Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Segunda-feira, Outubro 25, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Mação | Muros coletivos que se abrem como livros de receitas a céu aberto (c/fotos)

Começou por ser um projeto de intervenção do estágio da aluna Priscilla Vilela Mendes, vinda da Universidade Jean Monnet, França, e acabou por se tornar momento de convívio e partilha em Mação, em torno da arte urbana ou também chamada street art. Através dos muros e paredes, a tradição e a as receitas típicas da gastronomia local estarão agora ao dispor dos apreciadores, quer da gastronomia, quer da intervenção artística, neste trabalho que culmina ao final de cerca de quatro árduos meses de estudos, recolha e pesquisa de informação, conversa com as gentes locais e, acima de tudo, muitos desenhos, misturas de cor, stencils e projeções. A vila ganhou uma cooperativa de arte urbana a céu aberto, e com artistas de todas as idades.

- Publicidade -

Natural de Anápolis, no interior do estado de Goiás, Priscilla, de 33 anos, fez faculdade em Florianópolis, no estado de Santa Catarina. Formada em Urbanismo e Arquitetura, embarcou na viagem até Mação através do programa Erasmus Mundus, que funciona através do Instituto Terra e Memória, sendo uma das centenas de alunos que passa pela vila e acaba por deixar a sua marca. E ganhar uma nova família numa segunda casa. Trata-se de um projeto que procura enaltecer as tradições alimentares através de intervenção urbana através da arte, valorização e transmissão.

Mas o projeto surge por iniciativa da aluna que, em parceria com o Museu de Mação, o ITM e a Câmara, conseguiu fazer um prolongamento daquilo que já havia feito por terras brasileiras. “Este projeto dos ‘Muros de Receitas’ em Mação, é no fundo uma continuidade de outro projeto que tenho desde 2014, também ligado à arte urbana”, mas mais especificamente ligando “a arte urbana e a agricultura urbana”.

- Publicidade -

Tendo começado a estudar Mestrado em Património Cultural em Saint-Étienne, na Universidade de Jean Monnet, Priscilla aproveitou esta iniciativa enquanto projeto final de mestrado, continuando a misturar dois setores que lhe dizem muito: a alimentação/património alimentar e a arte.

O trabalho resulta “de uma pesquisa com a população, em arquivos do Museu e livros, e dei por mim a começar a recuperar receitas e informações sobre a situação local da vila. Também para entender como funciona toda a região, quais os hábitos alimentares, a cultura e tradições de Mação, e a atualidade da prática da agricultura, que tem influência no seu futuro”, explicou, notando as diferenças muito grandes entre a realidade estudada no seu país natal e o concelho de Mação.

A seleção e recolha das receitas a serem pintadas nos muros da vila resultou da aplicação “de questionários a pequenos produtores e alunos da Universidade Sénior” e uma das questões era “qual o prato preferido, tradicional, que gostava de comer ou cozinhar”.

E eis que alguns pratos apareceram mais vezes “e cada dia era uma descoberta”, sendo que Priscilla optou por não recolher apenas a receita, como também “toda a história que envolve essa receita”. O trabalho faz-se muito a partir da memória, “que se vai perdendo por ser uma região isolada, os jovens vão embora e não estão dispostos a aprender por via da tradição oral, e é difícil ser perpetuado”.

A hora de pegar as trinchas, pincéis e tintas… e pôr mãos aos muros

Com a aluna vem o companheiro “e parceiro de vida” Florian Dadouchi, natural de França, e que, tal como Pedro Cura, um dos responsáveis pelo ITM, também se deixou envolver nesta aventura de cor. Desde fazer stencils, misturar cores, preparar tintas e materiais, organizar os participantes e distribuir tarefas… no fundo esta é a parte fácil. Os desenhos, esses, resultam de dias e dias de trabalho, inspiração e toques e retoques.

“Tem todo um trabalho antes de começar o muro”, disse Priscilla, relacionando cada receita com o muro e a sua localização e envolvência. Caso do muro sobre o ensopado de enguias, que está no Largo dos Combatentes, e virado para o parque infantil. Aqui foram relacionadas “cores e formatos mais geométricos”.

Mas a aceitação por parte do povo maçaense tem sido “muito positiva”. “Eu vou no mercado, e paro quatro vezes para falar com as pessoas sobre isso…”, diz a autora do projeto.

Pedro Cura comprova isso mesmo, acrescentando que as pessoas chegam “a oferecer as suas paredes das suas casas” referindo que o “projeto é da Priscilla mas acaba por envolver todos, e não há uma ideia fixa, são feitas propostas e sugestões por todos os que vão participando, nomeadamente a própria população de todas as faixas etárias”. Chegaram a participar no projeto 80 pessoas.

Priscilla chegou até a pedir colaboração de uma amiga italiana, que é desenhista e mora em França. “Contei a história da receita, e ela é cozinheira inclusive, e desenhou à distância e enviou para nós, e fomos adaptando juntos. É sempre um desenho que se vai desenvolvendo, que não é feito só num dia. Vai sendo feito por várias etapas, e quando o muro começa, pode sofrer alterações e adaptações”.

Quatro muros ficaram já concluídos, mas enquanto houver muros… “não há limites”. Até porque há a intenção de Priscilla em levar o projeto além da fronteiras da vila e que se comece a começar a alargar aos concelhos vizinhos.

Foto: Priscilla Vilela Mendes

“A primeira edição vai terminar com esse quarto muro, porque acabei o estágio e voltei a França, e continuar a minha vida. Mas aqui… faz parte da minha vida também. Quem sabe”, disse, referindo que agora é preciso analisar o impacto do projeto.

Pedro Cura, um dos mentores do projeto através do ITM e do Museu Municipal, refere que este projeto veio também ajudar na desmistificação da arte urbana, num meio pequeno, no interior do país, um tipo de arte que nos dias que correm ainda não é totalmente aceite pela sociedade.

“Não há nenhuma resistência perante esta intervenção. É zero”, algo que justifica com o facto de a aluna utilizar uma temática muito ligada ao local, que é o património gastronómico maçaense, que faz parte da sua identidade.

“A ideia é também essa, mudar a imagem que as pessoas têm da arte urbana. Mostrar que pode ser algo bem positivo”, indicou Priscilla.

Quanto à parte culinária e a curiosidade por experimentar confecionar algumas das receitadas pintadas, Priscilla diz que o cozinheiro de casa é Florian, mas admite que “ainda não conseguiu, mas está planeado fazê-lo!”, exclamou, entre risos.

A pintura demora cerca de 4 a 6 dias, mas a conclusão de cada painel “entre decidir, escolher a receita, ver quem está a participar, discutir e enquadrar num muro e preparar os materiais” demora cerca de 15 dias.

O trabalho é sempre feito de noite, dando a oportunidade de toda a gente participar e feito através de projeções, para facilitar “a nível técnico”, nomeadamente para ajudar a participação das crianças.

Entretanto, Priscilla e Florian já regressaram a França. Mas ficou a promessa e os planos de voltar “e fazer mais”, ainda para mais tendo-se juntado uma conterrânea ao projeto, Gabriela Eira, que propôs este projeto dos “Muro de Receitas” no Orçamento Participativo Jovem Portugal, para que sirva de impulso e possa dar continuidade à ideia e envolver outros parceiros.

Viver em Mação não está nos planos, mas “já ganharam uma nova casa” garantindo que preferem viver em “itinerância vagarosa”, passando “quatro ou seis meses em cada lugar e ter tempo de integrar, conhecer a população, deixar uma marca e fazer amizades”.

Ainda assim, já deixaram a sua marca na vila de Mação e levam tanto consigo quanto aquilo que deixaram às gentes do concelho. E a promessa do regresso está feita. E a comunidade cá estará, de trinchas e tintas na mão, à espera do próximo muro para intervencionar. Resta decidir qual será a próxima receita a projetar.

Fotogaleria:

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome