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Terça-feira, Agosto 3, 2021

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Especial Mação | Jovem Autarca em entrevista: “Eu não sabia que ser político era tão difícil”

Tem 16 anos, e frequenta o 11º ano do curso de Ciências Socioeconómicas no Agrupamento de Escolas Verde Horizonte. É natural de Mação e é lá que reside, mesmo na vila. É a rara exceção da primeira edição de um projeto camarário, tendo sido o único candidato a participar. Porquê? A culpa é do “bichinho da política”, incutido pela família, nomeadamente pelo irmão que já presidiu uma estrutura política jovem em Mação. Quem é afinal o recém-autarca, que tem partilhado mesa com o executivo da CM Mação, e quais as suas aspirações futuras? O que espera da sua terra? Que desporto coletivo é esse, que o atrai há quase 10 anos?

O mediotejo.net esteve à conversa com Nuno Serras, horas antes de dar início à primeira iniciativa promovida no âmbito do Programa Jovem Autarca, da CM Mação, para tentar perceber, aos seus olhos, o que retira da experiência e como têm sido os últimos meses de trabalho autárquico. E também para conhecer melhor o corajoso jovem, que apesar de ter horário preenchido, acredita que “há tempo para tudo”.

O bichinho da política

Soube do programa através do Facebook, e por norma é algo que gosta. “É uma área que me atrai de certa forma, dentro dos meus interesses, e decidi inscrever-me. É algo relacionado com a política, com a população, com Mação”, referiu, de forma assertiva, deixando a indicação de que “precisamos mexer-nos pela terra”.

Começou por desvendar que esse tal «bichinho da política» nasceu graças ao irmão mais velho que “andava metido na política, e uma coisa atrai a outra, e fui um bocado influenciado nesse aspeto e era algo que estava dentro da família, e via-o a ele a agir dentro da política e de certa forma fui empurrado para este mundo. Mas, na minha opinião, parte um bocado de casa, da forma como somos educados”.

Por outro lado, frequentando o curso de Ciências Socioeconómicas, Nuno recorda que é “uma área que puxa pela economia e tratamos bastantes assuntos da atualidade, relacionados com a política, depois parte de cada um também para se interessar na participação cívica e manter uma cidadania ativa”. O jovem crê que “cada cidadão devia ter essa tarefa ao longo da sua vida”.

Confrontado com o facto de ter sido o único jovem a participar neste programa do município, o estudante de secundário refletiu sobre o porquê da não adesão dos seus conterrâneos. “Muitos jovens diziam que não lhes tinha chegado a informação, mas havia posts no Facebook, havia cartazes espalhados por Mação,… isto parte um bocado das pessoas… e em Mação às vezes há o hábito de os jovens, por exemplo, se sentirem um pouco de parte, achamos que ‘é sempre tudo para os adultos’, depois quando criam algo dirigido a nós, jovens, temos um bocado de medo de avançar, porque há sempre aquele receio, visto que é a primeira vez que existe, como é que será, como não será… Mas a primeira vez custa sempre a alguém, acho que se houver uma próxima edição já vai ter muito mais aderência por parte dos jovens maçaenses”, disse, mostrando-se esperançoso.

Os amigos e colegas de Nuno foram ganhando interesse no que estaria ele a desenvolver, e como tudo se processava, ficando curiosos quanto aos projetos e ideias que iria desenvolver com um orçamento disponibilizado de até 10 mil euros. Nuno foi desmistificando o processo, que, notou, “não é assim tão complexo” e “só custa começar”.

Assumindo a tendência que leva a maioria dos jovens a desligarem-se da política e da dinâmica da sua terra, do seu concelho, Nuno acredita que há “a parte de casa” e a “parte da escola” enquanto instrumentos para contrariar essa dita tendência.

“Os pais, por exemplo, podem comentar com os filhos o que ouvem, tentar-lhes explicar o que ouvem realmente, porque muitas vezes ouvimos as coisas e não sabemos o que querem dizer. Se não tivermos quem nos explique, nós perdemos o interesse acerca daquele assunto. A parte de casa é bastante importante”, mas ainda falta uma parte da equação, para que fique completa.

“Depois há a parte da escola, onde muitos professores trazem bastantes assuntos de fora, sobre política, económicos, tudo o que se passa lá fora, trazem para dentro da sala de aula. Outros não o fazem, deixam esses assuntos de fora, e acho que parte um bocado da escola começar a aproximar os jovens destes assuntos que nós tocam todos os dias”, reiterou.

Foto: mediotejo.net

Como fazer um plano de ação política, sem experiência nesse campo?

“Baseei-me em duas ou três coisas, tentei direcionar algo para os jovens e pensei arranjar medidas que sejam benéficas para os jovens do concelho; depois tive outro pensamento: eu sou um, e tal como no executivo costumam estar 5 pessoas, eu preciso de alguém para me ajudar. E quais as pessoas que trabalham em prol do concelho que não recebem remuneração e apenas recebem o seu brio próprio? São as associações do concelho”, explicou. “O meu objetivo é dinamizar este projeto juntando as associações e tentando que me ajudem também e saiam igualmente beneficiadas”, frisou, acrescentando que “se houver união é muito mais fácil os projetos começarem a dinamizar-se”.

E quanto à experiência nos Paços do Concelho…

“Por um lado facilitou o facto de já conhecer os membros de executivo fora deste ambiente, o que facilita o contacto com as pessoas, mas por outro lado, quando estamos nesta sala a debater algo, sentimos a responsabilidade de, não digo estar ao nível do executivo, mas de termos algo a decidir em relação aos munícipes deste concelho, e é algo que me traz algum peso no sentido de me aperceber de como é que as pessoas vão olhar para a minha prestação por ser jovem. Ao início, então no primeiro contacto, aconteceu bastante, mas a partir desse momento foi mais fácil”, confidenciou.

Mas Nuno optou sempre por fazer os tpc, procurando saber mais e procurando aconselhar-se daqueles que lhe são próximos. “Antes de fazer o projeto também falei um bocado com o meu irmão, e com o meu pai discutia algumas coisas, e eles vão-me dando algumas luzes, dizendo como me devo ir preparando melhor”. Deste contacto saíram, para Nuno, “conselhos importantes que facilitaram bastante o processo aqui na Câmara”.

O vereador de palmo e meio, “título” atribuído por Vasco Estrela numa das reuniões de executivo camarário públicas que o mediotejo.net acompanhou, gerou alguma boa onda no seu círculo de amigos, contou Nuno Serras. “É engraçado, porque há alguns colegas que gozam com essa alcunha e tratam-me assim”, riu-se.

Nuno, presente numa das reuniões de executivo camarário públicas, onde se discutiu o plano de ação do Programa Jovem Autarca. Foto: mediotejo.net

Ainda que pareça que tudo até aqui corre às mil maravilhas, passando a expressão, o jovem autarca não se acanhou de mostrar que efetivamente há momentos de grande tensão e frustração. “Eu não sabia que ser político era tão difícil!”, afirmou. “Nós temos aquela mania de criticar, todos temos sentido crítico dentro de nós, mas é algo bastante difícil, ser político… Todos nos criticam, temos um papel muito importante e as nossas decisões vão afetar todos à nossa volta, mas naquele momento, principalmente, já sabia que algumas das minhas propostas do plano tinham de ser postas de parte, nessa altura comecei a ver as dificuldades que ia atravessar”, justificou, lembrando uma das sessões em que os vereadores do executivo aconselharam e acautelaram Nuno sobre a viabilização da medida de Ação Social, a primeira medida pensada e que o jovem não queria nada deixar cair por terra.

Essa medida revelou-se trabalhosa e um tanto ou quanto arrojada. Prende-se com o subsídio de transportes escolares a alunos do secundário, de forma generalizada, e incluindo os que não têm qualquer apoio. “Tem-me feito uns quantos cabelos brancos, por acaso…”, suspirou, notando a existência de uma série de condicionantes, e que “convém não entrar em conflito, o objetivo é que tudo corra seguindo a mesma ordem de ideias, tive de arranjar uma maneira, mas espero que seja definido em breve”.

Ainda assim, Nuno diz que esta medida deve estar “prestes a arrancar”, e assim tem lutado para tal, uma vez que foi a primeira medida a ser pensada, de apoio aos jovens.

Por outro lado, Nuno organizou um torneio de futsal inter-associações.

Aqui, segundo o jovem, “o que custou mais foi começarem a chegar as primeiras inscrições de equipas, o sorteio foi realizado no salão na quinta-feira, entre preparação de tabelas e fichas de jogo, regulamentos, comprar material, garantir arbitragem, tratar de questões burocráticas e internas na CMM”. O foco é existir um “momento para as associações descomprimirem, passarem um momento juntas, terem espírito de brincadeira”.

Para Nuno é importante dar algo às associações do concelho, que trabalham de forma voluntária para o seu desenvolvimento, e que constituem um número atípico de coletividades. “Metade das pessoas não tem noção de quantas associações tem o nosso concelho. Tem 60 associações. E já que a grande maioria delas tem várias atividades ao longo do ano, acho que é preciso terem momento para se divertirem, é bastante importante”, reconheceu.

O recém-autarca não quer ficar por aqui, e gostaria que pelo menos mais uma das suas medidas fosse implementada. “Eu não queria ficar por estas duas medidas, mas visto que chegando o verão, entramos nas férias, se calhar era a melhor altura para entrar na parte turística, para trazer as pessoas que vêm de fora e saberem o que podem visitar em Mação, acho que era uma altura importante para começar a dinamizar essa parte do projeto, do roteiro turístico com rotas pedestres assinaladas”.

Entre passado e futuro: qual o lugar de Mação?

“Espero sair de Mação para estudar, e aos fins-de-semana regresso cá”, respondeu, afirmando que continuará a fazer de tudo para manter ligação à terra e à dinamização de atividades.

Convidado a pensar num futuro mais longínquo, Nuno mostrou ponderação. “Se eu tiver oportunidade de estar em Mação, eu vou estar em Mação. Daqui a 10 anos não sei como vai estar, e se de ano a ano nós notamos, cada vez mais, que o Interior está a ficar desertificado, empresas que saem e decidem ir para o Litoral…, se surgir a oportunidade de seguir um futuro aqui, que seja promissor e que corresponda às minhas expetativas e ambições, é algo que gostaria bastante que acontecesse”, admitiu.

Maçaense de gema, Nuno não esconde orgulho das suas raízes. Crescer em Mação, “uma vila pequena, onde quase todos nos conhecemos uns aos outros é algo bastante bom. Para começar, um jovem pode andar seguro na rua, conhece os seus amigos. Eu saio de casa e tenho 3 ou 4 amigos que moram ao pé de mim. Eu tenho 16 anos e tenho amizades que começarem praticamente desde que nasci”, contou ao mediotejo.net.

“Fui para a creche aqui, e ganhei esses amigos, e ainda hoje ando com eles na escola, não nos separámos. São estas coisas boas, o lado bom dos meios mais pequenos, criamos grandes laços de amizade”. O adolescente fez questão de deixar ponto assente sobre a qualidade de vida em terras maçaenses. “Esta é uma terra que potencia o crescimento de uma criança, não há poluição, temos condições para seguirmos para a creche, jardim de infância, escola primária, escola secundária, com a nossa família sempre por perto”, dizendo que na sua opinião “temos um agrupamento que tenta trabalhar em prol dos jovens e uma CM que se preocupa com o futuro dos jovens e o que vai ser deles daqui a 15/20 anos”.

Nuno, sendo jovem importado com o estado das coisas na sua terra, não tira do pensamento que “o futuro tem de passar pelos jovens, porque se todos saírem de Mação, vai ficar uma população tão envelhecida que vai deixar de haver empresas, vai deixar de ser atrativo para os jovens cá ficarem”.

O carinho, a ponderação e, acima de tudo, a lógica com que pensa Mação fá-lo recordar a terra que o viu crescer.

Futebol, futebol, futebol…

Como a generalidade das crianças portuguesas, e não só, Nuno e os amigos desenvolveram cedo a paixão pelo futebol. “Jogávamos futebol, desde os 5/6 anos entrámos na Associação Desportiva de Mação, andávamos sempre juntos, também frequentámos aulas de natação”, recordou.

“Mesmo fora da escola, íamos brincar para o parque, existia sempre uma forma de estarmos todos juntos e manter a ligação”.

Carla, a mãe de Nuno, costuma dizer segundo o próprio “Quando eras pequeno, eu metia-te a ver desenhos animados e tu saías de perto da televisão e não querias ver. Se metesse um jogo de futebol a dar, tu ficavas a ver o jogo de futebol”, citou, sem esconder o riso.

“Sou apaixonado por futebol, adoro ver futebol, passo horas e horas a ver futebol, e é um gosto que eu tenho, desde aí nunca consegui deixar de jogar, depois passei a jogar futsal, mas não consigo deixar. Por mais que digam que falta o tempo, com a escola, mas tenho de o fazer, e naquele dia é para ir ao treino. Há tempo para a escola como também há tempo para o resto, se nos prepararmos bem há sempre tempo para tudo. Essa parte há dez anos que não pode ficar de fora”.

Mas, recordando a máxima de “há tempo para tudo”, quisemos saber como foi para Nuno agilizar a agenda entre treinos, escola, trabalhos, testes, apresentações… e questões do programa Jovem Autarca.

“Tive de pensar como ia arranjar tempo para tudo. Defini que as minhas sextas-feiras de manhã, quando eu não tenho aulas, só tenho à tarde, são para tratar de assuntos relacionados com o Jovem Autarca”.

O que dirias aos jovens, em jeito de apelo, para que participassem mais?

“Qualquer jovem que pense em participar neste programa tem que pensar que o vai fazer crescer enquanto pessoa, que ‘no futuro vai-me dar jeito ter participado'”, disse, fazendo notar ainda que “já que, nós jovens, criticamos tanto porque em Mação não fazem muitas atividades e iniciativas para os jovens, quando as criam, não as podemos deixar morrer, temos que as agarrar, porque o Jovem Autarca que existiu o ano passado, a que eu me candidatei, se eu não me tivesse candidatado não teria havido mais nenhum jovem a fazê-lo, e tenho quase 90% certeza que no próximo ano não iria haver nova edição do programa”, disse, exemplificando.

Demonstrando vontade de voltar a participar numa próxima edição, assumiu que agora, havendo esta primeira experiência, “se calhar no ano que vem não vou participar só eu, se calhar vão participar muitos mais jovens, talvez haja maior dinamização deste programa que é bastante interessante”.

O jovem assumiu que esta é a “oportunidade que nós temos para pôr as nossas ideias em prática, o que nós criticamos finalmente vai poder acontecer, podemos trabalhar para isso acontecer”, mas tudo depende da “vontade de querermos fazer algo pela terra e fazer os nossos pensamentos críticos, finalmente, começarem a aparecer materializados no dia-a-dia”.

Por fim, terminando a conversa no salão nobre do município e olhando para o lugar do Presidente, a pergunta que se impôs foi «Se fosses presidente da Câmara, o que farias? Quais seriam as tuas medidas prioritárias?»…

Aqui, Nuno não se fez rogado. Seguindo a sua linha de pensamento, que manteve ao longo da conversa, explicou que se fosse presidente da Câmara, tendo em conta a localização do concelho no Interior do país, destacaria “três áreas como bastante importantes”. Para o jovem, “primeiro tínhamos de arranjar algo onde Mação fosse forte, já que estamos num sítio do Interior e que temos bastantes paisagens, julgo que a parte turística era algo que podia ser um dos pontos fortes de Mação, ganhar nome em termos turísticos, ser local conhecido pelo turismo e que fosse associado a isso mesmo”.

Em segundo lugar, a preocupação com o futuro. “Assegurar os jovens, com grande investimento a nível escolar, de forma a que se mantivessem no concelho, dando-lhes oportunidades de obter níveis escolares elevados, que os fizessem ser alguém no futuro e que depois viessem a ajudar o concelho quando tivessem idade para exercer as suas profissões”.

Por fim, o estímulo à economia local. Para o jovem autarca incluindo “tudo o que há de empresas, dentro do tecido empresarial do concelho, desde o mel, o presunto, criar uma espécie de casa que os desse a conhecer ao público em geral, algo onde quem viesse a Mação e sabendo que é Catedral do Presunto, facilitasse a compra dos produtos endógenos do concelho”, facilitando o acesso fora do tempo útil e de laboração das empresas, justificou.

Foto: mediotejo.net

Em jeito de balanço de toda a experiência que tem vivido, Nuno disse que “voltava a participar, faz parte da minha natureza, e quando tenho oportunidade para pôr o sentido crítico em prática, as alturas ideais para o fazer são projetos como este”.

O programa “tem sido uma experiência bastante enriquecedora, tem-me dado bastantes ensinamentos, tem-me demonstrado como é ser político, como é trabalhar para os munícipes do concelho, e trouxe algumas dificuldades em termos internos, mas fez-me crescer enquanto pessoa, a desinibir em alguns momentos, passamos a conhecer um pouco mais de nós, pela forma como reagimos em certas situações”.

Para o jovem estudante, que um dia pretende seguir estudos universitários na área da Economia e Gestão, “somos todos capazes de fazer alguma coisa, temos é de tentar e lutar por elas, e é o que tenho tentado fazer”.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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