Mação | Nuno Barreta: “Um enfermeiro estará sempre ao lado do utente em defesa da vida”

Foto: Ordem dos Enfermeiros

Numa altura em que o mundo está em guerra contra a pandemia de covid-19, o mediotejo.net quis conhecer um pouco mais a realidade dos profissionais de saúde e em concreto do enfermeiro em território maçaense, num concelho vasto, extremamente envelhecido e com idosos (ainda mais isolados) hoje nas aldeias distantes da sede de concelho por força das imposições de distanciamento social e maior recato dos grupos de risco: idosos e doentes crónicos. Até ao momento, Mação regista dois casos positivos de infeção pelo novo coronavírus, não tendo no momento ninguém em vigilância.

Nuno Barreta é especialista em enfermagem comunitária e perito da Ordem dos Enfermeiros em saúde comunitária, a desempenhar atividade profissional no Centro de Saúde de Mação desde 2001, estando ligado à Unidade de Saúde Pública do Agrupamento de Centros de Saúde do Médio Tejo (ACES Médio Tejo).

Nuno Barreta
Idade: 44 anos
Enfermeiro especialista de enfermagem comunitária
Vereador da Câmara Municipal de Mação
Naturalidade: São José das Matas, Mação
Casado. Pai de um rapaz, de 15 anos, e de duas meninas, de 10 e 5 anos.

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Nuno Barreta é enfermeiro há 24 anos, desde 2 de agosto de 1996. Não tem descurado adquirir mais competências e renovar conhecimentos, e prova disso é o seu percurso académico. Tirou o Bacharelato em Enfermagem, na Escola Superior de Enfermagem de Santarém, tendo feito Curso Complemento de Formação (licenciatura em Enfermagem) Escola Superior de Enfermagem de Santarém. Mais tarde frequentou Mestrado em Sociologia: desenvolvimento e Cidadania, na Universidade da Beira Interior. Tirou ainda Especialidade em Enfermagem Comunitária, na Escola Superior de Enfermagem de Portalegre, instituição onde fez Mestrado em Enfermagem: Gestão de Unidades de Saúde.

Começou por explicar que além do trabalho que efetua 7 horas por dia no Centro de Saúde de Mação, surgem as tarefas de vigilância epidemiológica que são feitas a qualquer hora e sempre que necessário, sendo que colabora com o ACES Médio Tejo neste serviço de vigilância. “Efetuo inquéritos epidemiológicos, vigilância ativa de utentes em domicílio e esclarecimentos à população, sempre que solicitados”, explica.

Já no centro de saúde estão a ser respeitadas as indicações da DGS, estando a prestação de cuidados feita pelos médicos de família a ser feita sem presença do utente. “Presencial só situações agudas”, sublinha.

Os cuidados prestados pela equipa de enfermagem do Centro de Saúde cumprem igualmente as recomendações, mas são feitos os tratamentos no centro de saúde ou no domicílio, estando igualmente a tentar manter-se o esquema de vacinação.

Já passou diversas instituições na Grande Lisboa, das quais diz guardar “o carinho e os ensinamentos que me permitiram crescer enquanto pessoa e enquanto profissional de saúde/enfermeiro”. Esteve de 1996 a 2001, no Hospital de Santa Marta (Unidade de cuidados intensivos de cardiologia). E de 1997 a 2001, no Hospital Militar de Belém (serviço de doenças infetocontagiosas), “o serviço e o hospital que, foi fechado pela crise económica, e ai agora abrir para responder à crise de saúde pública”, notou.

É em 2001 que entra ao serviço no Centro de Saúde de Mação, tendo em 2010 ingressado na equipa da Unidade de Saúde Pública, estando por isso a lidar de perto com o acompanhamento epidemiológico no concelho e na região do Médio Tejo.

Foto: Ordem dos Enfermeiros

Quanto questionado sobre se um enfermeiro, à partida, está pronto para enfrentar uma situação pandémica como esta que hoje vivemos, e que se alastra pelo mundo dia após dia, refere que, tratando-se de uma situação nova “ninguém poderá dizer que está completamente preparado, nem mesmo aqueles que já estiveram em cenários de guerra, poderão afirmar que estão preparados na sua plenitude”.

Ainda assim, acredita que em Portugal são formados “os melhores profissionais do mundo” e que a experiência “uma mais valia para os profissionais de saúde”. Apesar de tudo crê que “qualquer profissional de saúde, perante uma solicitação de resposta inevitável a uma crise, mobiliza os seus conhecimentos e as suas competências e dará certamente sempre o melhor de si”.

“Como enfermeiros que somos, não abandonamos ninguém e estaremos sempre do lado dos doentes/utentes em defesa da vida”, reforçou.

Quanto ao procedimento no seu dia-a-dia, desde que entra ao serviço até chegar a casa, o enfermeiro conta um pouco da rotina praticada. O certo é que a rotina diária e familiar foi-lhe retirada pela pandemia. “Em família, seguimos as recomendações das Autoridades de Saúde. Se recomendamos, aos outros, então temos que dar o exemplo: isolamento social – as crianças estão há 3 semanas em casa, as primeiras 2 semanas ficaram com a mãe, o pai foi trabalhar para o centro de saúde. Higiene das mãos e medidas de etiqueta respiratória, são comportamentos a que estamos muito mais atentos, em especial no reforço de exigir às crianças o seu cumprimento. A visita aos familiares, no caso da sogra e avó (institucionalizadas no Lar de Ortiga) deixou de acontecer e o único contacto é feito por telefone. Ou telefonamos nós, ou ligam do lar. Aconteceu a avó hoje à hora de almoço pedir para falar com a neta e o lar telefonou-nos, proporcionando esse contacto”, contou.

Por outro lado, enquanto profissional de saúde, refere que, além do cumprimento das normas da DGS, conforme circular de 29 de março “dentro da instituição, em contacto com os utentes, é usada a máscara cirúrgica. A lavagem e/ou desinfeção das mãos, passou a ser uma preocupação constante. Existe por exemplo, solução alcoólica disponível para desinfeção das mãos em muitos mais locais, dentro da instituição”.

Por outro lado, o sentido de preocupação e responsabilidade acrescida surge quanto à  proteção dos profissionais de saúde e à proteção dos utentes. “Temos que ter consciência que podemos ser infetados por aqueles que cuidamos, ou podemos infetar os que cuidamos ou infetar os nossos familiares. A palavra de ordem tem que ser Proteção, Proteção, Proteção”, indicou Nuno.

Trabalhar na Unidade de Saúde Pública do Médio Tejo em tempo de pandemia, é para Nuno Barreta, “mais uma experiência para a vida”, onde a família é deixada em segundo plano para que surjam na sua plenitude o “espírito de missão, a dedicação total à camisola”. Segundo o enfermeiro “tem que ser assim, somos formados assim, para cuidar! Cuidar sempre”, afirmou.

A Unidade de Saúde Pública, garante, “deixou de entrar ao serviço para estar sempre ao serviço” desde que foi declarado o estado de emergência nacional, uma vez que as solicitações se verificam “a qualquer hora do dia, em qualquer dia da semana”.

“Quem faz a vigilância ativa dos utentes, no domicilio? Somos nós, os sete dias da semana. Hoje por exemplo, enquanto fazia um contacto a uma família, notei que anseiam pelo meu telefonema, vêem o meu número, atendem com um «Olá, enfermeiro Nuno!». Isto demonstra que de alguma forma se sentem cuidados e acompanhados. E no passado fim-de-semana, uma família questionou-me se não descansava ao fim-de-semana. Respondi que sim, claro que descanso! Mas este contacto tem que ser feito seja em que dia ou hora for, e é isso que estou a fazer”, lembrou.

A logística e organização têm sido enormes e muito duras, com necessidade de planeamento, dando alguma segurança através da antecipação de cenários.

As dificuldades para os profissionais de saúde, segundo Nuno, vão surgir “se existir uma subida brusca de doentes infetados com o novo coronavírus, pois corre-se o risco de não ter material, instalações ou profissionais para cuidar de todos ao mesmo tempo”, considerando que é de “louvar todas as medidas tomadas, para conter o aumento dos casos positivos de covid-19”.

São humanos e como tal, não são imbatíveis e invencíveis, mas a verdade é que neste contexto são apelidados de heróis pelo esforço hercúleo que fazem em prol dos doentes, pessoas de risco, etc, e como se esforçam para desempenhar as suas funções gerindo o stress, as emoções, o cansaço. Mas Nuno diz que é tudo uma questão de amor à camisola e sentido de missão.

“A formação que nos é dada, prepara-nos para o amor à camisola e espírito de missão. O stress é em muitos de nós o alimento, que nos faz superar tudo, para a cada momento e em cada situação, darmos o nosso melhor. Heróis, não sei se somos! Somos sim seres humanos, que usamos competências e conhecimento para cuidar e salvar vidas”, disse.

A família é “porto de abrigo”, ainda que em segundo plano e penalizada com a ausência, e como tal, “resta a esperança que, quando isto tudo passar, a família possa ser compensada”.

Foto: Ordem dos Enfermeiros

E como lida a família de um enfermeiro com o facto de saber que este tem de sair todos os dias para a “guerra” e estará mais exposto ao contágio? A cada saída ficam de coração nas mãos, certamente… E sim, as famílias têm medo do que possa acontecer, e a de Nuno não é exceção. “É claro, a família tem medo, mas sabem que tudo faço para os proteger, e não os irei colocar em risco. Mas também percebem que não posso faltar ao meu dever”, declarou.

Sobre as respostas que têm sido dadas em Mação, o enfermeiro Nuno refere que “a informação tem chegado à população pelos meios de comunicação social, nas redes sociais, difundida pela autarquia ou pelas juntas de freguesia, pelos profissionais de saúde do centro de saúde ou mesmo pelas forças de segurança”, salientando que em Mação “a GNR tem tido um papel fundamental, nas situações em que existe renitência ao cumprimento das recomendações de isolamento social”.

No caso de Mação, um território com uma população extremamente envelhecida (com um índice de envelhecimento de 491,5% em 2018, segundo o Pordata), com muitos idosos isolados… se um surto disparasse no concelho, os profissionais de saúde e agentes sociais iriam ter resposta para acudir às necessidades?

Para Nuno os idosos isolados “neste momento, se cumprirem o isolamento social, dificilmente serão infetados”, e os lares e IPSSs, no início da pandemia, atualizaram/efetuaram os seus planos de contingência. Mas em caso de crise, receio que nenhum consiga, por si só, sobreviver à crise”.

Tal deve-se nomeadamente à escassez de equipamentos de proteção individual, para prestar cuidados a doentes infetados. “Poucas instituições dispõem em stock de quantidades adequadas, e adquirir agora no mercado EPI é difícil ou impossível”, referiu, sublinhando ainda o facto de o número de trabalhadores a prestar cuidados nas IPSS “estão já no limite e não dispõem de banco de voluntários”, e depressa lembrou os casos de lares em Portugal onde teve que existir intervenção externa (INEM, Ministério da Defesa Nacional, Hospitais públicos e privados), precisamente pela falta de capacidade e recursos.

Nuno Barreta é enfermeiro de profissão, a desempenhar funções na área da saúde pública, mas é também vereador eleito na Câmara Municipal de Mação. Neste sentido, refere ter feito proposta ao executivo municipal de Mação no sentido de adquirir EPI e álcool gel para apetrechar as instituições do concelho e distribuir pelos grupos de risco, neste caso com incidência na população idosa.

“Foi com enorme tristeza que vi, na passada reunião de 25 março, o executivo de maioria na Câmara de Mação recusar a proposta do vereador Nuno Barreta, de aquisição de EPI e álcool gel, para dotar as instituições do concelho e distribuição à população idosa”, lamentou, acrescentando que “é preciso planear, com antecedência, precisamos de fazer tudo o que está ao nosso alcance para proteger e salvar os nossos”.

Nuno Barreta diz crer que “nenhuma instituição conseguirá sozinha adquirir EPI em quantidades suficientes”, e como tal “a liderança da autarquia era crucial, pois comprar em escala só traria benefícios para todos”.

Ainda assim, e lamentando ainda que enquanto vereador tenham sido “pouco aproveitados os seus conhecimentos científicos nesta matéria”, diz que sempre mostrou disponibilidade. “Continuo a estar disponível”, concluiu.

E que lições o setor da saúde em Portugal pode tirar desta pandemia que se alastrou ao país tão rapidamente, pondo à prova diversos hospitais, centros de saúde, instituições, laboratórios,… Nuno acredita que irá servir para que “os defensores do SNS quererem e lutarem por melhorias, entre elas mais equipamentos, mais profissionais, mais instituições (hospitais e centros de saúde) e com melhores condições de trabalho para todos”.

Por fim, fica o desejo e o anseio que “os médicos, enfermeiros, ou outros técnicos de diagnóstico terapêutico, atualmente a trabalhar fora de Portugal, possam regressar rapidamente” para servirem os seus no seu país, com condições dignas para exercerem as suas funções.

“Já aos «coveiros» do SNS, aqueles que desde o início não o queriam, a esses, acho que fica provado que sempre estiveram errados. Espero que tenham aprendido a lição”, terminou.

Por fim, e não menos importante, o enfermeiro lembra as recomendações que todas as pessoas devem respeitar e nunca esquecer por estes dias. “A todos peço que respeitem as recomendações das Autoridades de Saúde. Isolamento Social, medidas de etiqueta respiratória, lavar as mãos sempre que necessário. Esta é uma luta de todos! Se todos lutarem contra a propagação do novo coronavírus, certamente que teremos melhores resultados. As medidas decretadas pelo Estado de Emergência são para cumprir”, sublinhou.

Nuno acredita que depois da pandemia, “nada vai ser igual”. “Vamos dar valor à saúde, à família. A sociedade certamente vai ficar diferente. Vamos valorizar os profissionais de saúde, claro que sim”.

E logo deixa uma “palavra de apreço para todos os profissionais ligados à saúde, os funcionários de lares, dos reabastecimentos alimentares, militares e forças de segurança, bombeiros, juntas de freguesia e todos os que de alguma forma contribuem para minorar o efeito da pandemia”, que estão na linha da frente deste duro e inglório combate contra um inimigo invisível, mas que deixa rasto de destruição em termos sociais e económicos, ceifando vidas e massacrando enfermeiros, médicos e técnicos de saúde que tudo dão em prol da comunidade, para a salvar numa guerra que é de todos. E em que todos devemos, e temos, de fazer a nossa parte. Porque só assim vai ficar tudo bem.

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