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Segunda-feira, Outubro 18, 2021

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Mação/Incêndios | O Natal chegou mais cedo à freguesia do Carvoeiro (c/vídeos)

Em cada rosto uma lágrima. Em cada olhar um obrigado. Se o Natal significa Esperança e Fé em dias melhores então foi na quinta-feira, 21 de dezembro, que o mesmo se celebrou em várias aldeias das freguesias de Carvoeiro e Envendos, em Mação: oito dos seus habitantes voltaram a ter na sua casa, danificada pelos incêndios do último verão, um doce lar. E o que é uma casa se não um regaço? Na tarde da última quinta-feira, uma comitiva visitou estes lares no Carvoeiro, agora reconstruídos e benzidos pelo pároco da freguesia, António Assunção, fazendo-se o exercício do esquecimento daqueles dias de má memória.

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Padre António Assunção benzeu habitação reconstruída em Vale da Casa, Carvoeiro Foto: mediotejo.net

É difícil perguntar o que é que sente alguém a quem o fogo roubou tudo e a solidariedade devolveu. É difícil porque a resposta sai numa voz embargada. Sentimos que estamos a mexer numa ferida que agora é tempo de sarar. Não insistimos. Não é isso que valoriza o nosso trabalho. Preferimos respeitar cada ruga dos rosto com que nos fomos cruzando pelos vales profundos de um Mação tomado pelos tons castanhos e que há alguns meses foi tão massacrado pela besta a que chamam fogo. E que besta, meu Deus, que deixou um rasto de quilómetros e quilómetros de destruição. Que deixou lugares vazios na mesa de muitas famílias neste Natal em todo o país.

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Amélia Maria Dias, habitante de Vale da Casa, com o presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela Foto: mediotejo.net

Amélia Maria Dias, 83 anos, ainda não sabe como tudo aconteceu. O telhado da casa era novo, a casa era toda em cimento mas foi-se toda. Foi a 25 de junho de má memória, com a aldeia a ser tomada pelo fogo de todos os lados.

“Não sei o que é que aconteceu. Ardeu tudo o que tinha. Ainda hoje estou na cama e ponho-me a pensar”, refere com a voz cortada pelo choro. Queriam levá-la para um Lar mas não deixou. Todo o interior da habitação foi consumido e valeu-lhe ter fotografias da família guardadas noutra casa. Todas as mobílias e electrodomésticos que agora tem foram feito de doações.

“Tenho a agradecer a tudo e a todos. Fiquei com uma casa nova mas antes queria ter a minha velha e não acontecer a tragédia que aconteceu”, diz. E chora. Lágrimas de gratidão.

Elicídio Bilé, presidente da Cáritas Diocesana de Portalegre-Castelo Branco com Joaquim Cardoso Foto: mediotejo.net

“Obrigado”. Joaquim Cardoso, 83 anos, só consegue dizer isto. A sua casa, em Feiteira, foi totalmente destruída pelas chamas. Durante o tempo em que duraram as obras, o viúvo dormiu num anexo da habitação. Agora está de volta ao seu lar. E volta a agradecer por isso.

A poucos quilómetros, em Rouqueira, uma aldeia situada num profundo vale, onde o sol já não chega às quatro da tarde, o sorriso de Maria de Lurdes Pequito é quase constrangedor para quem está de fora. Mas também este é um sorriso de gratidão. A sua casa foi toda reconstruída. A dos avós, num terreno ao lado, não teve salvação.

Não estava ali no dia do incêndio e nem a deixaram passar. “Quando aqui cheguei nem queria acreditar”, relembra. Neste dia, tal com os outros habitantes da freguesia, recebeu um saco com alguns produtos alimentares doados por um casal de Sintra, da Junta de Freguesia do Carvoeiro, que se fez representar pelo presidente, Nuno Bragança e pelo secretário, Augusto Alves Martins.

Maria de Lurdes Pequito, habitante de Rouqueira, com o presidente da Junta do Carvoeiro, Nuno Bragança (à esq.) e o secretário da freguesia, Augusto Martins Foto: mediotejo.net

“Foi um verão para esquecer. Praticamente toda a área da freguesia foi afectada pelos incêndios. Houve muita perda a nível de habitações, entre cinco casas de primeira habitação, casas de segunda habitação, anexos, armazéns e arrecadações (onde existiam produtos maquinaria agrícola)”, descreve o autarca, considerando que também era importante encontrar uma solução para estas situações.

“Era importante também ajudar estas pessoas a repor o que perderam. À semelhança dos apoios para as vítimas dos incêndios que foram atribuídos a outras regiões do país, seria bom também que essas medidas fossem implementadas em Mação”, deseja.

Em Frei João, ardeu o anexo da casa de Mário Alves Martins e de Maria de Jesus Marques, ainda em obras Foto: mediotejo.net

Na aldeia de Frei João, ainda há obras a decorrer no anexo da habitação do casal Mário Alves Martins e Maria de Jesus Lopes. A casa principal sobreviveu intacta às chamas mas Mário recorda que no anexo mesmo ao lado ardeu toda a placa e o sótão. “25 de junho”. Repete a data. Estava em casa com uma filha que o alertou para o fumo.

“O que me valeu para que isto não ardesse tudo foi a GNR que apagou isto com água da nossa rede. Bombeiros não havia, estavam noutro local”, recorda. Foi uma grande aflição. As obras, que ainda continuam a bom ritmo, estão quase concluídas. O casal agradece toda a ajuda e oferece um lanche caseiro à comitiva. São assim as gentes de Mação. Hospitaleiras e de trato fácil. Aqui todos se sentem em casa e ninguém é de fora.

Henrique Alves Marques, da aldeia de Frei João, viu a sua casa ser toda reconstruída Foto: mediotejo.net

Na mesma aldeia de Frei João, a última casa a visitar é a de Henrique Alves Marques. A sua casa ardeu por completo a 26 de junho. Durante o tempo em que duraram as obras ficou alojado na casa de uma irmã. “Veio aqui a GNR para me levar mas disse logo: daqui não saio. E consegui salvaguardar isto com o meu trator. No outro dia, já estava descansado e estava ajudar a combater os reacendimentos aqui por perto quando me disseram que a minha estava a arder”, recorda.

Ficou apenas com as quatro paredes. “Só tive tempo de fugir para casa de um vizinho. O fumo era tanto que não nos víamos. Graças a Deus ainda cá estou. Obrigadinho, obrigadinho”, disse.

O pároco da freguesia do Carvoeiro António Ascenção, Elicídio Bilé, presidente da Cáritas Diocesana de Portalegre-Castelo Branco, Henrique Alves e o presidente da Câmara, Vasco Estrela Foto: mediotejo.net

O presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela – autarquia que colaborou no levantamento das situações no terreno e tratou dos procedimentos – disse no final desta visita que o melhor de tudo é o sorriso que todas estas pessoas expressam em cada encontro. É esse sorriso que lhe aquece o coração de autarca e, sobretudo, o do homem que aparenta ser sempre sereno mesmo quando, cremos, o sangue lhe ferve por dentro por querer que seja Natal todos os dias.

Mação / Incêndios – Habitantes da freguesia do Carvoeiro recebem casas reconstruídas

Publicado por mediotejo.net em Quinta-feira, 21 de Dezembro de 2017

“É um momento de alegria para todas estas pessoas que sofreram – e muito – por ver as suas habitações destruídas, onde em muitos casos viveram toda a vida. Estamos felizes por, nesta época especial do ano, podermos concretizar este objectivo que era o de poder entregar estas casas”, disse.

Mação/ Incêndios – Entrega de casa reconstruída ao Sr. Joaquim Cardoso, habitante de Feiteira

Publicado por mediotejo.net em Quinta-feira, 21 de Dezembro de 2017

 

Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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