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Mação | No solo da Bufareira brota com resiliência um teimoso pomar de limoeiros

É caso raro entre os jovens que saem do seu concelho para estudar na faculdade e conseguem (e querem) regressar para trabalhar. Mais raro ainda quando volta para trabalhar na área em que se formou. Quer mostrar a si próprio que consegue honrar o compromisso que ganhou através de uma candidatura a fundos comunitários para concretizar um projeto inovador em Mação. Manuel Saldanha Rocha, de 27 anos, engenheiro agrónomo, deixou a vida dura de trabalho nos campos do Alentejo para voltar a casa, resistindo contra a maré e, sem se aperceber, cumprir a vontade do avô, dedicando-se à terra. Aquela em que vive e a que sustenta o pomar de limoeiros que ali lutou nos últimos três anos para plantar, em busca de um negócio rentável, qualidade de vida e, acima de tudo, futuro.

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Atravessamos a vila, num sábado à tarde. Subimos ali perto do cemitério, até entrar em zona florestal. Do alto, vemos o horizonte traçado em linha de pinheiros e eucaliptos. Aos pés, descem outras linhas. Pequenas árvores alinham no terreno, milhares delas, a fazer lembrar um tecido de bordado, simetricamente pontilhado de onde desponta o verde entre a terra meio barrenta.

Linhas de cabos de rega esticados a delimitar os ícones daquele local: limoeiros que daqui por dois a três anos já vão estar a produzir frutos contados à tonelada, para escoar para o mercado português e mais além. Pelo menos é nisto que o proprietário e impulsionador acredita. E para isso trabalha todos os dias. Fins-de-semana incluídos, como nesta altura da visita do nosso jornal à propriedade.

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Tem consigo a mãe e o pai, Juca e José Manuel. A mãe é professora universitária, doutorada em Ciências Farmacêuticas pela Universidade de Lisboa, cidade onde nasceu. O pai, empresário, com gosto pela poesia e pela agricultura e tradição, foi presidente da Câmara Municipal de Mação e preside à mesa de Assembleia Municipal atualmente. São proprietários de uma loja de produtos locais e regionais, defensores da qualidade do que é produzido pelo saber-fazer maçaense. Tiveram três filhos, Manuel, Guilherme e Margarida. Mas, dos três, Manuel sempre foi o que demonstrou maior afeição à terra.

Encontramos Manuel na parte inferior do terreno inclinado da Bufareira – assim os antigos chamaram àquela zona, ali nos limites da vila e já perto do lugar de Mantela – de roda do trator e das caixas de rega que adapta para a rega a partir da mina de água antiga ali existente. Encontram-se uns vestígios de vinha por ali, antiga por sinal, e a parte final da plantação de limoeiros.

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Ainda que cansado, enlameado, e sempre de mãos ocupadas nos afazeres da tarde, Manuel começa por dizer que aquele é ofício de domingo a domingo e atira “quem quiser uma vida descansada, que nunca case com um agricultor!”, ri-se.

Começa por dizer que acha ter nascido “na geração errada”, porque diz ter uma forma de pensar e estar “totalmente diferente daquela que cerca de 99% das pessoas da minha idade tem”.

“Estou a fazer as coisas ao contrário: estou a criar um negócio que espero que gere riqueza e me traga rendimento, que permita um dia construir uma casa e ter dinheiro para o negócio e para casa. Eu penso diferente”, diz, lembrando que a standartização da sociedade tem imposto outra regra para os jovens, colocando outras prioridades no caminho.

Os pais de Manuel, Juca e José Manuel Saldanha Rocha, apoiam sempre que possível no novo projeto do filho, tendo estado presentes desde o primeiro momento. Aqui, durante a plantação das árvores em junho deste ano. Foto: DR

Manuel Saldanha Rocha, 27 anos, fez licenciatura em Engenharia Agronómica, curso que terminou há cinco anos. Fez o primeiro ano em Lisboa, não gostou, e mudou para Santarém.

Diz que a agricultura surge “naturalmente”, embora na família ninguém tivesse ligação ao setor diretamente. A decisão de enveredar por esta área acontece “por gosto” ao ponto de ter sido a primeira escolha quando se candidatou à faculdade.

“Nasci para ser agricultor, é o destino”, afirma.

Após terminar o curso, não sabia muito bem em que área do setor queria seguir e aí decidiu começar logo a trabalhar, apesar de em casa insistirem para que seguisse para o mestrado, mas ‘Manel’ – como é tratado carinhosamente pelos pais e conhecidos – optou por não o fazer, por ser demasiado específico e lhe encurtar a margem para o futuro em termos de especialização.

“Como não tinha tradições familiares na agricultura, nunca tive uma vertente prática e de conhecimento do campo a sério. Faltava um bocado a questão prática, a componente do saber fazer, e fui trabalhar no Alentejo, com o primeiro trabalho a sério na Vitacress, em Odemira, para estágio profissional”, começa por lembrar.

Durante as férias da faculdade costumava ir trabalhar para explorações agrícolas, e “nos dois últimos verões fui para o Vale da Rosa, em Ferreira do Alentejo, conhecidos pela uva de mesa, sem grainha”, acrescenta.

Sempre que tinha tempo, nas férias e mesmo ao fim-de-semana, andava sempre “desertinho” para vir para Mação, para a terra.

Isto porque, nas horas vagas, Manuel começou a pegar nas propriedades de família que estavam abandonadas, e começou a recuperá-las “com o pouco dinheiro que tinha e que a terra também dava”.

“Comecei a gradar a terra, a podar as árvores, a cortar as balças e o mato. No início a minha ideia era manter o que já tínhamos, nas férias, feriados e fins-de-semana. No verão, ia para as explorações trabalhar e ganhar o meu dinheiro”, justifica.

Sobre essa experiência de trabalho, diz não ter dúvidas do contributo para a pessoa e profissional que hoje é. “Faz abrir os olhos, é experiência de vida. O facto de nos obrigar a sair da nossa zona de conforto, sair sozinho, fui para Lisboa, para Santarém, para Leiria, depois para Odemira e Ferreira do Alentejo. A 300 quilómetros de casa… isto dá-nos maturidade e faz-nos perceber o que queremos efetivamente fazer no futuro”, assume.

Manuel começou “por baixo”, nas colheitas, nos embalamentos, a carregar caixas… A “trabalhar no duro”.

“No Vale da Rosa tinha dias em que bebia 4 litros de água, debaixo das estufas a apanhar uva, era muito duro. A hora de almoço era debaixo da vinha. Não havia pausas. É uma vida de sacrifício. Isso fez-me perceber que, mesmo enquanto técnico, iria ter uma vida dura e com pouca progressão”, conta-nos.

Manuel diz ter-se apercebido a certa altura tratar-se de uma área onde os técnicos “ganham pouco dinheiro e trabalham muitíssimas horas”.

Foto: mediotejo.net

A agricultura “é mal paga, é um setor mal pago por causa dos mercados onde estamos inseridos. As grandes superfícies querem é esmifrar preços e o proprietário muitas vezes também não pode pagar muito a quem trabalha. O proprietário tem tantos encargos, tem que salvaguardar as intempéries que estragam a cultura, tem que salvaguardar os anos em que as culturas estão ao desbarato e não dão dinheiro… Os anos em que dá, é para dividir pelos outros em que não dá, para aguentar o negócio”, refere.

Foi a observar a vida dos técnicos pelas explorações onde trabalhou que Manuel tomou consciência de que tinha de tomar uma atitude para alcançar um rumo para a sua vida: ou iria ter a mesma vida que eles no futuro, ou a única hipótese de ter uma vida com mais qualidade e com mais folga financeira, era apostar e investir numa exploração sua.

“Ter um produto próprio, ser dono de um negócio. Aí estou dependente do mercado, mas sou eu quem decide onde vou parar. Tenho a possibilidade de fazer projetos, tentar ir buscar financiamentos. Enquanto técnico, a trabalhar para uma empresa de outrém, não acrescentava valor nenhum nesse aspecto”, argumenta.

Optou por arriscar. E diz não temer o que o futuro lhe reserva. “Vou continuar a arriscar, até que comece a dar lucro e até que consiga provar a mim mesmo que é um projeto vencedor”.

Apesar de ter propostas de trabalho, não se acomodou e decidiu apostar no seu futuro e na sua carreira profissional enquanto jovem agricultor, proprietário de um projeto e dono do seu destino.

Quis desistir da dureza da jorna, que tantas vezes iniciava às 5:30 da manhã e fechava às 7 ou 8 da noite, sem direito a fins-de-semana, e onde o dinheiro ganho não era justo, nem suficiente para os gastos que tinha e para a vida que quer construir para si.

Mas desengane-se quem pensa que o objetivo de Manuel é fugir à dureza da vida de agricultor. Não é disso que se trata. Manuel quer sim construir um projeto viável e sustentável, que lhe dê rendimentos para uma vida minimamente desafogada. Diferente do que já vivera noutras explorações.

“Acredito e compreendo que haja quem se acomode e conforte com um salário baixo, mas que só trabalhe de segunda a sexta e goze os fins-de-semana a passear. Se calhar eles é que estão certos, porque enquanto isso eu estou aqui ao sábado e ao domingo, e só saio bem depois de o sol se pôr. Não se pode ter tudo na vida: ou tenho um ordenado de técnico a trabalhar para alguém, com direito a gozo de férias e folgas ou fins-de-semana, ou então sou dono do meu negócio e é dia sim, dia sim”.

Foto: mediotejo.net

A Bufareira entra na sua vida para lhe dar espaço de manobra e de crescimento pessoal e profissional. Um terreno da parte do avô paterno e dos irmãos deste, que faz parte da história da família em Mação e que passa agora para a geração mais nova.

“O meu avô sempre quis ter pelo menos um neto que estivesse ligado à farmácia e aos negócios da família. Talvez eu seja dos netos que gosta mais de Mação. Ele via isso e começou a perceber que um dia mais tarde, se não tivesse possibilidades de me agarrar a algo aqui, ficava no Alentejo ou iria para o estrangeiro”, conta.

Manuel diz que o avô pensou no seu futuro e teve visão ao ponto de negociar com os outros irmãos a aquisição dos terrenos que herdaram. “São terrenos muito melhores, com aptidão agrícola, enquanto que os outros que eu tratava, da parte da minha avó, são de minifúndio com meia dúzia de oliveiras”, descreve.

Em terras florestais, Manuel abriu uma janela de oportunidade e aproveitou a porta entreaberta para mudar de vida. Também aquele terreno deixou de ser essencialmente revestido de pinhal e mato, após três anos de preparação das terras para instalação de uma nova cultura.

2017-2020: à terceira foi de vez

Deixou de “trabalhar para sobreviver”, e sem ter outro trabalho em vista, regressou a Mação em 2017. Esteve um ano a ajudar o avô na farmácia, a ajudar na plantação de eucaliptos em terrenos da família que só têm aptidão florestal, até que ingressou numa equipa de sapadores florestais.

“Não conhecia o terreno, não fazia a menor ideia do que aqui existia em termos de água, infraestruturas. Não sabia que havia um tanque e dois poços. Não sabia que tinha uma mina de água. Não sabia que era terra de cultivo. Só depois de mexer na terra comecei a perceber o que tinha em mãos”, conta.

Este foi o ano dos primeiros passos, com a primeira candidatura destinada a jovens agricultores do ProDer, até que o projeto de Manuel conseguiu ser um dos 170 em 1700 candidatos a nível nacional a seguir com contratação.

“A primeira tentativa não correu bem, tinha cerca de 14 valores. A segunda, com 16 valores, bateu na trave. E à terceira, submetida em 2019, para pontuar mais, tive de associar-me a uma organização de produtores e aí consegui pontuação de mais de 17 valores. Em julho deste ano assinei contrato. Foram três anos de impasse, com muito dinheiro empatado, a investir na preparação e manutenção das terras até junho de 2020”, disse, notando um investimento já a rondar os 150 mil euros.

“Já estava a ficar sem capitais próprios para investir. Mas ao mesmo tempo não queria desistir do projeto, uma vez que já aqui tinha investimento feito. Tive a sorte de ser aprovado, a muito custo, muita discussão e muitos telefonemas para o Ministério da Agricultura. Com muita água benta, consegui assinar contrato. Consegui ser mais teimoso que eles. E não é nada fácil… são processos muito burocráticos”, nota.

Manuel crê que há “pouca sensibilidade” da tutela, que acaba por “não dar devido valor às dificuldades que o agricultor passa no dia-a-dia”.

“Se estes processos fossem muitos mais céleres e mais fáceis, a agricultura seria muito mais desenvolvida em Portugal. Admito: se eu não fosse teimoso e persistente, nunca tinha chegado aqui. Porque a maioria das pessoas, se não corre bem à primeira tentativa, arrumam o projeto na gaveta”, sublinha, ciente de que a sua sorte foi trabalhosa.

Mação não é zona tradicional de pomares, nem de hortícolas como no Oeste, nem zona de grande olival como o Alentejo. Tem áreas muito pequenas, de minifúndio, e onde não há grande interesse agrícola. “Não é fácil em Mação, onde a média das áreas ronda os 5 mil metros quadrados, reunir como eu 40 mil metros quadrados para um projeto economicamente viável”, admite, referindo que a dimensão do seu pequeno projeto estava no limiar dos cálculos do Ministério para o estudo de viabilidade da candidatura.

Se não tivesse uma pontuação alta, tendo um projeto de 4 hectares, não teria conseguido alcançar dotação financeira. “O Governo devia criar uma regra ou uma lei em que prevalecesse o apoio às pequenas áreas em territórios do Interior. Não há apoios. E se não apostarem no setor primário, não vamos a lugar nenhum”, defende.

Rei de todos os citrinos, o limão sai vencedor

Manuel e o pai, José Manuel Saldanha Rocha, seu parceiro nesta nova aventura de produtor agrícola com um negócio em crescimento. Foto: mediotejo.net

Entre os múltiplos frutos que vingam em Portugal, porquê o limão? A história começa José Manuel Saldanha Rocha, o pai.

A família tem um laranjal com 80 anos, e o pai começa a vender o excedente de laranjas em Lisboa, numa mercearia de um senhor natural de Chão de Codes, que por lá está há 50 anos, perto do colégio onde Manuel fez o secundário.

“O meu pai entretanto sai da Câmara e entra na reforma, e vê ali uma possibilidade de negócio como rendimento adicional e uma forma de se entreter e manter ocupado. As encomendas começam a crescer de tal forma, que deixamos de ter capacidade de resposta e começamos a comprar a pequenos proprietários, que tinham pomar de horta ou de quintal. Atingimos uma escala em que se vende entre 30 a 40 toneladas de citrinos por ano, cerca de 3 mil quilos por mês”, diz, apresentando dados de quem tem os cálculos bem presentes.

Pela exigência dos clientes, pela atratividade do produto e pela potencialidade em escoar, decisões tinham de ser tomadas. “Acabamos por perceber que teríamos de arranjar produção própria para uniformizar a oferta e tentar manter a produção mais tempo ao longo do ano, com um produto mais constante, com a mesma imagem e calibre. Surge então a ideia de, havendo o terreno, a possibilidade de candidatura e a minha formação em agronomia, avançar com os limoeiros”, justifica.

A Bufareira tem já 2300 árvores plantadas, mas o jovem espera conseguir alcançar as 3000 a curto prazo. O objetivo é que seja sustentável, para que consiga dedicar-se a 100% ao projeto e deixar o trabalho enquanto sapador florestal.

Apesar de ser um projeto muito familiar, onde conta com o apoio dos pais, Manuel já sente necessidade de trazer algumas pessoas a trabalhar consigo “esporadicamente”, mas no futuro sabe que terá de contratar pessoas para operar, desde a colheita do fruto, ao transporte e entrega de encomendas, até à manutenção da propriedade e cuidado com o pomar.

“Vai dar muito limão. No mínimo 120 toneladas por ano, tendo em conta a média nacional de 30 toneladas por hectare. Espero vir a atingir mais, entre 40 a 60 toneladas”, calcula.

Este é um projeto nascido em ano de pandemia  de covid-19, que por sua vez atrapalhou e atrasou a plantação e preparação do sistema de rega, tendo sido plantadas as árvores apenas a 20 de junho e não em março como previsto.

“A agricultura é feita de oportunidade; se não se faz o serviço naquele dia, depois há sempre algo que corre mal: ou vem uma trovoada, ou o calor, ou muito vento, ou o trator que já não consegue entrar nas terras”, admite Manuel.

Foto: mediotejo.net

“Tinha material comprado de tubagens para rega desde janeiro, só me chegaram no final de maio. Foram seis meses à espera do material. A própria planta é encomendada com 18 meses de antecedência ao viveirista, e eu tinha a planta pronta em março, altura em que tinha combinado. Teve de lá ficar até junho”, conta.

As plantas, apesar dos contratempos, responderam bem, e das mais de duas mil só três ficaram secas, estando as restantes a gostar do solo onde foram implantadas.

A Bufareira, um terreno de declive acentuado, enfiado num vale virado a sul, tem-se revelado um local propício à nova cultura. “Está num dos pontos mais altos da vila, está exposta a sul, e as geadas não são de grande intensidade. A zona está protegida aos ventos de norte, à volta tem muita vegetação que acaba por fazer de corta-vento e torna o ambiente menos agreste em intempéries”, explica.

Mação, terra de bons ares, boas águas e bom azeite, é infelizmente terra massacrada ao longo dos anos por grandes incêndios florestais. Manuel sabe disso, e teme-o. Mas não sofre por antecipação, concentrando-se antes na solução, e crendo que “os limoeiros são uma cultura de pouco risco”.

Tem entrado com a roçadora nos terrenos que ladeiam a propriedade, limpando terrenos de vizinhos, para tentar impedir a chegada do fogo à cultura. “A questão é o calor e intensidade, que pode chamuscar as plantas e frutos. Mas não arde nada no meio, a partir do momento em que mantenho tudo limpo”, diz, apontando logo uma das ideias para implementar neste âmbito.

“Vou colocar este inverno nas tubagens, junto às cabeceiras e extremas, um tampão de emergência, para fazer saídas de emergência onde se possa engatar mangueiras como as dos bombeiros. No caso de haver de incêndios, tenho vários pontos desses ao longo da propriedade”, afirma, do alto da vivência de sapador que, assevera, tem ajudado a ver com outros olhos a forma de proteger e manter as terras.

Longe vai o tempo em que achava que bastava o terreno estar gradado para impedir que ardesse. “Arde tudo. Se não tiver o terreno em solo mineral, o palhiço arde. Se eu tiver as proteções todas, faixa limpa à volta do terreno, já é diferente”, reconhece.

Em termos de água para rega, Manuel está surpreendido com a disponibilidade de água da propriedade, que transcende até o furo que lhe foi imposto realizar. “Dá-me menos água que os poços, que estão a 8 e 11 metros. Como é possível, os furos que estão a uma profundidade brutal, cerca de 170 metros, darem menos água que os poços feitos pelos antigos? E toda a gente dizia que secavam no verão. Este verão só usei os poços, e estava a gastar 20 mil litros por dia”, porém, quando a produção arrancar, o gasto diário subirá para 40 a 50 mil litros no pico do verão. No resto do ano, se a chuva ajudar, não será preciso.

Tudo questões que vão surgindo enquanto Manuel trata a sua propriedade por tu, e se empenha em torná-la eficiente, viável e sustentável.

O projeto tem sido “muito acarinhado” pela família e amigos, pela população em geral, e o próprio Município tem sido grande ajuda segundo o jovem.

“Senti forças para poder avançar com isto, e quero mostrar que é um projeto para ficar. Que ao contrário de muitos que se candidataram a fundos comunitários e ao fim de uns tempos fecharam portas, tenho objetivo de fazer isto e viver disto”, garante.

Foto: mediotejo.net

“Quero provar à população de que vale a pena investir neste tipo de cultura, que é rentável, e fazer prova de que a ajuda que me foi dada valeu a pena. Quero mostrar que este tipo de projeto pode ser uma alternativa para as pessoas”, indica, lembrando a reação de jovens que têm visitado a sua propriedade e reconhecem que é algo inovador na zona.

“Ao verificarem que é algo feito por mim, jovem como eles, pode ser que vejam que se eu consigo eles também. Alguns já andam a fazer experiências em pequenas propriedades deles e pedem conselhos”, admite.

Ali veem motivação, veem as plantas a crescer, em tom verde escuro, sinal de estarem saudáveis. Sente-se que há potencial e, quem sabe, servirá de incentivo para propiciar novos projetos de outros jovens agricultores.

A mudança da paisagem: “Sem iniciativa privada, nada feito. Se o Estado não tem capacidade para gerir as suas propriedades, quanto mais as dos privados”

Este pomar de limoeiros na Bufareira é sinal de mudança, de futuro, de resiliência. Essa que o povo maçaense tem demonstrado após os grandes fogos que têm assaltado e manchado de negro a floresta, propriedades rurais, quintais e produções agrícolas, acabado com o pasto do gado ou posto em perigo os apiários… que têm dado da envolvente das zonas de caça e dos pontos de interesse turístico. Que têm dado dores e ralações aos maçanicos, e até prejudicado habitações.

Numa altura em que se trabalha juntamente com o Governo um projeto-piloto para transformação da paisagem do concelho de Mação e os vizinhos Vila de Rei, Sertã, Proença-a-Nova e Oleiros, para evitar que os grandes fogos de 2017 entrem portas adentro novamente e levem mais de 90% da área verde, surge o pomar de limoeiros da Bufareira como uma cultura diferenciadora.

Manuel é prova viva de que a mudança que queremos ver na nossa terra, temos de começar por ser nós próprios a incentivar, lançando mãos ao que está por fazer e ao que pode ser feito.

O engenheiro agrónomo defende que a paisagem só mudará pela vontade e pelo investimento dos proprietários. “A agricultura tem uma importância enorme porque cria uma descontinuidade da carga combustível. Se à volta de Mação houvesse pomares e searas de milho, pastagens para o gado, outro tipo de plantações como olivais, medronheiros, sei lá… Pode-se fazer tanta coisa!”, exclama, otimista.

Diz que o eucalipto é um engano, sendo uma cultura que dá pouco dinheiro, enquanto o pinhal é uma cultura em extinção devido aos incêndios, e “as pessoas como não vão gastar dinheiro a manter as propriedades, também não vão gastar dinheiro a mantê-las limpas”.

“A agricultura, com culturas que permitem vender mais amiúde e render dinheiro de forma mais frequente, possibilita aplicar parte desse dinheiro na limpeza da propriedade e manutenção. A própria agricultura gera rotatividade de mercado muito maior, porque são bens alimentares com compra e venda regular. Na floresta não dá, é um processo que demora a render”, explica, defendendo “agricultura tecnicamente bem feita”.

Foto: mediotejo.net

Para Manuel, Mação tem um “potencial enorme” em termos de diversidade de culturas, e o medronho e a aguardente proveniente são “o ouro desta zona”. “Só se dá nesta região, a produtividade em massa da aguardente é nula e tem potencialidade de venda enorme, por ser muito apreciada a um preço bem pago. É muito menos exigente que os hortícolas, que o limoeiro, que as macieiras… É uma cultura que se adapta aos declives e solos, e que se enquadra bem. Não precisa de manutenção”, diz, garantindo que o principal problema reside no facto de as pessoas não quererem ter trabalho.

“As pessoas vão começar a mudar as formas de estar e de viver, até porque os ordenados de hoje em dia não permitem fazer grande vida. Ou a pessoa arranja um complemento ao ordenado através de um negócio ou biscate, ou então é extremamente difícil viver com um ordenado médio. Para o comum dos mortais viver com 800 euros é para a despesa. As pessoas vão-se sentir obrigadas e forçadas a regressar à terra e agarrarem-se às pequenas parcelas que lhes foram deixadas em herança, e a tentar arranjar alternativas para fazer mais um dinheiro”, termina, ilustrando aquilo que é, afinal, o seu caso.

Porquê o limão, Manuel? Esse fruto resistente, de travo único, casca grossa, um citrino de aroma forte e que faz parte do quotidiano e da tradição, com inúmeras aplicações em termos gastronómicos, medicinais, e solução para tantas maleitas com mesinhas ancestrais. Esse fruto resiliente, que agora vai nascer nas terras da Bufareira, com vontade de se afirmar a nível nacional e internacional, e que vai levar orgulhosamente nos rótulos que é limão nascido e criado nas terras de Mação.

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Joana Rita Santos
Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres: o conhecimento e o saber, a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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