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Domingo, Outubro 24, 2021

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Mação | Investigadores querem elevar arte rupestre do Tejo a monumento nacional (c/ÁUDIO)

A assinalar meio século de estudos de arte rupestre no rio Tejo, o mote para o Dia Europeu da Arte Rupestre, 9 de outubro, reuniu investigadores de todo o país em Mação para celebrar o passado de olhos postos no futuro, sem esquecer a discussão e descobertas do presente. Em setembro, no Ocreza, foram descobertas novas gravuras paleolíticas que se vieram juntar ao conhecido cavalo do Ocreza, descoberto há 21 anos. Esta data simbólica culminou num encontro com visita ao terreno e debate sobre o futuro das descobertas e estudo da arte pré-histórica, tendo os especialistas revelado a intenção de defender a classificação de monumento nacional do complexo de arte rupestre da bacia hidrográfica do Tejo.

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A manhã foi de (re)encontros com investigadores que há 50 anos desbravaram o vale do Ocreza, encontrando as primeiras gravuras rupestres daquele núcleo, tendo muitas ficado submersas após a construção da barragem do Fratel.

Um deles foi Mário Varela Gomes, arqueólogo e docente aposentado da Universidade Nova de Lisboa. Integrou o primeiro grupo de investigadores que, nos anos 70, começou a trabalhar a arte rupestre do Tejo e o seu doutoramento incidiu sobre esse tema. A “Arte rupestre do Vale do Tejo. Um ciclo artístico-cultural pré e proto-histórico”, foi a tese defendida em 2010 pelo investigador.

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Foto: CMM

Fazia-se acompanhar por Luiz Oosterbeek, diretor do Museu de Mação, que salientou a importância do encontro promovido no Dia Europeu da Arte Rupestre, evento que derivou de meio século de investigação e estudo sobre a arte rupestre na bacia do Tejo e não tanto pelos 21 anos de descoberta do equídeo gravado na rocha, que remonta ao Paleolítico.

Oosterbeek defende uma abordagem muito mais abrangente, preferindo não cingir a comemoração do dia ao que acontece em Mação, mesmo depois de terem sido descobertas novas gravuras em contexto de sondagens arqueológicas no vale do Ocreza que vieram colocar, de novo, em cima da mesa a discussão sobre o futuro e o potencial desta região, afirmando Mação a nível internacional como estância de estudos de arte rupestre.

“O mês de outubro foi um mês importante, até do ponto de vista de descobertas, mas entendemos que não tinha muito sentido estarmos a comemorar as coisas recentes, sem perceber que é uma data simbólica muito importante para a arte rupestre e arqueologia portuguesa em geral”, reconheceu Oosterbeek, investigador e arqueólogo, também docente do Instituto Politécnico de Tomar, diretor do Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado do Vale do Tejo e presidente do Instituto Terra e Memória, ambos em Mação.

Por seu turno, Mário Varela Gomes lembrou a descoberta de gravuras rupestres há 50 anos no vale do Tejo, na zona do Fratel. “Eram conhecidas dos barqueiros, pastores, e etc, mas uma coisa é encontrar… outra coisa é descobrir, em termos científicos. Saber o que é, quem fez, quando é que fez, porque é que fez. Foram esses alunos que começaram a perceber a importância dessas gravuras”, contextualizou.

O arqueólogo sublinhou ter sido nesse ano que se notou o potencial histórico-cultural e artístico daquele património, e “com alguns subsídios alocados à investigação foram feitas prospeções a montante, até ao rio Erges, e a jusante, até ao rio Ocreza”. O objetivo era saber a extensão da existência das gravuras encontradas.

Luiz Oosterbeek e Mário Varela Gomes (esq. para dir.) Foto: mediotejo.net

Com a construção da barragem do Fratel muitas das gravuras foram submergidas. “A montante, a seguir à barragem de Cedillo, há o núcleo de São Simão, e depois há o núcleo do rio Ocreza e, abaixo da barragem do Fratel, o núcleo de Gardete. Mas tem aparecido nos afluentes do Tejo, no Erges, no Sever, no Ocreza e possivelmente ainda em outros afluentes existirão mais”, admitiu em declarações ao nosso jornal.

ÁUDIO | Entrevista a Mário Varela Gomes, arqueólogo que há 50 anos integrou o grupo de investigadores da arte rupestre do Tejo

 

Todos estes núcleos formam “um conjunto único na Europa e é um dos mais importantes do Mundo”, afirmou Mário Varela Gomes, muito certeiro, referindo que conta com “mais de 10 a 15 mil gravuras rupestres”.

Já as gravuras “contam histórias e transmitem estados de espírito, atividades ao mundo mágico-religioso das populações que aqui estiveram desde o Paleolítico Superior até aos alvores da História, até à Proto-história, Idade do Ferro, etc”.

Quanto às descobertas recentes, por uma nova geração de estudiosos, no vale do Ocreza, o arqueólogo não tem dúvidas que estas podem catapultar para um novo ciclo de descoberta e exploração, até porque vem enfatizar o período paleolítico naquele setor.

Mação anunciou a descoberta de novas gravuras rupestres no vale do Ocreza. Foto: CMM

“As últimas descobertas do Ocreza são de facto de uma importância extraordinária. Porque são figuras paleolíticas. Conhecia-se o tal cavalo encontrado há 21 anos atrás, mas agora essa importância ficou potenciada porque são várias figuras e possivelmente com hipótese de haver ainda mais soterradas, é preciso agora grande trabalho de exumar e pôr a vista todas aquelas rochas, que podem ter gravuras, e perceber-se que há potencialidade de haver gravuras paleolíticas com grande antiguidade, pode remontar a 20 000 anos a.C.”, explicou.

A expectativa reside agora na possibilidade de “enriquecimento doménico, cultural e artístico, mas também a meu ver numa outra perspetiva – é que a meu ver o Tejo foi o elemento aglutinador, ao longo de milénios, de populações. E era considerado como sítio onde se desenvolviam atividades sagradas ou socioreligiosas. As gravuras são reflexo disso. Mas mais do que isso: agora temos a certeza que começou no Paleolítico e vai contribuir para uma ideia mais abrangente, que é a de existência de uma civilização própria do Tejo nesta zona”.

Mário Varela afirmou ser sua convicção de que naquele setor havia “uma civilização do Tejo, que tem como elemento de união as gravuras, feitas desde de há 20 000 anos até 1000 anos a.C., e tem depois todo o conjunto de monumentos megalíticos, desde Mação, a Vila Velha de Ródão e Nisa, que demonstra a grande atração desta zona. Os rios são sempre elementos civilizadores, atraem sempre as populações, permitem circulação, também é uma zona rica em metais – estanho, cobre e ouro. Hoje confirmámos este potencial histórico, da existência de uma civilização própria desta zona”.

Foto: CMM

Já o diretor do Museu de Mação, Luiz Oosterbeek, reconhece que a importância do complexo de arte rupestre do Tejo já há muito que é reconhecido na comunidade científica internacional, sendo Mação parte integrante do mesmo e não sendo alheio ao todo.

“O Tejo é, no meio académico e científico, conhecido há muitas décadas por esta investigação. É muito menos conhecido por parte das populações, dos decisores. Mação tem tido a sorte de ter lideranças municipais que percebem muito bem esta questão. E uma das coisas que percebe muito bem – e só posso elogiar a continuidade que Mação tem tido para além de 20 anos nesta questão – é que ninguém em Mação pensa que isto só sobre Mação. É sobre o território, é sobre todos. É sobre Portugal e além de Portugal”

Este complexo ocupa grande parte do vale do Tejo, sobretudo entre o Erges e o Zêzere, e sendo que a morfologia do território também dita a existência destes núcleos. “Isso também se percebe do ponto de vista da morfologia do território; a partir do Zêzere o rio começa a abrir, começa a ser Lezíria, é outra realidade”, reafirma.

“Mas nós temos aqui o facto de poder aceder a zonas com gravuras e que não estão debaixo de água. Um dos projetos que temos do Museu – e estamos a desenvolver trabalho nesse sentido – é abrir, eventualmente, a possibilidade de fazer prospeção debaixo de água. Mas é muito complicado, é território das barragens…”, atira, suspirando, como quem adivinha a complexidade de implementação da ideia.

Quanto à iniciativa, tratou-se de uma conversa que abraçou todo o vale do Tejo, que muito ainda tem para ser descoberto, calcorreado, decifrado e divulgado. “Enquanto complexo de arte rupestre ou de povoamento territorial, é provavelmente o mais importante que temos, pelo menos no Ocidente Peninsular. Mas ele não está suficientemente estudado, não está suficientemente considerado enquanto tal, em parte porque esta arte foi submersa, depois porque muita gente não percebe a ligação entre esta expressão artística e outras manifestações – as antas, povoados, outros vestígios (…) O desafio e a obrigação que temos é pensar como podemos tornar isto mais visível, mais compreensível”, assumiu.

ÁUDIO | Entrevista a Luiz Oosterbeek, diretor do Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado no Vale do Tejo, em Mação

Oosterbeek frisou ainda que além das gravuras rupestres, surgem as pinturas “em abrigos, que se estendem numa cornija de quartzitos, desde Espanha até à Serra da Lousã. E, no fundo, é quase um X: entre o Tejo com as suas gravuras e este eixo de quartzitos que passa pelas Portas de Ródão e que tem pinturas. O lado espanhol está muito estudado, conhecemos centenas de sítios. Do lado português conhecemos pouco – conhecemos algumas em Mação, na Lousã, mas há todo um território gigantesco para explorar”.

O denominador comum na comunidade que se dedica a estas temáticas da arqueologia e arte pré-histórica é a vontade de arregaçar mangas e dedicar tempo e estudo a decifrar estes enigmas sobre a história da humanidade. Para tal, são precisos apoios financeiros e logísticos que ajudem equipas a tornar visível e divulgar junto da comunidade científica mas também do cidadão comum o que ali se passou há milhares de anos antes de Cristo.

Foto: CMM

“Se não houver apoios, é evidente que não se pode fazer os trabalhos. O trabalho que tem sido feito em Mação tem sido em grande medida apoiado pelo município, algumas vezes com apoio da Fundação Ciência e Tecnologia, ou de fundos europeus, mas do ponto de vista da continuidade tem sido o Município de Mação a apoiar”, afirmou Oosterbeek, reconhecendo a parceria com a autarquia maçaense nas últimas décadas.

Num dia que reuniu membros de equipas diferentes, de diferentes instituições, a ambição foi conjunta. “Estamos aqui no fundo a dizer o seguinte: nós estamos disponíveis para trabalhar, em conjunto, em benefício deste património, destes registos de História mais remota. E eu sei que a Câmara de Mação tem essa disponibilidade. Assim haja vontade de outras, porque isto não se pode fazer só num município”, disse o investigador, crendo numa estratégia integrada que aborde outras realidades entre regiões, que vá até além da região Centro.

“Temos que trabalhar com outras realidades, até fora da região Centro. Às vezes é mais fácil desenvolver trabalhos com Espanha, caso da Junta de Extremadura. Temos tido muita dificuldade em desenvolver projetos em Portugal, que é um bocadinho absurdo”

Luiz Oosterbeek disse estar focado em olhar para o amanhã, para o futuro, e que a continuidade do estudo das gravuras rupestres vai muito além do turismo e economia – apesar de também para isso poder contribuir.

Para o arqueólogo está em causa o estudo sobre o conceito de civilização, “palavra-chave para o século XXI, porque implica uma ideia de diversidade cultural. E a história da humanidade teve diversos momentos, em que as culturas foram capazes de se articular e teve momento em que as culturas não foram capazes de se articular e nesses momentos geralmente deu em guerra ou outra coisa menos agradável. Hoje temos isso em cima da mesa. Às vezes, olha-se para estas gravuras e pensa-se no turismo, na atração económica… eu acho que é muito mais do que isso”.

Quanto ao futuro, Mário Varela Gomes disse crer que as novas descobertas “são essenciais para abrir caminho a novas investigações de campo e de gabinete”.

“A existência destas novas gravuras paleolíticas, descobertas em setembro no Ocreza, são muito importantes devido à antiguidade, por serem mais raras, e levantam mais problemáticas. São mais estimulantes até do ponto de vista intelectual, por estarem mais afastadas de nós”, disse, defendendo que a sociedade “também precisa de elementos que a estimulem, que façam de âncora das pessoas aos sítios, mas que levantem problemáticas e que estas sejam discutidas”.

“Discute-se muito futebol, discute-se menos cultura, menos as tradições, discute-se menos o que é o nosso país e as nossas raízes. Este aspeto destas gravuras rupestres deve potenciar isso”

Comentando sobre o que se tem feito em Mação nas últimas décadas, Varela Gomes avaliou este “centro de investigação arqueológica de Mação” como sendo “único em Portugal”.

“Mação está de parabéns por ter cativado investigadores, não só como Luiz Oosterbeek, como a equipa que reuniu. Não só do estudo da arte rupestre, mas do estudo do Paleolítico, do Megalitismo, da Arqueologia da região e não só. Isso divulga Mação a nível internacional, não só com os alunos que vêm de partes do mundo, mas também com o que se publica aqui e se faz – uma investigação de grande qualidade e não há muitos centros destes em Portugal”, enunciou.

Também o Município mereceu elogios do arqueólogo – que o é por paixão e prazer, mas também para servir a sociedade.

Varela Gomes disse que Mação tem “uma autarquia iluminada, o que é raro, e foram criadas condições para formar esta escola que nasceu em Mação e que se está a desenvolver e tem rastos pelo mundo fora”.

Agora é continuar o trabalho desenvolvido até aqui. “A semente é boa, agora é preciso que seja acarinhada a planta para que dê mais frutos e que se desenvolva. Agora, que Mação é neste momento um centro fulcral da investigação em Arte Pré-histórica e outras áreas da Arqueologia em Portugal, não há dúvida nenhuma”, frisou, dizendo que se trata de tomar conhecimento do passado de todos, e que todos deveriam querer conhecer os seus antepassados.

Investigadores de norte a sul do país reuniram-se para debater o passado, o presente, mas especialmente, o futuro do estudo e descoberta da arte rupestre e património arqueológico em Portugal. Foto: CMM

Também presente neste dia esteve Luís Raposo, arqueólogo especializado no Paleolítico e que integrou o grupo de investigadores que estudou os setores do Vale do Tejo, sendo presidente do ICOM Europa. O arqueólogo recorreu às redes sociais para cimentar “três memórias de uma bela jornada em Mação” nesta comemoração do Dia Europeu da Arte Rupestre, de onde salientou “o reencontro com amigos, alguns companheiros de longuíssima estrada, bem como “a emoção de ver as novas descobertas do Ocreza, entre as quais um belíssimo friso paleolítico; tudo nos diz que novas descobertas irão acontecer onde há cinquenta anos passaram pela primeira vez alguns da “geração do Tejo”, sem ver nada disto (embora tivessem visto alguma coisa, mas tudo de idade pós-glaciária)”.

Concluindo, ficou ainda “a convicção, feita manifesto, de que importa promover a classificação da arte rupestre do Tejo como “monumento nacional”: uma batalha que devemos iniciar imediatamente”, defendeu.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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