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Quarta-feira, Agosto 4, 2021

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Mação: Uma casa de velharias com memórias de Angola

Ortiga, freguesia no concelho de Mação, é conhecida pela praia fluvial, as delícias gastronómicas de um restaurante local e a Barragem de Belver. Poucos conhecerão a loja de velharias “Ribeirinho”, mas deviam. Tal como o dono que lhe dá nome, João Carita Ribeirinho, um alentejano de 86 anos que ali reconstruiu a vida depois de duas décadas passadas em Angola. A antiguidade das peças e das memórias tornam o espaço num local onde o presente fica à porta, sentado no banco a fazer festas ao gato da vizinha.

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No final de uma manhã em que o sol vai aparecendo e baralhando as temperaturas, encontramos a placa antiga que identifica a loja “Velharias Ribeirinho”. O nome poderia estar relacionado com o rio Tejo, surpreendido ali perto pelo paredão da Barragem de Belver, mas não. Ribeirinho é o apelido do dono, que encontramos sentado no banco de madeira na rua, colocado ao lado da porta, a organizar cassetes antigas. A boina protege-lhe os cabelos brancos do frio e o gato, da vizinha, aquece-lhe as pernas quando se roça para receber mimos.

João Carita Ribeirinho, conhecido pelo primeiro apelido, tem 86 anos e abriu a loja há cerca de dez. As velharias vieram por acréscimo na vida deste alentejano, estimuladas pelo gosto de colecionar moedas e selos antigos. A profissão, essa foi diferente e começou por influência do pai que, em 1929, trabalhava na Hidroelétrica do Alto Alentejo. A nossa conversa começa à porta e enquanto aí permanecemos vamos descortinando o interior do espaço, revelado pelas montras gradeadas.

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Pormenor da entrada da loja. Foto: Jorge Santiago

O Sr. Carita sabe onde se encontra cada peça e convida-nos a entrar. Logo à entrada está um tabuleiro com algumas garrafas e copos pequenos. É o bar, aberto não apenas para os clientes, mas para quem passa na rua e “quiser beber um copito”. Avançamos pouco. É ali que nos fala sobre a sua chegada ao concelho de Mação, muito antes da loja existir, quando integrava a primeira equipa de trabalhadores da Barragem de Belver, em meados do século passado. Não ficaria muito tempo, mas foi o suficiente para conhecer “uma rapariguita que ia lá levar comida ao pai e a gente enamorou-se um do outro”.

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A primeira equipa de trabalhadores da Barragem de Belver (ele é o segundo a contar da esquerda). Foto: DR

A “rapariguita” chamava-se Deonilde, levou-a ao altar e menos de um ano após o nascimento do filho seguiram para Angola com “os engenheiros da barragem”. A saudade depressa vem ao de cima e o Sr. Carita desaparece por instantes, voltando com uma capa A4 em que guarda fotocópias de fotografias dos tempos passados em África, “este é apenas um dos álbuns”. A mercadoria deixa de ser tema de conversa e descreve-nos cada momento imortalizado por ele e um filho adotivo, que assina “Rotiv” (Vítor ao contrário) e continuou em terras lusas o negócio iniciado no outro continente com o atelier de fotografia “montado” pelo pai. Hoje é dono de duas casas de fotografia na capital, a Colorama e a Procores.

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O dono da loja, o gato da vizinha e o álbum das memórias. Foto: Jorge Santiago

Enquanto vamos falando, tomamos consciência das prateleiras repletas. “Há aí muita tralha” diz o Sr. Carita. Não mente. Do trivial prato chinês aos famosos cães de loiça, é possível encontrar um pouco de tudo. Máquinas de costura Singer, abajures dos anos 50, bonecas nazarenas em miniatura, quadros com telas amarelecidas, barcos de piratas pendurados no teto, discos de grafonola, molduras e até um exemplar do jornal “O Século” com o obituário de Victor Hugo (1885), autor de “Les Misérables”. A tudo isto somam-se “35.000 livros” e “5.000 discos em vinil, grandes e pequenos”.

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O Sr. Carita com o exemplar d’O Século que anuncia a morte de Victor Hugo. Foto: Jorge Santiago

É ainda na entrada deste imenso sótão da avó, certamente apelidado de “vintage” pelos mais ecléticos, que o Sr. Carita nos mostra o bilhete de identidade datado de 1960, guardado na carteira. Mais uma “prova” dos mais de 20 anos em que trabalhou como inspetor de portos, caminhos terrestres e transportes aéreos em Angola. “Foram os melhores anos da minha vida, quando era rapaz novo, como nessa foto que está aí”, diz, apontando para a fotografia na qual surge acompanhado pela jovem de uma tribo do sul de Angola, do grupo banhaneca, uma muíla. Contextualiza-nos “isso foi perto de Roçadas”, antiga Vila Roçadas e hoje Xangongo, onde se lembra do Forte Roçadas, uma das primeiras estruturas militares construídas no início do século passado.

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A foto com a jovem muíla está exposta na entrada da loja. Foto: DR

À semelhança dos muitos portugueses que viveram em África antes do 25 de abril, a memória trata por tu os locais por onde passou, com os nomes da época colonial. Sá da Bandeira, atual Lubango, onde teve início a história do quarto de vida passado fora de Portugal, é um desses casos. De lá seguiu para Luanda e depois para Matala onde, na década de 50, construíram “uma barragem igualzinha a essa (Belver)”, no rio Cunene. Ali viu nascer a filha pelas mãos de uma parteira local, numa cubata.

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A esposa Deonilde na fazenda com 10.000ha. Foto: DR

Ainda regressaria a Sá da Bandeira antes de ocupar o número 120 da Avenida Sarmento Rodrigues, em Moçâmedes, atual Namibe. O Porto do Namibe, inaugurado como Porto Salazar, é ainda hoje a maior estrutura portuária do sul de Angola e a terceira mais importante do país. Segundo o Sr. Carita, a baía de 15 quilómetros tem um porto comercial e outro mineraleiro. Foi no último, utilizado para a exportação do minério de ferro das minas de Cassinga desde a década de 60 do século passado, que trabalhou como encarregado de montagem, entre engenheiros “alemães, ingleses e japoneses”. O caminho de ferro de Namibe, na altura conhecido por Linha de Moçâmedes e que ia até Serpa Pinto, hoje Menongue, também lhe passou pelas mãos.

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O carro Buick. Foto: DR

“A vida era boa”, suspira. As fotografias, com uma qualidade impressionante, comprovam-no. As caçadas “com o jipão” eram regulares dentro e fora da sua “fazenda” com 10.000 hectares, onde “havia toda a bicharada. Zebras, gazelas, avestruzes (um bando de 48)”. As viagens em trabalho e lazer também. Fala-nos sobre as idas de avioneta para Nova Lisboa, hoje Huambo, onde ficava hospedado no Hotel Ruacaná, o carro Buik “que hoje valia um dinheirão”, a viagem de família à Baía dos Tigres em que o jipe ficou preso nas areias movediças e os passeios à Fenda da Tundavala, à Senhora do Monte e às Quedas do Duque de Bragança, atualmente conhecidas por Quedas de Kalandula, localizadas no rio Lucala, um afluente do rio Kwanza.

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Os eventos sociais sucediam-se, como este com Baltazar Rebelo de Sousa (segundo a contar da esquerda). Foto: DR

A “vida boa” incluía inúmeros eventos sociais com personalidades portuguesas e angolanas, como representantes políticos ou os diretores das cervejas CUCA e NOCAL. Terminaria no ano seguinte ao 25 de abril e o regresso a Ortiga “com uma mão à frente e outra atrás”. As distâncias encurtaram-se, deixou de ser natural fazer mais de 200 quilómetros para “ir cortar o cabelo, ir tomar uma bica” e as casas nas grandes avenidas deram lugar à casa do sogro. Uma zanga entre ambos ditou o seu regresso à terra natal, Nisa, onde trabalhou como eletricista e montou “duas casitas comerciais de eletrodomésticos”.

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Nova Lisboa, hoje conhecida por Huambo. Foto: DR

O destino queria à força que o Sr. Carita ficasse pelo concelho de Mação e o seu terceiro empreendimento foi inaugurado quando “começaram a eletrificar aqui as aldeias”. Na altura, “comprava uns pratos aqui, umas moedas acolá, uns selos no outro lado” e decidiu transformar uma antiga loja de rações para gado e alfaias agrícolas no espaço onde nos encontramos, uma fusão de peças e memórias antigas.

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O jipe preso em areias movediças no passeio à Baía dos Tigres. Foto: DR

Revela que o passado ainda o visita, como a Miss Angola e Portugal 1971, Riquita (Maria Celmira Bauleth), que ali esteve “há meses” e morava “lá ao pé de mim”. O álbum não tem fotografias dela e termina com algumas fotocópias a cores, sem a mesma nostalgia das a preto e branco. Temos, então, a tão esperada oportunidade de explorar o recheio da loja que, de acordo com a placa da imobiliária, está à venda.

Tudo tem o seu preço. Tudo não. Para o Sr. Carita, as recordações partilhadas, como tantas outras que guarda na memória e nos restantes álbuns, não têm valor. Sentimos que uma parte dele ficou lá por opção, tal como revelam as lágrimas nos olhos quando comenta “não há dia nenhum em que eu não me lembre e sempre que falo de Angola…”.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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