-nos a aproximar e a ver com maior nitidez os detalhes de cada gravura. Perdemos noção de onde estamos… afinal estamos lá ou aqui, na sala do museu? “Eu estou aqui a ajudar a guiar a experiência e a impedir que bata contra uma das paredes”, exclama uma das técnicas do Museu de Mação, com boa disposição e vendo de fora o entusiasmo que experienciamos.

Além de informação com rigor histórico, conseguimos contactar com o património numa experiência imersiva – isto é, o verdadeiro sentido de mergulhar em algo para absorver o máximo a seu respeito.

“Com a tecnologia que hoje está disponível em termos de realidade e imersão virtual conseguimos resgatar não só a paisagem, mas também a rocha e a experiência de estar dentro do rio e conseguir ver a água do Tejo”, explica Sara.

Terminada esta experiência, hora de tirar os óculos. Voltámos ao presente e à casa de partida, mas íamos jurar que o presente, o agora, também o tinha sido há instantes, mas noutro ponto do concelho, a dezenas de quilómetros dali, junto às gravuras.

Foto: mediotejo.net

Andakatu – o primeiro Parque Arqueosocial do país está a nascer no Calvário

Tempo para partir à descoberta fora do Museu, com visita às traseiras do Museu e das Piscinas Descobertas. Subimos ao Calvário, ou mais propriamente ao jardim. Abaixo da capela, toda a encosta está a ser reaproveitada para instalação de um projeto que funciona como se de uma quinta pedagógica se tratasse… mas dos tempos pré-históricos!

Pedro Cura é o mentor e ‘fazedor’ da obra, que desde o ano passado iniciou a construção daquele que será um parque que pretende incentivar experiências de campo na área da Pré-história e dos saberes tradicionais, num projeto intergeracional que tem contado com apoio da comunidade, dos alunos da Universidade Sénior e das crianças e jovens que frequentam as Férias Desportivas do município.

A pandemia veio atrasar a calendarização programada, mas aos poucos já se podem encontrar construções feitas a partir da madeira extraída do próprio jardim, nomeadamente os galhos que vão caindo ou os que podem ser cortados.

Este será um projeto pioneiro em Portugal, pois na Dinamarca e na Finlândia este tipo de parques já era uma realidade.

Foto: mediotejo.net

“Vamos construir o Arqueoparque enquanto viagem pelas várias cronologias da arquitetura pré-histórica. Este jardim foi dividido em quatro espaços: o do Paleolítico, que já tem uma cabana, um espaço dedicado ao Neolítico com os primeiros agricultores, um espaço dedicado aos primeiros metalúrgicos no Calcolítico e um espaço dedicado à Idade do Bronze. Estes dois últimos são englobados por serem ainda comunidades que trabalham ainda muito a pedra”, explica Pedro, referindo que as quatro cronologias com maior representatividade no concelho de Mação.

O projeto está integrado no Portugal Inovação Social – Parcerias para o Impacto, contando com o apoio do Museu e da Câmara Municipal de Mação.

As construções, ainda que a conta-gotas devido à suspensão de atividades pela pandemia de covid-19, tem permitido participação ativa de duas gerações distintas, contribuindo para fazer crescer o projeto.

A ideia é o parque estar aberto ao público, continuando com parcerias estreitas com as instituições e escolas maçaenses.

“O espaço vai permitir que se possam desenvolver atividades, algumas delas relacionadas com disciplinas de História, e no caso dos séniores, teremos um espaço de horta comunitária, no espaço da Idade do Bronze, que permitirá que seja mantida com recurso a técnicas da Pré-história, envolvendo os saberes antigos e tentando que haja interação com os mais novos”, explica.

Este parque pretende ser “a rotunda”, isto é, um novo ponto de atração a partir de Mação, do centro, de forma a permitir que as pessoas possam partir da vila em busca de outros lugares, sítios, monumentos e pontos de interesse espalhados pelo concelho.

“As pessoas podem usufruir, vindo visitar o parque, do que a vila tem para oferecer e, a partir daqui, terem uma espécie de rotunda que os permite seguir para outros lados. Tem esse lado de tentar criar uma estrutura que atraia mais pessoas a Mação. Esperamos beneficiar disso, sendo este o primeiro arqueoparque no país a larga escala, com todas as estruturas que estão projetadas para o futuro”, indica Pedro Cura.

Foto: mediotejo.net

Juntamente com este aldeamento com coexistência de diversas cronologias, existirão atividades práticas associadas, caso do tiro ao arco, lançamento de propulsor, atividades de pintura e uma das zonas será exclusivamente dedicada à arte rupestre, onde as pessoas possam fazer gravura e pintura.

Também se prevê atividades produção de queijo pré-histórico, tecelagem, “uma panóplia de workshops que podemos fazer, associados a cada cronologia”.

“Quando se tem espaço adequado torna-se muito mais atrativo, do que fazê-las noutro tipo de espaço, nomeadamente numa sala do museu. Aqui todas as atividades ganham contexto próprio e é uma forma de conseguirmos que as pessoas se aproximem mais e visualizem melhor o que seriam estes tempos”, refere.

Pedro Cura afiança que o objetivo é o parque “estar de pé” no final de agosto – se não vierem novos confinamentos impedir – garantindo que a casa feita com madeira demorou 5 dias de trabalho constante. “A construção é muito rápida, a matéria-prima está toda aqui à volta. Grande parte das madeiras utilizadas na altura são hoje espécies protegidas, então aproveitamos as árvores que não autóctones do jardim para a construção. O objetivo é, por cada árvore que cortamos, vamos plantar 5 árvores, para fazermos plantação de espécies autóctones no município”, assegura.

A sustentabilidade está muito presente, e o envolvimento da comunidade também, tendo o centeio que se pretende que seja usado para os telhados e coberturas das casas sido semeado à mão em 3 hectares cedidos por um popular que tinha terrenos abandonados e que permitiu que fossem limpos e reativados, estando agendada a ceifa com instrumentos pré-históricos com ajuda das voluntárias séniores do Clube Sénior.

“Queremos que o parque não seja uma coisa isolada, mas que mantenha sempre esta ponte com a população, para que seja bem recebido. Caso contrário é um projeto morto à nascença”, defende Pedro Cura, responsável pelo projeto do arqueoparque social.

Experiências projetam reconstituições do passado na tela do presente

Descemos de novo à vila, desta vez para nos socorrermos do material que trazemos no bolso, na mala e – verdade seja dita – à mão. Apenas precisamos do smartphone para instalar a aplicação do Museu de Mação, disponível para android e iOS.

Essa aplicação móvel permite que se alcancem cinco experiências de revisitação ao passado. Por exemplo, chegamos ao Largo dos Combatentes, junto à Câmara Municipal e ao Cine-Teatro Municipal que agora está em obras. Vemos a antiga escola primária, que é agora o Instituto Terra e Memória. Mas acontece que ali no centro do largo, muitos sentem faltam do coreto da vila.

Com a aplicação, basta apontar a câmara do telemóvel e surge no ecrã uma reconstituição 3D do antigo coreto, e afiança o museu que é em tudo idêntico ao que ali estava, uma vez que este trabalho foi dinamizado com recurso a fotografias e memórias antigas.

Foto: mediotejo.net

O mesmo pode acontecer noutros pontos do concelho, nomeadamente na Anta da Foz do Rio Frio, em Ortiga, que permite observar uma cerimónia fúnebre naquele monumento megalítico com personagens reais, no enquadramento das ruínas da anta.

Ou então num tempo mais recente, participar numa atividade de pesca tradicional com recurso à tarrafa na pesqueira do Rabo Longo, situada junto à Rota das Pesqueiras e Lagoas do Tejo agora a nascer com o novo passadiço em madeira a permitir alcançar estes ícones do património local.

Também no centro histórico de Mação é possível revisitar no passado a Praça Gago Coutinho, e numa viagem ao vale do Ocreza é possível através de um marcador visualizar uma atividade de gravura numa figura cravada na pedra.

Experiências digitais numa era em que a tecnologia impera como complemento ao saber e ao conhecimento do património, que levaram o Museu de Mação a reinventar-se com novos recursos, conforme explica Luiz Oosterbeek, diretor do museu e investigador.

Ajudar a descobrir e a preservar o passado de smartphone em punho – nova app de ciências participativas para todos

Também apresentada pelo Museu é uma inovadora aplicação móvel de ciências participativas. Isto é, a comunidade ingressar na busca e levantamento de património, auxiliando os investigadores e o Museu a criarem uma base de dados e construírem a Carta Patrimonial do concelho.

Tudo isto permitirá que os utilizadores tenham formação para saberem como proceder, e a informação registada e submetida será tratada e estudada pelos investigadores e técnicos do Museu de Mação, que trabalharão os dados de forma científica.

Em causa está a recolha de sítios arqueológicos, património edificado e património imaterial.

Para consultar o projeto e saber como aceder e descarregar a aplicação, deve visitar o site http://cienciasparticipativas.pt/

“O programa de ciências participativas que não existem em toda a Península Ibérica, e a ideia é suscitar o envolvimento da população na construção de dados científicos através de uma plataforma digital e de uma app, criada pelo Museu em parceria com a empresa Benefits & Profits”, refere Oosterbeek.

Pretende-se que seja criada uma base de dados, útil para investigadores, autarquias, empresas, enquanto “plataforma que vai aumentar muito rapidamente o conhecimento do património arqueológico, arquitetónico e imaterial no território”, com a expectativa de alcançar, após a fase piloto, alguns milhares de contributos.

Todos os dados serão revistos pelo centro de investigação, assegurando-se formação técnica para que as pessoas se registem e tenham conhecimentos para entenderem o funcionamento desta plataforma.

Luiz Oosterbeek assume que esta é uma nova etapa para o museu, mantendo-se fiel ao programa e propósito, mas desenvolvendo uma nova vertente assente nos recursos digitais.

“Numa lógica não apenas de entretenimento, mas de acessibilidade ao que não é mesmo acessível fisicamente, caso da arte rupestre do Vale do Tejo que está submersa desde a construção da barragem do Fratel, e por outro lado, com integração de atividades práticas em que as pessoas podem vir fazer experimentação, fabricar objetivos e aprender tecnologias”, explica.

Tudo isto representa para o concelho uma nova atratividade e uma aproximação da comunidade e dos visitantes ao território maçaense, visto com bons olhos pela autarquia, que reconhece o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pelo Museu ao longo dos últimos 20 anos, com expressividade regional, nacional e internacional.

Vasco Estrela e Luiz Oosterbeek. Foto: mediotejo.net

“É uma das grandes vantagens destes novos projetos do Museu, o envolvimento de toda a comunidade”, diz o presidente da Câmara, Vasco Estrela.

O autarca defende o estreitar de ligação com a comunidade do concelho, e a criação de projetos como o parque arqueosocial Andakatu, no jardim do Calvário, é “um grande passo nessa direção”.

“Falo há 8 anos da valorização do território, e quando falamos nesse tema, também diz respeito a este tipo de projetos onde se faz um aproveitamento e um retrato daquilo que foi a história da humanidade, e que este museu há tantos anos está a tentar passar aos cidadãos do país e de todo o mundo, que aqui têm vindo estudar e aprender, a preparar-se para a vida”, menciona.

Sobre as novas experiências assentes no digital, “pretendem consolidar a estratégia do Museu, de abertura à sociedade e à comunidade, para que possam ser reconhecidos pela comunidade maçaense”.

“Foi algo que sempre tentámos fazer, e que estes projetos vão ajudar a concretizar esse objetivo. Vão tornar o Museu mais vivo, mais participado, com novas experiências adaptadas ao mundo que hoje vivemos e que tornará o museu ainda mais atrativo. São experiências extraordinariamente interessantes e que de alguma forma têm caráter importante, que é a ligação que fazemos à realidade do concelho de Mação e a realidade que já foi”, termina o autarca, deixando o convite para que as pessoas possam visitar Mação e conhecer o trabalho desenvolvimento pelo Museu de Arte Pré-histórica e do Sagrado no Vale do Tejo.

Esta é uma nova etapa com novas experiências imersivas, que convidam a mergulhar numa série de pontos patrimoniais que prometem acrescentar valor e conhecimento, permitindo que os visitantes possam sentir o Museu como seu.

Fotogaleria: fique com os registo da visita aos novos projetos do Museu de Mação, numa nova temporada após a reabertura em abril deste espaço que há mais de 20 anos é guardião e promotor da história, memória e património do território do concelho e das suas gentes.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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