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Terça-feira, Outubro 26, 2021

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Mação | Um lugar de Degolados onde ninguém perdeu a cabeça (nem mesmo perante o inferno)

Nem só as pessoas recebem nomes. Os lugares onde elas habitam também são baptizados, um baptismo com influência religiosa notória, num Portugal católico onde santos e mártires exerceram representativa influência na toponímia. Mas que ligação tem a religiosidade com a aldeia de Degolados, no concelho de Mação? Contam-se lendas com bruxas e sanguinárias guerras distantes, recorda-se o “diabo do fogo” que colocou a aldeia no mapa de Portugal em 2017 pelas piores razões, mas tal mórbida origem estará relacionada com São João Baptista, decapitado por Herodes – é ele o orago de Carvoeiro, a freguesia de Degolados.

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Na leitura dos escritos dos homens que estudam a História percebemos que os oragos das freguesias estabeleceram ligações entre a toponímia e os santos patronos daqueles lugares. A devoção acabava por criar domínio toponímico, por isso muitas povoações receberam nomes religiosos, mesmo que à primeira vista não se encontre conexão.

Além da estranheza e da morbidez do nome, muito pouco se sabe sobre a origem do topónimo Degolados, lugar da freguesia de Carvoeiro, em Mação. Contam-se lendas de bruxas e sapos esfolados, justifica-se o topónimo como campo de guerra civil de uma era desconhecida e tem-se na memória recente que a aldeia de Degolados foi das mais afetadas pelos incêndios de 2017, que deixou um rasto de destruição, casas queimadas, hortas dizimadas e um sentimento de dor e tristeza na população, que ainda hoje critica o socorro (ou a falta dele), de bombeiros que nunca chegaram.

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Degolados, freguesia de Carvoeiro, concelho de Mação

Contudo, explicar a origem é mais difícil. Pelo menos para os habitantes da pequena aldeia, cerca de 20 pessoas em duas Ruas, uma delas principal e outra que liga à sede de freguesia, Carvoeiro, e em dois Largos, um de São João. Talvez faça sentido quando tentamos montar o puzzle. Ora vejamos: São João Degolado, o tal a quem chamavam João Baptista por baptizar os crentes no rio Jordão e que segundo a Bíblia foi decapitado por Herodes Antipas. São João Baptista é, de facto, o padroeiro de Carvoeiro.

“A origem do termo Carvoeiro é patente e baseia-se na quantidade de sobreiros e azinheiras que ali havia. O orago da igreja era São João Baptista que, como se sabe, morreu degolado”, lembra a ‘Monografia do Concelho de Mação’ de António de Oliveira Matos e António Joaquim Marques.

Sobre Degolados, os autores concluem ainda que “a fundação desta povoação é posterior à da irmandade de São João Baptista, denominada de Degolados, porque o seu santo padroeiro padeceu desse martírio”.

Mário Lourenço Matos e a mulher Aurora Carolina de Matos. Octogenários que após uma vida inteira de trabalho duro no campo, na reforma espreitam o sol, veem passar os carros e entristecem-se com a floresta queimada à sua frente. Foto: mediotejo.net

Há quem tenha outra explicação. Mário Lourenço Matos ouviu contar há décadas, das quais perdeu a conta, nos seus 86 anos, que Degolados teria sido terreno de guerra civil, numa era que desconhece, e “cortaram a cabeça a muitos”. Dos que escaparam, “ninguém queria voltar para uma terra de degolados”. E o nome ficou.

Tal como ficaram as memórias de uma outra tragédia: o fogo. “O diabo entrou aqui três vezes. Na última queimou tudo”, recorda o octogenário. Ao entrar em Degolados, quase dois anos após o verão fatídico de 2017, percebe-se como a aldeia foi das mais afetadas pelo fogo, que deixou um rasto de destruição.

Sentado num murete junto à porta de casa, agarrado a uma tesoura de poda, Mário Matos já não tem lágrimas nos olhos e até sorri quando conta que já não há vinhas para podar. A mulher, Aurora Carolina de Matos, 83 anos, sentada mais à frente, junto a um poço, explica que tiveram de ser retirados da habitação quando as chamas se aproximavam violentamente. Salvou-se a casa, o resto ardeu tudo. “ Fomos evacuados à tarde para um lar em Envendos e regressámos à meia noite”.

As marcas do fogo em Degolados, dois anos depois do incêndio que queimou 45% do concelho de Mação. Foto: mediotejo.net

O fogo chegou aos barracões onde havia lenha, queimou tudo. “Fiquei sem nada. Tinha aí muito eucalipto, pinheiros, que daqui a uns anos davam muito dinheiro… e agora fiquei sem nada”, relata, apontando para o monte em frente, do outro lado da estrada que leva a Carvoeiro, ainda pintalgado de tons escuros, com árvores negras e despidas.

Morador há mais de 60 anos na aldeia, por conta do casamento com Aurora Carolina, o octogenário refere que nunca viu nada assim: “Estragou tudo, estragou a vida de muita gente e eu sou um deles”, afirma. Atualmente sem rendimentos extra, o casal vive das parcas reformas que, somadas, pouco passam dos 500 euros. Por isso contam com a ajuda do Centro de Dia de Carvoeiro nas refeições diárias.

“A casa não ardeu e agradeço ao meu filho e aos vizinhos. Não houve aqui um bombeiro. Nada!” assegura Aurora. “Não havia luz, os postes queimaram-se, não havia água. Foi horrível”, recorda. Agora “já não há nada para arder”, lamenta Mário.

Na rua principal de Degolados as placas indicam estradões, caminhos e charcas. Parece fazer sentido numa aldeia no meio da floresta, ainda que ardida. Foto: mediotejo.net

O casal trabalhou toda a vida no campo a semear milho, trigo, cevada, batatas. A trabalhar no pinhal, cortar pinheiros, cortar madeira para a serração. Uma vida dura, mas “o pinhal era número um” em Portugal garante Mário.

Naquela pequena aldeia no meio do pinhal queimado, nem Aurora nem o marido se sentem isolados. “Passam aqui muitos carros” a cruzar a estrada que liga Degolados a Carvoeiro, distante uns dois quilómetros. Sentem é falta de pessoas. Gente nova. “São só velhotes!”, confirma Mário.

A cerca de 300 metros está o centro da aldeia, onde vivem cerca de duas dezenas de pessoas, a maioria idosos. A mais nova tem 16 anos e é neta de Manuel Marques da Silva, que conta com 76 e é natural de Degolados.

Manuel Marques da Silva é um dos 20 habitantes de Degolados. Conta 76 anos e tem dificuldades de locomoção devido a uma operação às varizes mas o isolamento não é um problema. Gosta do sossego. Foto: mediotejo.net

Manuel desconhece a origem do topónimo. “Sei lá! Já encontrei a terra com este nome”, afirma. Sobre a sua aldeia natal sabe das mais de 30 pessoas que ali residiam. Uma delas a sua mulher que, segundo conta, morava logo de fronte numa das casas queimadas pelo fogo em 2017. O homem sublinha que as quatro casas consumidas pelas chamas estavam todas desabitadas, mas que algumas se encontravam em condições para serem ocupadas.

Manuel Marques da Silva esteve na guerra do ultramar em Angola, voltou sem mazelas. As canadianas que hoje o ajudam na locomoção explicam-se por uma operação às varizes. Conta que trabalhou na resina, foi cabouqueiro com o pai, a abrir poços e minas, e por fim concluiu a vida laboral na Câmara Municipal de Mação, onde trabalhou 12 anos até se reformar. Teve quatro filhos, todos a viver no concelho, em Mação, Envendos, Castelo e Degolados.

Também Manuel não se queixa do isolamento. “Antigamente vivia-se pior. Não havia estrada, nem luz, nem água. Íamos a uma bica aberta no vale”, conta. Não esconde o “trabalho duro” e os “muitos anos” pelas serras abaixo e acima. “Tirava-se resina, fazia-se aguarraz e pez”.

Uma das habitações atingidas pelos incêndios de 2017 em Degolados. Ardeu e permanece vazia mas cheia de marcas do fogo. Foto: mediotejo.net

Para ir à missa, caminhava-se até Carvoeiro, uma vez que Degolados e não tem qualquer monumento, nem sequer uma capela. As compras também se faziam na sede de freguesia. “Haviam por lá muitas lojas. Hoje resta uma”, nota Manuel.

Degolados não tem comércio – aliás, nunca teve -, mas não faltam os bens de primeira necessidade aos residentes. Os vendedores ambulantes passam na aldeia com os mais variados produtos. “À quarta temos o vendedor de fruta que chega da Carregueira, à segunda vem a mercearia do Castelo. Passa o talho, mas as pessoas preferem ir a Mação. Peixe é às terças e sextas, o pão vem todos os dias, até ao sábado”, aponta o idoso. No que diz respeito à saúde, “o médico de família está no posto de saúde de Carvoeiro” ou socorrem-se do Hospital em Abrantes.

Manuel aprecia o “sossego” da aldeia, o diabo é que tem sempre a mesma cara, de lume. “O fogo deu cabo de tudo!” afirma. Se o incêndio de 2003 foi mau, “o último foi pior. As casas que não tinham gente arderam todas, as pessoas foram evacuadas, nem os bombeiros por aqui passaram. Foi terrível!”.

Maria da Silva Lopes conta-se entre os habitantes mais jovens de Degolados. Tem 52 anos. Uma das filhas emigrou para a Irlanda e outra com 19 anos estuda em Castelo Branco. Foto: mediotejo.net

A expressão aterradora também transparece nas palavras de Maria da Silva Lopes, de 52 anos, uma das residentes mais jovens de Degolados e que já viu emigrar uma filha para a Irlanda, para trabalhar em fisiologia clínica. A filha mais nova, de 19 anos, estuda em Castelo Branco. “Vem aos fins de semana”, diz. Tal como alguns naturais de Degolados, migrados para Lisboa ou outras terras do litoral, com casa na terra. “Mas são poucos.” refere.

Sobre o incêndio em 2017 tem más memórias. O lume entrou-lhe pela casa, queimou o sótão e na horta ardeu tudo, de videiras a árvores de fruto e produtos hortícolas. “A casa ficou toda mascarrada. Um inferno autêntico!”. Valeram-lhe dois motores de rega porque, segundo conta, “não tínhamos bombeiros, ficámos à sorte”.

A tristeza, a dor e um sentimento de perda eram os estados de alma dos habitantes da aldeia. O fogo destruiu-lhes o trabalho de anos, as recordações de uma vida. Já as memórias destes dias perduram no tempo. “A GNR veio para evacuar a aldeia. Nós recusámos sair para proteger a casa e ainda bem, senão tinha ardido tudo. E se voltar o fogo, volto a não sair de casa”, afirma convicta.

Degolados, freguesia de Carvoeiro, concelho de Mação. As marcas do fogo ao longe na floresta ardida. O despontar do verde nas hortas e nas quintas que envolvem as casas. Foto: mediotejo.net

Maria ajeita a roupa antes de se deixar fotografar pela objetiva do mediotejo.net. Conta que quando casou com o marido, de Proença-a-Nova, “havia por cá muita gente”. Atualmente, contrariamente aos vizinhos com quem o mediotejo.net falou, sente-se isolada. “O que mais custa é a solidão. Tenho dias em que não vejo ninguém. Sinto falta de pessoas, de vizinhos” , desabafa, apesar de considerar Degolados um local “airoso, onde se vive bem”.

Sobre a origem do topónimo manifesta-se curiosa, indica até que já tentou saber, com a ajuda da filha fez umas pesquisas na Internet, mas sem conclusões.

À volta o renascer das cinzas, os troncos das árvores mortas permanecem negros espalhados pelos campos que um dia foram verdes. Até as placas toponímicas não deixam esquecer a aflição que ali se viveu. Queimadas, presas por arames, aguardam os apoios financeiros que a Câmara de Mação há muito reclama.

A placa toponímica que dá as boas vindas à freguesia de Carvoeiro, à entrada de Degolados, ainda permanece marcada pelo fogo. Foto: mediotejo.net

Um relatório da Administração Interna, recentemente remetido para o Ministério Público, concluiu que em Mação houve desvio de meios, apesar de múltiplos pedidos e chamadas de atenção ao comando, e foi ignorado o historial do território no que toca a incêndios e condições climatéricas.

Recorde-se que, em 2017, o incêndio atingiu os concelhos de Sertã, Proença-a-Nova e Mação, devastando 30 mil hectares. Destes, 18 mil hectares arderam em Mação, o que corresponde a 45% do concelho. Foram atingidas 50 aldeias e mais de 30 habitações foram total ou parcialmente destruídas pelo fogo. O prejuízo para o concelho, segundo estimativa da autarquia, ronda os 40 milhões de euros. Os prejuízos são cobertos apenas a 60%, enquanto há concelhos afetados pelos fogos apoiados a 100% pelo Estado. Uma injustiça que as gentes destas terras não compreende. E as razões deste “mistério” são ainda mais difíceis de explicar do que o nome da aldeia que tentam manter viva.

A caminho de Degolados, as marcas do fogo permanecem lembrando que há dois anos o inferno chegou a Mação. Foto: mediotejo.net

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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