Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -
Quarta-feira, Outubro 20, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Mação | Enquanto as ruas da aldeia se enfeitarem por amor…

Não o colocámos no título, mas certamente o caro leitor chegou lá sozinho. Falamos da aldeia do Pereiro, concelho de Mação, que ostenta orgulhosamente a marca registada de “Capital das Ruas Enfeitadas”, adquirida em maio de 2013. Hoje, as flores de plástico já substituem as de papel e a experiência acumulada já ajuda a estruturar melhor edição após edição. Ainda assim, e apesar de a criatividade continuar a imperar, a mão-de-obra é algo que já escasseia. E o cansaço, teme-se, poderá sair vencedor. Fomos ouvir os desabafos e as alegrias das gentes que mantêm viva a aldeia, durante os últimos retoques antes da abertura oficial das Ruas Enfeitadas de 2018, a decorrer até domingo, dia 26 de agosto. Ali, apenas uma certeza: todos os enfeites são feitos por amor à terra.

- Publicidade -

Chegamos de manhã, uma manhã solarenga, e o calor começa a apertar quando o sol acerta. O silêncio é absoluto. Dirigimo-nos pela segunda entrada, como quem vem de Aldeia de Eiras, ao largo principal, o Largo do Arraial, junto à Associação Desportiva e Cultural do Pereiro, e aí sim já se vê gente com flores nos braços.

O grandioso símbolo desta edição, a Rosa dos Ventos, ali está sobre as nossas cabeças. Veio substituir os ex-libris de edições anteriores, desde o Girassol, a Flor da Esteva e o Guarda-Sol. E logo apanhamos no caminho, em direção ao recinto das festas tradicionais, o seu inventor António João Maia. Natural do Pereiro mas residente em Alpiarça, é reconhecido como “grande impulsionador do evento”.

- Publicidade -

Assim o disse Nuno Neto, presidente da Associação do Pereiro, que estava mais acima, no recinto, na fase de preparação do fim-de-semana dos festejos tradicionais, com comes e bebes e o típico baile de verão, que antecede a Romaria em honra da padroeira do Pereiro, a Nossa Senhora da Saúde.

A partir dali, garantem, ninguém perderá o Norte, esperando-se de noite um espetáculo luminoso, por entre o pisca-pisca dos pontos cardeais. Mas desengane-se quem pensa que foi de fácil execução. “No fim da montagem havia dúvida se, efetivamente, estava bem orientado. E no outro dia apareceu um senhor que tinha uma bússola, e está correto!”, contou, entre risos, António João.

Dizem que foi daqui, destas cerimónias religiosas, que começaram a surgir as vontades de enfeitar as ruas da aldeia nesta altura do ano, sempre a anteceder o último domingo de agosto. Mas desde há dez anos que tudo começou a ganhar forma, com uma estrutura e organização mais vincadas, na qual a única Associação local assume um papel preponderante enquanto “motor”.

A ADCP foi criada em 1983 com o intuito de organizar outro grande evento que faz parte da história da aldeia, o circuito de ciclismo do Pereiro. “Nesta altura, vê-se nos vídeos, já as ruas estavam por aí enfeitadas”, atira António João Maia.

A padroeira N. Sra. da Saúde terá estado na origem das Ruas Enfeitadas, que antigamente eram decoradas para a receber a sua procissão. Foto: António João Maia

“O enfeite das ruas já tem largas dezenas de anos, mas começou sem qualquer organização. Cada um fazia um bocadinho na sua rua, enfeitando a zona onde passava a procissão da Senhora da Saúde”, referiu Nuno Neto, indicando que o propósito continua a ser esse, estando este ano o circuito das Ruas Enfeitadas também cingido a essa passagem da romaria.

Assim que as coisas começaram a tomar contornos mais sérios, partiu-se para a aquisição da marca de “Capital das Ruas Enfeitadas”, sendo que não havia ainda nenhuma terra com esta denominação, que tem valido à aldeia o reconhecimento pelo país fora.

Quanto à estrutura, a verdade é que a autonomia continua a existir, no sentido em que as pessoas de cada rua “é que definem se enfeitam de amarelo ou azul” e apresentam a lista dos materiais que necessitam à associação, que costuma adquirir os plásticos coloridos.

No que à confeção dos enfeites diz respeito, a verdade é que o panorama não é animador, apesar de contabilizarem cerca de 40 pessoas ligadas à ornamentação das ruas e às festas.

António João admite que “infelizmente, nos últimos anos, dá impressão que não é fácil motivar as pessoas”, ao que tudo indica deixam-se vencer pelo cansaço.

“Este é um trabalho difícil… mal acaba uma edição, começa-se logo a fazer flores para o ano seguinte e para substituir outras”. Nesta medida, Nuno Neto reconhece que este mal é o “drama das associações todas”, pois no concelho outras do mesmo problema padecem.

“A população está mais envelhecida, há menos gente, e hoje os jovens têm outro espírito porque a vida também está muito mais exigente do ponto de vista profissional e a nível de horários desestruturados… tudo se conjuga para que as pessoas desliguem do associativismo e estejam mais independentes”, disse.

Os mais novos, queixam-se os envolvidos no evento, “não se chegam para aprender e para continuar” com a tradição.

“De ano para ano as coisas estão a ser mais problemáticas, sem dúvida. Chegámos a enfeitar a Rua Principal, mas este ano num espaço de dois ou três meses faleceram duas pessoas que se envolviam na decoração dessa rua, e outro rapaz que colaborava ativamente emigrou… tudo isto condiciona muito. Faltam ali duas ou três pessoas e é o suficiente para não se realizar”, confidenciou o presidente da coletividade da aldeia, recordando ainda a queda grave de António João, em 2017, traído pela escada enquanto trabalhava na colocação das armações e arcos para os enfeites, o que abalou toda a comissão e levou a que as pessoas não realizassem o evento.

Foto: mediotejo.net

Isso e os incêndios florestais que vieram assombrar o concelho naquele trágico verão e que, por sorte e pelo empenho dos populares, se travou a tempo de não deixar arder muito na envolvente da povoação. Do mesmo não se podem gabar dezenas e dezenas de aldeias vizinhas.

“Felizmente temos esta mancha florestal”, desabafaram, entendendo que o trauma ficou e já vem de outros anos. “Recordo outros anos em que fomos confrontados com fogo à porta”, lembrou Nuno Neto, enquanto António João puxou imediatamente da memória esse mesmo dia.

“Calhou no dia da festa, que até tocaram o sino, e o pessoal foi todo combater as chamas. E acabou a festa e teve de se pagar ao conjunto musical… Não atuou e teve de se pagar na mesma!”, rematou, não conseguindo segurar uma forte gargalhada. Se o fogo vier, logo se verá, pois outros problemas são mais flagrantes. Para já, ainda com o trauma de 2017, estão “descansados” nesta parte.

Quanto à continuidade e à viabilidade de realização de novas edições, Nuno Neto afirma que as coisas têm de ser pensadas no presente, e só após cada edição fazer um balanço e ver como correu.

“É ir andando. Vamos mantendo isto ano a ano, e procurando levar o barco o mais longe possível. Mas sabemos que a manta começa a estar muito curta… E não sabemos até quando se manterá, pois todos nós já temos alguma idade”, frisa, deixando ainda no ar o apelo para que o “exército” de voluntários apareça para acompanhar e fazer valer a vontade dos atuais festeiros. “É ir andando… até um dia”, insistiu.

Outras dificuldades começam a surgir, ao fim de uma década de tradição: o armazenamento dos materiais e as condições para receber grandes grupos que chegam em excursões.

A solução para o primeiro constrangimento tem passado por, estando a antiga escola primária lotada, aproveitar a cedência de casas que não estão habitadas para lá guardar. “O que precisávamos era de um armazém para libertar estes espaços”, explica António João, notando que muito material “chega a ser reutilizado”.

“O plástico tem a vantagem de ser um pouco mais resistente que o papel, ao sol e à chuva, e é impensável, ao longo dos anos, refazer tudo na íntegra”, ainda que notem que não dura mais de três anos e haja especial cuidado com as cores utilizadas.

“O vermelho é a cor que o sol estraga mais facilmente, num ano ou dois fica um rosa pálido, uma coisa estranha…”, atira António João dentro do seu conhecimento de causa.

Aqui se cumpre a tradição por amor à terra e respeito às raízes

A conversa estava boa, ali nas instalações do recinto de festas. Mas antes que o calor apertasse mais, fomos até à Igreja, vigilante no cimo da terra, para nos encontrarmos com outro importante impulsionador do evento: Nélio Gaspar.

No cimo do andaime, aprimorava com últimos retoques o pilar central ao fundo da escadaria da igreja. Dali parte a romaria da Nossa Senhora da Saúde, a padroeira. Há largos anos que a sua família é responsável por enfeitar esta zona da terra. Os pais são naturais do Pereiro, e Nélio, juntamente com os irmãos, cunhados e sobrinhos, mantém a ligação e a tradição.

Quanto ao pormenor e estratégia para o enfeitar, diz que tudo é “programado com o número de flores necessárias em determinadas cores” e “durante o ano há uma tia minha e outras pessoas de idade que se vão entretendo a fazer as flores de plástico. Porque o pessoal novo não alinha”, confirma, dizendo que os responsáveis pela decoração rondam a casa “dos 50 ou 60 anos até aos 80”, e logo lembrando a “senhora que veio de Corroios, e que foi responsável por todas as flores suspensas”.

“Nós vimos cá praticamente de 15 em 15 dias, ou todas as semanas, e vamos interagindo com as pessoas de idade que estão por cá e outras que estão fora do concelho” sendo ponto assente que “nesta altura passamos aqui as férias, eu e os meus irmãos. Felizmente somos uma família grande”, afirmou, servindo-se deste facto como consolo para a parca população na aldeia.

A montagem da estrutura dura todo o mês de julho. O colocar dos enfeites começou na quarta-feira passada, “está a fazer uma semana”. E ali estão das oito da manhã até à meia-noite, “aos bocados durante o dia, quando está menos calor… conforme o vento também”.

Ao que tudo indica, tudo correu dentro dos conformes. “Estamos só a acabar, a dar os últimos retoques. Ao meio-dia deve estar tudo pronto”, diz-nos.

Foto: mediotejo.net

Mas o que é que motiva todo este esforço e o regresso às origens? “O amor à terra… é isso mesmo”, suspira, transparecendo no rosto que o esforço compensa.

O mesmo acredita Fernanda Gaspar, natural do Barreiro, mas cuja permanência na aldeia do marido a faz senti-a como sua. “Desde que me aposentei que só vou ao Barreiro em outubro, e venho cá passar o natal e o Ano Novo. Adoro!”, conta-nos na rua, carregando num balde uns ovos para a prima que ali residia perto, uma grande aficionada deste evento e que até montou uma barraquinha em frente à moradia. Fernanda não tem dúvidas: “para mim este é o ano mais bonito”.

Apesar de nos confidenciar que a vontade para festas não é muita, estando a cumprir o luto do falecido filho, aponta que o facto de os enfeites estarem mais espaçados e não tão carregados torna tudo “mais airoso”, lamentando que as artroses nas mãos não tenham permitido ajudar nas ornamentações mais do que dois anos.

“Chega-se a esta altura e gera-se aqui um esforço pelo Pereiro… Jesus!… São encantadores!”. Fernanda mora no largo principal, e da janela, delicia-se ao ver o enfeitar das ruas até lá ao cima, à Igreja.

No rosto de Fernanda, apesar de tudo, espelhava-se a vivacidade e a alegria de uma aldeia que por esta altura se enche de cor e se veste a rigor, para colocar em prática a arte de bem receber.

 

 

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome