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Sábado, Julho 24, 2021

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Mação | Toxicodependência: Xutos com Ares do Pinhal no apoio à terapia (c/vídeo)

Fomos conhecer as duas comunidades da Ares do Pinhal existentes em Mação e respirar esses tais ares, que afastam dores e pudores, na esperança de dias melhores. Onde a culpa e o arrependimento surgem, e a consciência trava lutas com a realidade, numa tentativa de perdão pessoal. Afinal, quem são as pessoas que se pretendem ajudar com a participação no concerto solidário dos Xutos e Pontapés deste sábado, dia 26 de novembro, em Mação? Qual o propósito? Sabe do que se trata? O mediotejo.net vai contar-lhe toda a história.

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Com certeza já ouviu falar no concerto solidário dos Xutos & Pontapés que vai acontecer em Mação, a 26 de novembro. Também saberá que este concerto é organizado pela Associação Ares do Pinhal, comunidade terapêutica que comemora 30 anos de atividade.

Mas, perguntamos nós, sabe que o objetivo é angariar fundos para requalificar infraestruturas e melhorar os apoios prestados nas comunidades terapêuticas de recuperação de toxicodependentes existentes no concelho? O mediotejo.net passou um dia com a família Ares do Pinhal, instalada em duas aldeias do concelho de Mação, onde a natureza atinge o seu estado mais puro.

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O dia começou chuvoso, trovejante. Pela estrada, a cada curva, se sentiam os ventos a fazer dançar a flora verdejante. Os pinheiros cumprimentavam à passagem, ao sabor do vento.

Chegamos a Aldeia de Eiras, à comunidade terapêutica da 1ª Fase, ou seja, onde estão os mais recentes membros a integrar o processo terapêutico de pessoas dependentes de substâncias psicoativas.

Aqui, o lema é reaprender. Voltar a dar valor às coisas, às regras. Mas para isso é necessária força de vontade e querer muito levar avante esta luta.

O processo tem duas etapas importantes: na primeira, param os consumos de substâncias psicoativas, levando a que haja um acompanhamento médico e técnico muito estreito, que ajude a suportar sintomas psíquicos e físicos que daí advêm, causados pelo síndrome de privação.

A segunda etapa consiste em reaprender a viver sem substâncias, ao mesmo tempo que se tenta um reencontro com o prazer de viver, dando importância a detalhes que se foram perdendo numa espécie de buraco negro.

Sim, um buraco negro, onde os sentimentos se afogaram, dando lugar a vontades incontroláveis, a desejos injustificáveis, levando a uma queda que é difícil de amparar.

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Fotos: mediotejo.net

Como é que se chega a este ponto? Porquê?

Por respeito à dignidade de quem confiou a sua história, os seus pensamentos e a sua força interior, os retratados são identificados com uma inicial aleatória. Porque o seu nome não é relevante perante as emoções e sentimentos que começam a despertar numa cumplicidade que se gerou tímida e desconfiada.

Foi assim que F, fumando o seu cigarro no pátio, junto ao pequeno tanque que dá para uns belos banhos no verão, e enquanto J tentava encestar no pequeno ringue ali ao lado, lamentou a situação em que se encontra.

“Há dias mais fáceis, e dias mais difíceis”, suspira F, com ar cansado e claramente triste. Ao som da natureza envolvente, com o assobiar das aves, diz-nos que a forma como o dia corre “tem a ver com o nosso estado de espírito quando acordamos. Nem interessa muito se o tempo está bom ou mau”.

Para F o dia começou com cinzento carregado. Há duas semanas na comunidade, lembrou o filho que fará 4 anos e que deixou ‘lá fora’, de quem tem uma fotografia à cabeceira. Com 23 anos, F assume: “não sei como me meti nisto, perdi a profissão, era militar. Não sabemos porque nos calha a nós, é das piores doenças que há… Pelo menos eu acho. Pois perdi tudo”.

Atualmente no segundo tratamento, F não se mostra esperançoso com este novo programa. “O primeiro tratamento, fiz através da tropa, estive lá um mês.(…) Mas aqui, uma pessoa pensa que é um ano e … [respira fundo, como que a ganhar o fôlego que perdeu ao tentar contar os dias que lhe faltam]”.

“Não sei como me meti nisto, perdi a profissão, era militar. Não sabemos porque nos calha a nós, é das piores doenças que há… Pelo menos eu acho. Pois, perdi tudo”

“Quando começamos a ficar sóbrios, começamos a ficar com os sentimentos muito à flor da pele, começamos a ver as coisas que perdemos. É difícil. Eu pelo menos, estou a lidar com isso esta semana, e vejo as coisas más que fiz. Enquanto pai, não fui mau pai mas podia ter sido melhor. Isso vai mexendo, vai mexendo, mas pronto”, confidencia.

F acrescenta que é pelo filho que está em tratamento, “senão já me tinha ido embora, acho que não tinha paciência. Não estou a dizer mal da comunidade, mas estar aqui 24 horas sobre 24 horas não é fácil…”.

Uma família como as outras

Ainda na casa da 1ª fase, em Aldeia de Eiras, acompanhámos a preparação do almoço com a ajuda preciosa da Dona Maria, voluntária na comunidade desde que tudo começou. “Já cá estou há trinta anos, desde que começou. Não sei como vou deixar isto. É parte do meu dia e da minha vida”, conta Maria, acrescentando que se sente bem ali. “Faz-me falta, gosto muito de estar aqui com eles. São todos bons rapazes e boas raparigas. Gosto de qualquer um deles e não tenho ofensa de ninguém desde aqui estou a trabalhar”.

Segundo a Dona Maria, há por ali bons cozinheiros, e aceitam as dicas.

A organização das tarefas é feita numa escala de faxinas, que determina quem fica responsável pela despensa, pela cozinha e confeção das refeições, por tratar da roupa, por fazer limpeza nos espaços.

“Estar aqui 24 horas sobre 24 horas não é fácil…”

Aqui, B é responsável pela distribuição dos bens alimentares e pela organização da despensa. A partir daqui são determinadas as ementas para a semana, contabilizando-se os produtos necessários. A missão é combater o desperdício, e para isso é preciso muita concentração e responsabilidade por parte de todos. “Todos os dias, é feito um pedido diário de faxina, onde fazem o pedido dos produtos necessário, carne, peixe, etc, e eu depois entrego tudo ao pessoal da cozinha, tendo em conta o stock que temos. Nunca nos falta nada, temos sempre carne e peixe frescos, legumes, fruta, tudo o que é essencial”, explica.

Aqui as refeições fazem-se com maior regularidade, havendo pequeno-almoço, bucha da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e ceia, às 22h00, antes de deitar, o que implica que sejam feitas encomendas dos produtos depois de almoço e à noite.

Hugo Oliveira, psicólogo da equipa técnica da Ares do Pinhal, acompanha-nos na visita. “Funcionamos como uma família com as coisas boas e más que isso acarreta. Costumo dizer que somos um bocadinho uma família à italiana ou à espanhola, uns falam e outros falam por cima”, disse entre risos.

Segundo o psicólogo, esta casa, uma antiga escola primária que foi cedida à associação,  “em termos de conforto e aquecimento, precisava ser melhorada”. A nível de equipa técnica, cujos escritórios são também na comunidade de Aldeia de Eiras, existe um médico de Clínica Geral, 2 médicos psiquiatras, 3 psicólogos, 1 neuropsicólogo, 1 técnico psicossocial, 8 monitores e 1 professor de educação física.

No decorrer do projeto existem reuniões de grupo e temáticas, sessões de estimulação cognitiva, atendimento individual, para além da rotina de trabalhos que é distribuída por todos na comunidade terapêutica.

Ainda assim, existem momentos de lazer, programado ou livre, com passeios, atividades em espaço público, atividades desportivas, nomeadamente as aulas de zumba para as senhoras, as idas ao cabeleiro e o café ao fim-de-semana.

Fotos: mediotejo.net
1ª Fase, Comunidade Terapêutica de Aldeia de Eiras. Fotos: mediotejo.net

O contacto com o mundo lá fora

Existem regras que constam na admissão à comunidade terapêutica, entre elas, é ponto assente que tanto na 1ª fase, em Aldeia de Eiras, como na 2ª fase, em Chão de Lopes, não podem ter em sua posse qualquer tipo de substância psicoativa não autorizada, dinheiro, cheques, cartões de crédito, objetos de valor e telemóveis.

Os contactos telefónicos são possíveis, existindo horários e dias específicos para obter informações sobre os residentes ou para o contacto com eles próprios, quando assim se justifica. Ainda assim, é privilegiado o contacto por correspondência escrita, de modo a estimular a comunicação, a leitura e a escrita. Aqui, é garantido o sigilo.

Quanto às visitas, devem ser programadas com três dias de antecedência, e apenas são permitidas as presenças de familiares ou amigos que a Coordenação Clínica entender como fundamentais para o residente.

O projeto tem a duração média de 12 a 18 meses, sendo que a 1ª Fase, na Aldeia de Eiras, é a fase de corte com o exterior e onde começa a adaptação à instituição, durando 2 a 4 meses. Depois, na 2ª Fase, em Chão de Lopes Pequeno, começa a fase de internalização e ressocialização, introduzindo projetos de saída, com acompanhamento de terapeutas.

“E nós precisamos de tempo para nós, para pensarmos nos nossos problemas. Porque aqui na comunidade estamos sempre a levar com os problemas dos outros”

Daqui, avança-se para a 3ª e última Fase, na comunidade da Rinchoa, em Lisboa, com a reinserção durante 5 a 7 meses, podendo o residente trabalhar fora, integrar projetos de procura ativa de emprego e obter a carta de condução, sempre com o devido acompanhamento.

Na 2ª e 3ª Fase é possível efetuarem-se saídas autonómas, para restabelecer contacto com a realidade. Após um mês e meio, o residente apresenta propostas de atividades por escrito, por um período de 4 dias. C saiu recentemente, e diz que foi ao cinema, algo de que tinha muitas saudades. “Vi aquele filme com o Tom Cruise. Aproveitei para ir à cidade, porque aqui não se passa nada. E nós precisamos de tempo para nós, para pensarmos nos nossos problemas. Porque aqui na comunidade estamos sempre a levar com os problemas dos outros”, assume. “Chega uma altura que já ninguém se atura. Faz-nos bem sair. E a mim custou muito regressar…”, contou C.

Hugo Oliveira, psicólogo, e Paulo Lopes, vice-presidente da Ares do Pinhal, junto à Comunidade Terapêutica da 1ª Fase, em Aldeia de Eiras. Foto: mediotejo.net
Hugo Oliveira, psicólogo, e Paulo Lopes, vice-presidente da Ares do Pinhal, junto à Comunidade Terapêutica da 1ª Fase, em Aldeia de Eiras. O edifício, uma antiga escola primária, precisa de obras de requalificação que ofereçam melhores condições aos residentes. Foto: mediotejo.net

30 anos de atividade

A Ares do Pinhal foi criada em 1986 e iniciou as suas atividades com a criação de uma Comunidade Terapêutica para o tratamento de toxicodependentes em Aldeia de Eiras, tendo criado outra na Rinchoa (Sintra, 1992) e outra em Chão de Lopes (1995) e um Apartamento de Reinserção em Caxias (Oeiras, 1990). Foi ainda responsável, em parceria com o então Centro das Taipas e com a Câmara Municipal de Lisboa, pela criação da Escola Profissional de Animadores Sócio-culturais em Lisboa (1991).

A partir de 1998 assumiu também a gestão de alguns Programas de Redução de Riscos e Minimização de Danos no âmbito de uma parceria entre a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e, na altura, o Projecto Vida, com supervisão técnica do Serviço de Prevenção e Tratamento da Toxicodependência (SPTT), atualmente Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), do Ministério da Saúde.

Atualmente a Ares do Pinhal conta com diversos programas dirigidos a pessoas dependentes de substâncias psicoativas lícitas e ilícitas, mantendo assim as duas comunidades terapêuticas maçaenses, com residentes de todo o país e das ilhas.

Segundo Paulo Lopes, vice-presidente da IPSS, este concerto vem celebrar 30 anos de existência mas é importante para a recente criação do fundo de apoio aos residentes mais desfavorecidos. A ideia é também poder “fazer algumas obras de remodelação nas instalações, e quem sabe, conseguir construir uma comunidade nova, de raiz, no concelho”, referindo que esta última ideia é “um sonho” da instituição, uma vez que a casa de Aldeia de Eiras carece de requalificação, por ter uma estrutura que não é favorável para o trabalho da equipa e não dá o conforto necessário aos residentes, comparativamente com a casa de Chão de Lopes, um edifício feito de raiz e com uma estrutura pensada para ser uma comunidade terapêutica.

Agora que já sabe um pouco mais sobre esta IPSS e sobre o seu trabalho junto das comunidades terapêuticas, se é fã dos Xutos & Pontapés ou se pretende deixar o espírito solidário falar mais alto, saiba que ainda vai a tempo de comprar o seu bilhete num dos pontos de venda e dar o seu contributo para esta causa.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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