Mação | Morreu o ‘Ti Fontes’, o pescador e calafate que tratava o Tejo por pai (C/VIDEO)

Morreu hoje com 90 anos Manuel Pires Fontes, o ‘Ti Fontes’, como carinhosamente era tratado o pescador e calafate da Ortiga, concelho de Mação. Manuel Fontes ainda foi internado no hospital de Abrantes mas não resistiu a problemas de foro respiratório. A memória do homem, que foi um dos grandes pescadores de Ortiga e o grande mestre calafate na construção do famoso ‘picareto’ (construiu mais de 300 barcos), “vai ser justamente honrada e dignamente preservada pelo município de Mação e pelos maçaenses”, assegurou já o presidente da autarquia, Vasco Estrela, que disse ao mediotejo.net que “o dia de hoje é um dia triste para o concelho de Mação e para a Ortiga”. Manuel Fontes foi esta tarde a sepultar no cemitério de Ortiga.

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Segundo o autarca, compete ao município e toda a comunidade “saber honrar a sua memória e tudo aquilo que ele gostava e defendia, sendo que o futuro Museu das Artes e Ofícios das Pescas a construir em Ortiga vai também preservar a memória e os saberes das artes da pesca de Ti Fontes, enquanto personalidade que faz parte da história do concelho de Mação, da freguesia de Ortiga e do rio Tejo”.

Nascido no ano de 1926 na aldeia ribeirinha de Ortiga, Mação, mestre calafate e pescador, Manuel Pires Fontes faleceu no domingo aos 90 anos com uma vida cheia e muitas histórias para contar. E contou ao médiotejo.net, em entrevista realizada em 2015, como o rio, ‘farto’, fartava as gentes, e de uma vida dedicada a um Tejo que já não reconhecia. Na entrevista de ontem, Ti Fontes aponta soluções para a poluição de hoje, lembra os tempos de pesca e da venda, as riquezas de uma Ortiga bafejada pelo Tejo de outrora, e revelou como o peixe pode voltar a subir até à aldeia piscatória. Manuel Fontes nasceu no rio. Um Tejo que já não reconhecia mas que continuava a tratar por pai. A Ortiga, dizia, era a sua mãe.

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“Eu nasci em Ortiga

O rio Tejo me deu o ser

Aqui fiz a minha vida

E aqui eu quero morrer”

Recuperamos hoje a entrevista a Manuel Fontes, em sua memória, trabalho realizado em dezembro de 2015:

Ti Fontes, como é carinhosamente chamado pelos seus pares em Ortiga, recebe-me de forma afável e cordial na sua casa, no seu posto de trabalho, onde as redes de pesca descansam da faina, os barcos ‘picaretos’ que constrói em miniatura lembram as três centenas de embarcações a sério por si construídas, e onde se multiplicam os calendários do FC Porto, o seu clube de eleição, os recortes de jornais, as quadras de rimas marítimas.

Manuel Pires Fontes nasceu no dia 23 de fevereiro de 1926 em Ortiga. Tem uma filha e uma neta. E um Tejo aos seus pés que, diz, tudo deu ao Manuel Fontes de ontem e ao Ti Fontes de hoje: “No rio nasceram-me os dentes. E lá continuei a trabalhar e foi lá que me caíram os dentes. O Tejo foi mais do que meu pai”, garante.

“Naquele tempo o Tejo era a nossa alegria”, lembra o calafate e pescador, como que encetando uma viagem no tempo e mergulhando numa Ortiga viva, com a aldeia piscatória, o bairro dos pescadores, e as 27 pesqueiras a pedirem meças na arte da pesca tradicional nacional.

“Éramos tantos pescadores aqui na Ortiga e todos se governavam, muitos com famílias numerosas, com 7 e 8 filhos” recorda de uma aldeia que era “riquíssima” em peixe, e na madeira que descia o Tejo, num tempo sem gás ou eletricidade, pelo menos no bairro dos pescadores.

“A Ortiga não era rica, era riquíssima em peixe, desde o sável, à saboga e ao muge”. Na altura, recorda, “não se ligava muito à lampreia”. Os apreciadores do afamado ciclóstomo chegariam mais tarde à Ortiga, onde a fama de bom peixe e bons pescadores estava há muito consolidada.

“Hoje desapareceu tudo. Tudo se desmoronou”, lamenta o velho pescador, apontando o dedo aos “corvos marinhos, celuloses e açudes. Ninguém olha pelo rio, ninguém quer saber. Nem tem força para mudar os grandes interesses instalados”, sentencia Ti Fontes, com uma vida dedicada ao Tejo e que hoje não consegue comer um peixe do rio.

“É só veneno. A água está envenenada. Nem os animais a bebem e eu é que ia comer peixe do rio? Não. É raro o ano em que vejo uma boga. Tudo acabou. O rio está morto. É uma vala de esgotos”, afirma.

“Todos os dias olho para ele e choro. O rio é o meu pai. E a Ortiga é a nossa mãe e nós somos todos irmãos nesta terra. O sangue é todo o mesmo”, atira, convicto, um Manuel Fontes que se volta para mais uma quadra gravada na madeira, que lê, em mais uma ode ao pai Tejo.

“Meu querido Rio Tejo.

Estás triste. Doente. Sem vida. Já tuberculoso.

Todos os dias olho para ti e choro. Eu morro, e tu ficas a penar.

Mas levo-te no meu coração. Para a Eternidade”.

Manuel Pires Fontes cumpriria 91 anos de vida, na Ortiga e no Tejo, a 26 de fevereiro de 2017.

“Se as celuloses construírem Estações de Tratamento de Água e se o açude de Abrantes for aberto ao meio para o peixe subir”, Ti Fontes afirmava que não negaria um peixe grelhado para o seu aniversário. Já não vai a tempo de ver o rio sorrir e de degustar as suas sabogas, um Manuel Fontes que teve uma vida plena e cheia no rio e que vai deixar saudades. Assim como o rio Tejo de outrora.

A equipa do jornal mediotejo.net endereça as suas condolências e sentido pesar pela morte de Manuel Pires Fontes à sua família e amigos.

 

*Artigo publicado em dezembro de 2015

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Mário Rui Fonseca
A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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