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Sábado, Outubro 23, 2021

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Mação | Onde quer que vá o guardião do Tejo, a população vai com ele (c/video)

Arlindo Consolado Marques já dispensa apresentações, especialmente na região e no seu concelho, Mação. Esta sexta-feira foi convidado para uma sessão dedicada à sua missão de defesa do rio Tejo, jogando em casa, no auditório do Centro Cultural Elvino Pereira.

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A plateia, escusado será dizer, estava muito bem composta, com largas dezenas de maçaenses, e não só, para refletir em uníssono os últimos anos de poluição que foram levando a uma morte lenta do Tejo e que só foram sendo tornado públicos devido aos vídeos publicados pelo ambientalista.

Hoje, apesar de admitir que a luta é complexa e que nem sempre é fácil controlar os nervos, Arlindo diz aguentar até ao fim, não desistindo do que o fez começar esta aventura. Por amor ao rio, diz, nada o fará desistir.

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A sessão iniciou com o agradecimento público e homenagem a Mário Tropa, o “grande dinamizador destas sessões do ‘À Conversa Com’, pelo presidente da CM Mação, notando a mais-valia das sessões que acontecem há já 4 anos. Vasco Estrela agradeceu a Mário Tropa a sua persistência e aposta no concelho, nomeadamente, e também, com a ajuda da dinamização da Galeria do Centro Cultural Elvino Pereira.

Foto: mediotejo.net

Após este momento, coube a Mário Tropa introduzir o convidado desta sessão, reconhecendo ainda assim que este dispensa apresentações.

“Conhecem a sua ação, é de facto um exemplo de uma pessoa que, pela sua terra e pelo bem comum, está na primeira linha. É um prazer apresentá-lo como exemplo, porque o é de facto”, referiu o responsável pela iniciativa, notando que Arlindo é exemplo de “persistência, combate, de não vergar perante forças que não se sabe muito bem quem são, onde estão, mas que existem. E têm uma grande força e influência”, frisou.

Na mesa já se destacavam duas garrafas de litro e meio. Uma, escura, baça. Negra. Outra límpida, transparente, que fazia reluzir ainda mais o plástico. Ambas estavam etiquetadas. A primeira fora recolhida no leito do rio Tejo em fevereiro de 2016, enquanto a segunda fora recolhida naquele dia, sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018, diziam as etiquetas. A sua garantia sobre o principal foco de poluição nelas constava.

Depois, foi sendo projetada uma apresentação em vídeo, com uma síntese em registo de cronologia, desde 2014/2015, altura em que Arlindo, presença assídua junto do Tejo, o rio onde se banhou, brincou e cresceu durante a sua infância, notou que algo não estava bem.

A cor da água era outra, os peixes já não saltavam. Vinha algo esquisito, espumoso, a criar-se em cantos e recantos por onde, no seu barco, costumava navegar sozinho ou na companhia do filho. O Tejo da sua infância e adolescência não era aquele. Não era o rio onde o seu avô havia pescado de noite, para que a sua mãe e tia pudessem vender o peixe de aldeia em aldeia.

Foto: mediotejo.net

“Quando andava aqui na escola há 35 ou 36 anos, com a rapaziada da Ortiga, fugíamos da escola. E para onde é que a gente ia? Para o Tejo”, referiu, lembrando as tardes passadas nas barraquinhas dos pescadores a jogar às cartas, nas pesqueiras de Ortiga, onde antes, com fio, anzol e engodo apanhado no mato, deixavam presa a uma pedra esta armadilha improvisada que na altura os brindava com belos exemplares de barbos.

O pior que foi notando, em final de 2014 e início de 2015, foi registando em vídeo. “Espuma branca, parecia tinta, e a água a mudar de cor”, recordou Arlindo Marques, referindo que ali teve a certeza que algo não estava bem. E a 13 de maio de 2015, teve conhecimento de uma mortandade de peixes na Barragem de Belver/Ortiga. Foi a confirmação de que o rio precisava de uma voz ativa, que denunciasse o mau estado das águas.

A conversa foi sendo alimentada por intervenções de cidadãos presentes, que foram interpelando Arlindo, não só sobre o porquê de ter começado, mas como detetou o foco de poluição na zona de Vila Velha de Ródão.

Também o apoio dos pescadores, alguns presentes na iniciativa, e das pessoas em geral, bem como dos movimentos ambientalistas nacionais e internacionais foi recordado, salientando ainda a sua entrada para o movimento ambientalista proTEJO.

Sobre os focos de poluição, surge o inevitável tópico: o processo interposto pela empresa Celtejo por difamação e calúnia, pedindo uma indemnização de 250 mil euros.

E aqui, o tema das empresas de celulose aqueceu os ânimos, em que as opiniões e interpretações provocam um debate aceso na plateia, levando a que alguns membros optassem por se ausentar momentaneamente, para esfriar as ideias de quem se sente parte do Tejo e que dele sempre tirou sustento até a poluição chegar, e que acredita de forma veemente que a poluição vem daquela empresa de celulose em Vila Velha.

Um dos presentes, Investigador da PJ, primo do Juiz Carlos Alexandre e também com raízes em Mação, mostrou-se solidário com a causa e com Arlindo Marques. Foto: mediotejo.net

O fraco caudal do rio, o segredo de justiça imputado ao processo de investigação sobre a poluição do rio, que impede saber o resultado das análises, a incógnita sobre se existe aqui ou não um problema de saúde pública comprovado, tudo isto foi debatido. E até as críticas ao silêncio do Presidente da República se fizeram notar.

Arlindo assumiu ao mediotejo.net que sente “alguma revolta” pelo facto de o Presidente da República nunca se ter pronunciado sobre o estado do rio, tendo já enviado duas cartas sobre o tema, sendo que a segunda teve resposta do gabinete de Marcelo Rebelo de Sousa.

“Enviei outra, talvez há um mês, e já tive resposta. Alguém do Gabinete respondeu, referindo achar muito bem, que o que andava a fazer era de louvar, mas que [o Presidente da República] não podia interferir nem me podia ouvir, devido a eu ter um processo em tribunal, o dos 250 mil euros (…) Eu aceito essa decisão e qualquer dia vou publicar isso, agora não aceito que o nosso Presidente da República não venha aos portugueses, por exemplo, aconselhar o Governo a que se resolva o problema da poluição do Tejo. Tão simples como isto”, defendeu.

O ambientalista reconhece que este silêncio de Marcelo Rebelo de Sousa tem causado estranheza junto da população e dos seus seguidores nas redes sociais, pessoas que têm acompanhado a missão e denúncia da poluição.

“Se ele fala sobre casos que têm tanta importância como o rio, porque é que ele não diz uma palavra. Porque ele é o nosso Presidente. Mas não diz nada. Resignou-se ao silêncio. Não sei… Uma palavra dele teria força para que isto se resolvesse mais depressa”, acrescentou.

Arlindo, que já se encontra a trabalhar junto do seu advogado no processo interposto pela empresa Celtejo, de Vila Velha de Ródão, diz esperar que “algum dia venham a falar a verdade, alguém tem de ser responsável por este crime ambiental, não são os portugueses. Alguém tem que responder por isso”, terminou.

Quanto ao processo, Carlos Alexandre já esteve com Arlindo Marques e será indicado esta semana como testemunha abonatória do guardião do Tejo, como o juiz já havia revelado em entrevista ao mediotejo.net. As custas já começaram a aparecer, e para isso Arlindo continua a contar com a solidariedade dos portugueses, que têm ajudado a angariar fundos numa campanha de crowdfunding promovida pelo Movimento proTEJO, a que pertence. Até às 18h55 desta terça-feira, dia 27, foi atingido 55% do objetivo de 21 885 euros, graças a 511 apoiantes. Quem queira participar, tem 2 semanas e 2 dias para o fazer na plataforma de crowdfunding.

Quanto ao processo, Arlindo mostra-se esperançoso, ainda que saiba que “vai ser difícil” e que o adversário é forte e que estará pronto para “o massacrar em tribunal”. Isto causa algum receio porque será o rosto de uma causa pública, de todos. “Quem se vai sentar na cadeira sou eu”, disse, com riso nervoso.

Questionado sobre se, com o processo instaurado e com a luta que diz que travará até “às últimas instâncias”, já pensou em desistir desta missão que tomou como sua, Arlindo imediatamente responde: “Não! Desistir? Não vou desistir. Meti-me nelas, agora é sempre para a frente. É como costumo dizer, quem anda à chuva, molha-se. Sempre para a frente!”.

Pela causa, pelo rio. Por amor. “O rio dá-me paz. Se estou enervado, vou para o rio. E sinto-me bem. E já vejo peixes a saltar. A vida está a voltar. E agora é continuar a acompanhar, eu e o pessoal do proTEJO, prontos a controlar o rio”, disse, determinado.

Mais fotos da sessão aqui:

 

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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