Não o colocámos no título, mas certamente o caro leitor chegou lá sozinho. Falamos da aldeia do Pereiro, concelho de Mação, que ostenta orgulhosamente a marca registada de “Capital das Ruas Enfeitadas”, adquirida em maio de 2013. Hoje, as flores de plástico já substituem as de papel e a experiência acumulada já ajuda a estruturar melhor edição após edição. Ainda assim, e apesar de a criatividade continuar a imperar, a mão-de-obra é algo que já escasseia. E o cansaço, teme-se, poderá sair vencedor. Fomos ouvir os desabafos e as alegrias das gentes que mantêm viva a aldeia, durante os últimos retoques antes da abertura oficial das Ruas Enfeitadas de 2018, a decorrer até domingo, dia 26 de agosto. Ali, apenas uma certeza: todos os enfeites são feitos por amor à terra.
Chegamos de manhã, uma manhã solarenga, e o calor começa a apertar quando o sol acerta. O silêncio é absoluto. Dirigimo-nos pela segunda entrada, como quem vem de Aldeia de Eiras, ao largo principal, o Largo do Arraial, junto à Associação Desportiva e Cultural do Pereiro, e aí sim já se vê gente com flores nos braços.
O grandioso símbolo desta edição, a Rosa dos Ventos, ali está sobre as nossas cabeças. Veio substituir os ex-libris de edições anteriores, desde o Girassol, a Flor da Esteva e o Guarda-Sol. E logo apanhamos no caminho, em direção ao recinto das festas tradicionais, o seu inventor António João Maia. Natural do Pereiro mas residente em Alpiarça, é reconhecido como “grande impulsionador do evento”.
Assim o disse Nuno Neto, presidente da Associação do Pereiro, que estava mais acima, no recinto, na fase de preparação do fim-de-semana dos festejos tradicionais, com comes e bebes e o típico baile de verão, que antecede a Romaria em honra da padroeira do Pereiro, a Nossa Senhora da Saúde.
A partir dali, garantem, ninguém perderá o Norte, esperando-se de noite um espetáculo luminoso, por entre o pisca-pisca dos pontos cardeais. Mas desengane-se quem pensa que foi de fácil execução. “No fim da montagem havia dúvida se, efetivamente, estava bem orientado. E no outro dia apareceu um senhor que tinha uma bússola, e está correto!”, contou, entre risos, António João.
Dizem que foi daqui, destas cerimónias religiosas, que começaram a surgir as vontades de enfeitar as ruas da aldeia nesta altura do ano, sempre a anteceder o último domingo de agosto. Mas desde há dez anos que tudo começou a ganhar forma, com uma estrutura e organização mais vincadas, na qual a única Associação local assume um papel preponderante enquanto “motor”.
A ADCP foi criada em 1983 com o intuito de organizar outro grande evento que faz parte da história da aldeia, o circuito de ciclismo do Pereiro. “Nesta altura, vê-se nos vídeos, já as ruas estavam por aí enfeitadas”, atira António João Maia.

“O enfeite das ruas já tem largas dezenas de anos, mas começou sem qualquer organização. Cada um fazia um bocadinho na sua rua, enfeitando a zona onde passava a procissão da Senhora da Saúde”, referiu Nuno Neto, indicando que o propósito continua a ser esse, estando este ano o circuito das Ruas Enfeitadas também cingido a essa passagem da romaria.
Assim que as coisas começaram a tomar contornos mais sérios, partiu-se para a aquisição da marca de “Capital das Ruas Enfeitadas”, sendo que não havia ainda nenhuma terra com esta denominação, que tem valido à aldeia o reconhecimento pelo país fora.
Quanto à estrutura, a verdade é que a autonomia continua a existir, no sentido em que as pessoas de cada rua “é que definem se enfeitam de amarelo ou azul” e apresentam a lista dos materiais que necessitam à associação, que costuma adquirir os plásticos coloridos.
No que à confeção dos enfeites diz respeito, a verdade é que o panorama não é animador, apesar de contabilizarem cerca de 40 pessoas ligadas à ornamentação das ruas e às festas.
António João admite que “infelizmente, nos últimos anos, dá impressão que não é fácil motivar as pessoas”, ao que tudo indica deixam-se vencer pelo cansaço.
“Este é um trabalho difícil… mal acaba uma edição, começa-se logo a fazer flores para o ano seguinte e para substituir outras”. Nesta medida, Nuno Neto reconhece que este mal é o “drama das associações todas”, pois no concelho outras do mesmo problema padecem.
“A população está mais envelhecida, há menos gente, e hoje os jovens têm outro espírito porque a vida também está muito mais exigente do ponto de vista profissional e a nível de horários desestruturados… tudo se conjuga para que as pessoas desliguem do associativismo e estejam mais independentes”, disse.
Os mais novos, queixam-se os envolvidos no evento, “não se chegam para aprender e para continuar” com a tradição.
“De ano para ano as coisas estão a ser mais problemáticas, sem dúvida. Chegámos a enfeitar a Rua Principal, mas este ano num espaço de dois ou três meses faleceram duas pessoas que se envolviam na decoração dessa rua, e outro rapaz que colaborava ativamente emigrou… tudo isto condiciona muito. Faltam ali duas ou três pessoas e é o suficiente para não se realizar”, confidenciou o presidente da coletividade da aldeia, recordando ainda a queda grave de António João, em 2017, traído pela escada enquanto trabalhava na colocação das armações e arcos para os enfeites, o que abalou toda a comissão e levou a que as pessoas não realizassem o evento.
Isso e os incêndios florestais que vieram assombrar o concelho naquele trágico verão e que, por sorte e pelo empenho dos populares, se travou a tempo de não deixar arder muito na envolvente da povoação. Do mesmo não se podem gabar dezenas e dezenas de aldeias vizinhas.
“Felizmente temos esta mancha florestal”, desabafaram, entendendo que o trauma ficou e já vem de outros anos. “Recordo outros anos em que fomos confrontados com fogo à porta”, lembrou Nuno Neto, enquanto António João puxou imediatamente da memória esse mesmo dia.
“Calhou no dia da festa, que até tocaram o sino, e o pessoal foi todo combater as chamas. E acabou a festa e teve de se pagar ao conjunto musical… Não atuou e teve de se pagar na mesma!”, rematou, não conseguindo segurar uma forte gargalhada. Se o fogo vier, logo se verá, pois outros problemas são mais flagrantes. Para já, ainda com o trauma de 2017, estão “descansados” nesta parte.
Quanto à continuidade e à viabilidade de realização de novas edições, Nuno Neto afirma que as coisas têm de ser pensadas no presente, e só após cada edição fazer um balanço e ver como correu.
“É ir andando. Vamos mantendo isto ano a ano, e procurando levar o barco o mais longe possível. Mas sabemos que a manta começa a estar muito curta… E não sabemos até quando se manterá, pois todos nós já temos alguma idade”, frisa, deixando ainda no ar o apelo para que o “exército” de voluntários apareça para acompanhar e fazer valer a vontade dos atuais festeiros. “É ir andando… até um dia”, insistiu.
Outras dificuldades começam a surgir, ao fim de uma década de tradição: o armazenamento dos materiais e as condições para receber grandes grupos que chegam em excursões.
A solução para o primeiro constrangimento tem passado por, estando a antiga escola primária lotada, aproveitar a cedência de casas que não estão habitadas para lá guardar. “O que precisávamos era de um armazém para libertar estes espaços”, explica António João, notando que muito material “chega a ser reutilizado”.
“O plástico tem a vantagem de ser um pouco mais resistente que o papel, ao sol e à chuva, e é impensável, ao longo dos anos, refazer tudo na íntegra”, ainda que notem que não dura mais de três anos e haja especial cuidado com as cores utilizadas.
“O vermelho é a cor que o sol estraga mais facilmente, num ano ou dois fica um rosa pálido, uma coisa estranha…”, atira António João dentro do seu conhecimento de causa.
Aqui se cumpre a tradição por amor à terra e respeito às raízes
A conversa estava boa, ali nas instalações do recinto de festas. Mas antes que o calor apertasse mais, fomos até à Igreja, vigilante no cimo da terra, para nos encontrarmos com outro importante impulsionador do evento: Nélio Gaspar.
No cimo do andaime, aprimorava com últimos retoques o pilar central ao fundo da escadaria da igreja. Dali parte a romaria da Nossa Senhora da Saúde, a padroeira. Há largos anos que a sua família é responsável por enfeitar esta zona da terra. Os pais são naturais do Pereiro, e Nélio, juntamente com os irmãos, cunhados e sobrinhos, mantém a ligação e a tradição.
Quanto ao pormenor e estratégia para o enfeitar, diz que tudo é “programado com o número de flores necessárias em determinadas cores” e “durante o ano há uma tia minha e outras pessoas de idade que se vão entretendo a fazer as flores de plástico. Porque o pessoal novo não alinha”, confirma, dizendo que os responsáveis pela decoração rondam a casa “dos 50 ou 60 anos até aos 80”, e logo lembrando a “senhora que veio de Corroios, e que foi responsável por todas as flores suspensas”.
“Nós vimos cá praticamente de 15 em 15 dias, ou todas as semanas, e vamos interagindo com as pessoas de idade que estão por cá e outras que estão fora do concelho” sendo ponto assente que “nesta altura passamos aqui as férias, eu e os meus irmãos. Felizmente somos uma família grande”, afirmou, servindo-se deste facto como consolo para a parca população na aldeia.
A montagem da estrutura dura todo o mês de julho. O colocar dos enfeites começou na quarta-feira passada, “está a fazer uma semana”. E ali estão das oito da manhã até à meia-noite, “aos bocados durante o dia, quando está menos calor… conforme o vento também”.
Ao que tudo indica, tudo correu dentro dos conformes. “Estamos só a acabar, a dar os últimos retoques. Ao meio-dia deve estar tudo pronto”, diz-nos.
Mas o que é que motiva todo este esforço e o regresso às origens? “O amor à terra… é isso mesmo”, suspira, transparecendo no rosto que o esforço compensa.
O mesmo acredita Fernanda Gaspar, natural do Barreiro, mas cuja permanência na aldeia do marido a faz senti-a como sua. “Desde que me aposentei que só vou ao Barreiro em outubro, e venho cá passar o natal e o Ano Novo. Adoro!”, conta-nos na rua, carregando num balde uns ovos para a prima que ali residia perto, uma grande aficionada deste evento e que até montou uma barraquinha em frente à moradia. Fernanda não tem dúvidas: “para mim este é o ano mais bonito”.
Apesar de nos confidenciar que a vontade para festas não é muita, estando a cumprir o luto do falecido filho, aponta que o facto de os enfeites estarem mais espaçados e não tão carregados torna tudo “mais airoso”, lamentando que as artroses nas mãos não tenham permitido ajudar nas ornamentações mais do que dois anos.
“Chega-se a esta altura e gera-se aqui um esforço pelo Pereiro… Jesus!… São encantadores!”. Fernanda mora no largo principal, e da janela, delicia-se ao ver o enfeitar das ruas até lá ao cima, à Igreja.
No rosto de Fernanda, apesar de tudo, espelhava-se a vivacidade e a alegria de uma aldeia que por esta altura se enche de cor e se veste a rigor, para colocar em prática a arte de bem receber.
Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres: o conhecimento e o saber, a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.




