Mação | Cantando noite dentro p’las almas doutro mundo (C/VIDEO)

Começaram dia 2 de janeiro, como manda a tradição há muitas e muitas décadas, a cantar as Janeiras, porta a porta, na sua terra, Queixoperra, no Mação profundo. Esta terça-feira, dia 16, terminaram os serões que alargaram a outras localidades vizinhas. Sem treinos ou afinações, sem instrumentos, em participações voluntárias, as quadras entoam clamando por esmola para que se rezem missas, em todas essas terras, pelas almas dos que já partiram. Para lhe dar a conhecer este costume, o mediotejo.net acompanhou o grupo no último serão, em Alcaravela, concelho de Sardoal.

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O encontro dá-se no centro da aldeia, na sede do Centro Cultural e Recreativo de Queixoperra, que, à semelhança de tantas outras terras vizinhas, acaba por ser o único café e espaço de convívio em Mação.

Encontramo-nos com Rui Silva, presidente da direção e um dos membros que estimulou a continuação destes cantares.

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Rui Silva, de 50 anos, explicou-nos que já ouvia o pai e os tios a falar na tradição e a cantar as Janeiras. A certa altura, as pessoas dentro dessa faixa etária começaram a falecer, levando a um interregno. E foi o irmão de Rui, nove anos mais velho, que, tendo ouvido um grupo de uma aldeia vizinha a cantar em Queixoperra, começou a consultar as pessoas da terra sobre o potencial interesse em retomarem esse costume, acreditando que ali também havia capacidade para fazer semelhante. E assim foi.

“Talvez a partir da década de 80 é que isto começou a tomar outras proporções novamente, nesta nova geração. A partir daí, nunca mais acabou”, recordou.

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Seguindo o exemplo do passado, que motivara o irmão de Rui, o grupo começou a ir cantar a aldeias vizinhas. “Logo nesse ano começámos a alargar a aldeias vizinhas e já houve aldeias que optámos por deixar de ir, porque também se torna demasiado, a fazer já cerca de dez serões neste tempo, é pedir muito esforço às pessoas”, justificou.

Mas… e qual o objetivo? A principal motivação? Segundo Rui, “há pessoas que não o entendem”, mas o principal objetivo é pedir esmolas para dizer missas pelas almas. E no fim, com conhecimento do pároco da freguesia, “faz-se um almoço ou jantarinho” de convívio dos cantadores.

“Não entregamos só a esmola recolhida à nossa aldeia. Vamos entregar às aldeias onde vamos pedir”, explicitou.

Entretanto, a tradição que começou por ser cantada só por vozes masculinas, começou a aglomerar vozes femininas. “De há dez anos para cá as senhoras começaram a aderir mais”, contou, reconhecendo que o número varia, mesmo quanto aos homens participantes, que “não são sempre certos”. “Têm ido sempre cinco ou seis senhoras, nos dois grupos”, explicou.

E o mesmo sucede com os mais jovens, sendo que “é normal ir uma criança ou duas por noite, mesmo bebés quase de colo, levados pela mãe, pelo pai, ou mesmo pelos avós. Não vão muito, mas quase sempre aparece numa noite ou outra”, considerando Rui que este costume “está minimamente enraizado e vão sempre jovens na faixa etária dos 20 aos 30 anos, há sempre alguém para ir”, caso desta noite, em que um rapaz da terra veio participar.

Mas ao falarmos de cantares de Janeiras, de canções, automaticamente nos recordamos do acompanhamento feito por instrumentos musicais. Seja ferrinhos, acordeão, pandeiretas ou reco-reco, guitarra…

Desengane-se. O grupo de Queixoperra canta à capela, sempre no mesmo ritmo, alternando as quadras entre grupos.

Um começa a cantar numa casa, e o outro, colocado noutra, tem de se fazer ouvir prosseguindo, e isto sucede ao longo das seis quadras que têm passado de ano para ano. “Não temos nenhum instrumento musical, cantamos ao desafio”, contextualiza, notando que não há lugar a ensaios.

Foto: mediotejo.net

“Só cantamos em cada serão. Até porque é difícil afinar, por não sermos sempre os mesmos, às vezes chega a haver mais vozes femininas, e não entoa tão bem”, admitiu Rui, recordando que, quando começou, tinha um tio que “era um bocado radical” nesse aspeto, porque querer que houvesse alguém certo no grupo, que garantisse certo tom de voz. “As quadras têm sido sempre as mesmas, mas não temos uma afinação de voz, nunca fizemos ensaio. Só na aldeia, no primeiro dia, juntamo-nos, aí sim, para afinar e recordar a letra, e até para chamar participantes”, esclareceu.

Agasalhados, numa noite que, segundo os membros do grupo não estaria assim tão fria em comparação com outras, começam a chegar ao ponto de encontro, cerca das 19h00.

Distribuídos em carros particulares, cujos custos de combustível sai dos bolsos dos detentores, recusando esmola para esse efeito, seguem caminho, em caravana, para iniciar o serão na primeira aldeia destinada.

Chegamos a Vale das Onegas, uma das três últimas terras a receber os cantares das Janeiras em 2018. O percurso desta vez fez-se por outra ordem, o que chegou a gerar estranheza aos populares, já tão habituados a receber ao longo dos últimos 30 anos o ecoar das quadras pelas almas na mesma altura.

No caso da aldeia vizinha, Penhascoso, existem pessoas da terra, que vivendo fora e não podendo assistir, deixam a sua esmola ao vizinho para entregar ou mesmo passado um mês fazem questão de contribuir. “Não acontece em todas as aldeias, mas ali acontece. É um caso muito curioso. Vieram pelo Natal e Passagem de ano, e voltaram à sua vida para outras cidades, mas deixam ao vizinho. ‘Olhe, quando vierem as Janeiras, está aqui a minha esmola’. Possivelmente a meio do ano andamos a receber esmolas de quem não estava cá”, disse, entusiasmado com o facto.

Adiante, pois está na hora de iniciar o serão, sendo logo divididos em dois grupos os cerca de 20 participantes presentes; nesta noite só uma senhora se atreveu a vir participar. Lurdes Vicente confidenciou-nos que começou a acompanhar o grupo, na altura só de homens, com uma amiga, Irene; isto já há quase 15 anos.

“Éramos só as duas a vir com eles no início. Estava separada na altura, e ficava muito tempo sozinha. E a minha amiga sempre gostou muito destas coisas, e desafiou-me a vir cantar as Janeiras. E durante alguns anos fomos só as duas. Mais tarde é começaram a entrar mais, todos os anos vêm cinco ou seis. Hoje, é que não sei porquê… só vim eu!”, exclamou, entre risos.

“Acordai se estás dormindo / Nesse sono tão profundo / À porta vos estão pedindo / P’rás almas do outro mundo”, começa o grupo de Rui Silva, na primeira casa de Vale das Onegas. Faz-se um curto silêncio, e do outro lado avança o segundo grupo.

“P’rás almas do outro mundo/ Que elas não podem cá vir/ Dá esmola se puderes/ Nós cá estamos a pedir”, e assim sucessivamente até terminar as seis quadras.

Em cada grupo há um responsável por uma sacola, onde recolhe o donativo. Este anuncia “Esmola para as almas! Se a senhora quiser ou puder!”, e após darem o que entendem, os responsáveis pela sacola respondem “As almas aceitem por esmola e acrescentem o que fica”.

Rui Silva a receber no saco a esmola de um dos moradores de Monte Cimeiro, que aguardava o grupo para os agraciar com um reforço alimentar. Foto: mediotejo.net

As pessoas visitadas, além dos votos de que o grupo regresse no ano seguinte, dizem ainda “Aceitem também vossas passadas e até para o ano”.

Nesta noite, também as aldeias de Chã Grande, Casal Pedro da Maia e Monte Cimeiro acolheram os cantares e deram as suas esmolas. Na jornada deste ano, o grupo de Queixoperra já fez bons quilómetros, sendo que dentro das aldeias, o percurso é feito a pé, ficando os carros estacionados em sítios estratégicos para se poder seguir viagem, sem perder tempo.

Penhascoso, Serra, Casalinho, Aboboreira, Chão de Codes, Lercas, Vale Formoso, Presa, Casos Novos, Saramaga, Vale das Onegas, Monte Cimeiro, Casal Pedro Maia e Chã Grande, e a própria Queixoperra, perfaz um total de 15 serões cantados.

Mas a boa disposição, pelo menos nesta última noite, era a mesma da primeira, assegurou Rui Silva, bem como todos os presentes. O convívio é o mais importante e o facto de se trazer algum conforto e visitar pessoas idosas que não recebem tantas visitas assim, é o suficiente para preencher o coração dos cantadores.

Foto: mediotejo.net

“Há idosos que provavelmente não recebem um visita num dia inteiro. Ou que não saem já de casa. Assim trazemos alguma alegria”, garantiu Rui.

Este que é um “passatempo ao final do dia, nestas noites compridas”, ganhou novas proporções em 2014. O grupo de Queixoperra lançou o mote para o primeiro encontro de Cantares das Janeiras de Mação, que junta cerca de 11 grupos de aldeias maçaenses num evento feito de vozes e quadras tradicionais.

Desde Carvoeiro, Cardigos, Mação, Chão de Codes, Pereiro, Aboboreira, São José das Matas à aldeia da Serra, todas as localidades têm constituído grupos, de tal maneira que, este ano, terá lugar a quinta edição deste encontro, que passou a ser rotativo entre as várias terras.

“Lançámos o convite, até no jornal de Mação, e no primeiro ano, aqui em Queixoperra, participaram nove grupos. No segundo já vieram dez”, lembrou Rui Silva.

Foto: mediotejo.net

Este sábado, dia 20, acontece a partir das 18h00 o 5º Encontro de Cantares das Janeiras em Chão de Codes, cujo grupo será o anfitrião, no pavilhão da Associação Recreativa e Cultural de Chão de Codes, prevendo-se o habitual serão à chegada, pelas casas da aldeia.

Esta tradição e esta geração de cantadores, já é mais uma história para mais tarde contar, cuja fama todos reconhecem. A continuidade, segundo Rui, aparenta estar assegurada, por ser já parte da identidade da aldeia. Isto, somando à aclamada chanfana da dona Regina, entre outras atividades mensais, desde almoços de Páscoa aos festejos de verão. Queixoperra é aldeia que todos trazem no coração e, para o futuro, o segredo é só um: “Haja saúde e boa vontade e a tradição não morrerá”.

 

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Joana Rita Santos
Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres: o conhecimento e o saber, a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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