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Terça-feira, Agosto 3, 2021

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Mação | Ari de Carvalho, um designer de som lisboeta rendido ao silêncio de Envendos

Com a massificação do teletrabalho, muitos portugueses escolheram escapar ao isolamento nos apartamentos das grandes cidades e mudar-se para o Interior, revolucionando a sua vida profissional e pessoal. O mediotejo.net tem realizado entrevistas a estes novos habitantes da região, procurando conhecer o que procuraram na região – e o que encontraram.

Ari de Carvalho mudou-se para Envendos a 18 de março. Consultou o Observatório Astronómico e decidiu que já tinha de acordar ali a 19 de março, às 9h37: a hora legal em que nascia a Primavera.

Foi em busca de um “renascimento” que, aos 50 anos, o lisboeta avançou sem medos para a vida no campo. Trouxe da azáfama da capital ideias para pôr em prática na quietude desta freguesia de Mação, recuperando uma casa antiga de herança familiar e ansiando contribuir para o desenvolvimento local na área das artes e do cinema.

Em menos de três meses já ganhou qualidade de vida, rodeado pelos sons que são autêntica terapia ao acordar, numa casa com um imenso jardim, com vista de tirar o fôlego para a serrania envolvente.

Ari de Carvalho é descendente de uma família do Chiado. Pertence à sua 4ª geração e toda a vida residiu na capital. É dos poucos profissionais da área do Design Sonoro em Portugal e professor universitário, tendo começado a dar formação aos 21 anos. Crê no mote de Picasso, “90% de trabalho, 10% de inspiração” e daí vem a exigência e zelo em tudo o que faz.

Trocou a astrofísica pelo som e trabalhou durante décadas para a RTP, onde produziu muitas identidades sonoras que fazem parte do imaginário dos portugueses, caso do genérico da Volta a Portugal em bicicleta, do noticiário de Desporto da RTP2 ou da abertura do Telejornal. O mesmo para a Antena 1 e Antena 3. Saiu da empresa por razões de saúde.

“Trabalhava demais, numa média de 20 horas por dia. E algumas vezes 36 horas sem parar… e por aí fora. Era a única pessoa que fazia aquele trabalho, com sete canais à minha responsabilidade, e muitas vezes ainda trabalhava para a rádio e para as televisões associadas aos PALOP”, começa por contar-nos, sentado no jardim daquela que é agora a sua casa, no centro de Envendos. Com primeiro andar, espaçosa, tem um enorme jardim e quintal onde já produz vários ingredientes para os seus pratos, sempre aprimorados, dado o seu gosto por cozinhar, sem pressa, e sem descurar nenhum tempero ou aroma.

Com a cadela Bolota, a sua companheira nesta nova viagem de vida. Foto: mediotejo.net

Chegou a ter um convite para trabalhar na BBC, que não aceitou por razões familiares. Mas dedicou-se à RTP de corpo inteiro, mantendo outros projetos com a sua assinatura e alimentou a sua produtora, a Fiat Lux, onde faz som para cinema.

Desde que exista Internet, Ari de Carvalho pode trabalhar em qualquer lugar. Neste momento, trabalha em Mação o som de uma série infantil da Netflix.

“Dediquei toda a minha vida ao som, ao design sonoro”, afirma, lembrando algumas aventuras na realização e embarcando em projetos diferentes, caso de documentários como os que tem para concretizar para a RTP2 e RTP3. No curriculum tem um documentário sobre astronomia em Portugal – Anos-Lusos -, sendo um apaixonado por astronomia e astro-física.

E não nos contando este último pormenor, a bibliografia disponível no excerto da biblioteca que já trouxe para a estante de Envendos denunciaria este seu hobby, juntamente com o telescópio preto, portentoso, que tem no jardim para contemplar a abóbada de céu estrelado que Mação lhe oferece praticamente todas as noites.

Foto: mediotejo.net

“Eu não tinha vida. E depois estive seis anos no congelador, como dizem as pessoas que me estão próximas. Ausentei-me de tudo, tive de parar tudo, tudo”, diz, indicando que nessa altura sofreu dois enfartes.

Há cerca de dois anos voltou a dar aulas na faculdade, na Licenciatura que ajudou a fundar em 2009, a primeira em Design Sonoro que houve em Portugal. Suspendeu em 2012 todo o processo de trabalho, e 2019/2020 marcou o ponto de viragem na sua vida – impunha-se um recomeço.

“Não preciso de um local para trabalhar. Todas essas variáveis pesaram, e depois de ter um terceiro enfarte tive indicação por parte do hospital de Santa Cruz para suspender as aulas, porque estava a ser impossível dar aulas de quatro horas seguidas. Era um desgaste brutal e não consigo estar com máscara devido à insuficiência cardíaca grave”, elucida.

Entrou em três meses de isolamento, sem sair, sem ver ninguém. Parou e pensou. “O que estou a fazer em Lisboa? Tenho uma casa ótima, cinco divisões, com uma varanda enorme. Mas que estou a fazer aqui? Entre o escritório e a sala de estar, estava a ficar maluco”, confessa.

Ari de Carvalho sofreu três enfartes e, aos 50 anos, decidiu sair de Lisboa e mudar-se de vez para uma casa de família, onde passava apenas férias de verão

Tinha esta casa em Envendos, e um sonho adiado vários anos, para criar ali uma residência artística, ligada à área do cinema documental e de animação.

A casa pertenceu ao segundo marido da avó, que não tinha filhos, e que Ari herdou, uma vez que foi adotado como neto. “Venho para cá desde os meus quatro anos de idade. É uma zona familiar, porque venho para cá passar férias desde então e continuei sempre a manter uma forte ligação a esta casa e a este sítio.”

Foto: mediotejo.net

A ideia do investimento – onde irá aplicar dinheiros próprios, património da família – impôs-se como o passo certo a dar. Ari de Carvalho quer criar um projeto que faça sentido no enquadramento local, ligado às instituições e numa estratégia coordenada.

“A minha família sempre esteve ligada às artes. O meu avô era pintor, expôs em Paris até 1939, até à invasão da Alemanha. O meu pai também esteve ligado [às artes plásticas]. Eu sou o único que optou pela variante do som, mas também fiz o 12º ano em Artes. Tive sempre ligação ao lado visual, tanto que edito vídeo. Só não filmo. Realizo, escrevo”, diz, fazendo a lista.

Em cima da mesa poderão estar formações ligadas ao cinema documental e, quem sabe, ingressar na academia da região, dando aulas em algum dos estabelecimentos de ensino superior.

Ponto assente é que, nesta fase da vida, após 24 anos dedicados à profissão, só quer trabalhar com pessoas de quem goste e em projetos que lhe façam sentido.

E nisto, a cabeça fervilha com ideias, projetos, intenções, vontades, projeções futuras… e lá se vai de novo a serenidade necessária e imposta pela saúde, porque é este o estado de espírito de Ari: o da inquietação e o de querer fazer sempre mais e melhor.

Com Bolota, no jardim, o local preferido dos dois. Foto: mediotejo.net

“É algo meu. Quando tomo balanço, o problema é parar. É o medo que todas as pessoas têm, que eu volte ao ritmo antigo. Tive o enfarte numa sexta-feira e no sábado pedi alta, na terça-feira já estava a dar aulas. Eu sou assim, não sei parar!”, diz, rindo-se de algo que está entranhado no seu ser.

O que o atraiu para Envendos foi esta casa, com “o jardim maravilhoso”. E a segurança, enquanto doente de risco em plena pandemia. “A hipótese de me cruzar com alguém, quando saio à rua, é muito diminuta. Cruzo-me com duas pessoas quando vou ao café. Em Lisboa, morava em Alvalade, mesmo junto à Avenida da Igreja… saía de casa e cruzava-me com mil pessoas, no mínimo, e o risco era muito maior. Aqui não há esse problema, além de que vivo muito recolhido em casa”, admite.

“Sempre trabalhei sozinho, toda a vida, isto para mim não tem problema nenhum. Adoro estar sozinho, sou auto-suficiente, sempre fui.”

Mas há algo que nos diz que não está sozinho. Surge na janela da cozinha a enérgica Bolota, uma cachorra que foi adotada por Ari, que foi buscá-la a Almodôvar, e que se mudou para Envendos com o novo dono. Uma raça portuguesa, era a condição, e lá encontra uma menina Rafeiro alentejano, com pelagem bege e branca, e com uns olhos doces e meigos, claros, que suplicam por carícias e afagos na presença de amigos da casa.

É cadela de guarda, protetora, a companheira no passar dos dias de Ari na aldeia, naquela casa senhorial que herdou e que agora vai revitalizando, cumprindo com sonhos e projetos que já tinha em mente, mas que provavelmente nunca pensou concretizar tão cedo.

A cadela Bolota, fiel amiga de Ari de Carvalho Foto: mediotejo.net

“Sabe o que é acordar aqui, nesta casa…?”, diz, contemplando e estendendo o braço a acompanhar toda a linha da paisagem que a vista alcança desde a mesa no jardim.

“Imagine. O sol nasce ali… quer mais razões para vir morar para aqui? Depois de 50 anos de Lisboa… Sempre que precisava era para aqui que vinha, em busca de paz de espírito. Agora decidi mudar de vez. Acordo, abro a janela do quarto, e sou presenteado com este chilrear da passarada. É maravilhoso…”, suspira, neste que é o seu cantinho, um paraíso na terra, onde não parecem existir problemas.

“Sempre trabalhei sozinho, toda a vida, isto para mim não tem problema nenhum. Adoro estar sozinho, sou auto-suficiente, sempre fui.”

E desvantagens? Ari garante que não existem. “Estou a uma hora e meia de Lisboa, de comboio estou a duas horas. A autoestrada é a 2km, o comboio é a 4 km”, enumera, mostrando que a acessibilidade não é problema.

Não havia, no período de longos meses de ponderação, prós ou contras. Havia a necessidade de ter garantias sobre as condições que necessitava para fazer a mudança e trabalhar a partir de Envendos. No caso, o principal era haver internet. Caso contrário, era inviável. Esta era a única condicionante que tinha, a título profissional.

O concelho de Mação, segundo Ari, tem uma dinâmica já muito agradável, com um desenvolvimento a vários níveis e que, na sua opinião, tem grandes vantagens e motores para fortalecer o aproveitamento e valorização do que a região tem para oferecer.

Considerando que humanamente é muito mais agradável, as pessoas são muito mais próximas, afáveis, já sabe com quem pode contar. “Tenho uma rede de apoio na vizinhança, oferecem-me boleias”, conta, lembrando que opta por não ter automóvel.

Por outro lado, Envendos tem dois supermercados, uma farmácia disponível 24 horas, posto médico, e isso basta-lhe para ir vivendo.

“A minha vinda foi toda programada com o hospital, pela minha condição de saúde. O hospital de Abrantes tem condições para me receber numa situação qualquer, sendo que sou monitorizado 24 horas por dia”, adianta.

Foto: mediotejo.net

Em termos profissionais, diz que lhe foi logo assegurada ligação à internet, e garante que “tudo corre às mil maravilhas”. O único problema é que ainda não passou cablagem pelas grossas paredes de 90 cm, que impedem a difusão com qualidade do sinal de wi-fi. O facto de ter de vir até ao exterior para falar ao telemóvel também não considera entrave, pois trata-se de uma questão estrutural do edifício que implica com a rede móvel, mas tem telefone fixo funcional.

Prova de que tudo lhe garante condições suficientes para ali viver e trabalhar, é a receção de conteúdos e materiais relativos a uma longa metragem de cinema, com um realizador macedónio. “Fazemos as reuniões todas online, ele na Macedónia, eu em Portugal, e eu tenho o filme todo comigo e estou a trabalhar no estúdio. Que foi a primeira coisa que fiz quando cheguei: montar o estúdio”, descreve, rindo-se e mostrando a importância que o som e a profissão têm na sua vida. “Isto é perfeito, melhor era impossível”, afiança.

Vamos até ao estúdio. Imaginando uma sala brutal carregada de equipamentos e apetrechos, quando na verdade “menos é mais”.

“Não é preciso muita coisa para trabalhar nesta área. O que aqui tenho chega perfeitamente”, indica, apontando para as colunas, o computador portátil e o segundo ecrã de projeção. No ecrã do portátil, o programa de edição e composição está aberto, enquanto nos mostra um dos mais recentes projetos, o tal filme com o realizador da Macedónia sobre a prostituição. É aquela a tela onde desenha o som que faz viajar os amantes da sétima arte, que produz a realidade numa simbiose perfeita com o visual.

Na calha está uma série infantil, para a qual irá compor o som para a Netflix, que conta as histórias de meias com vida própria, que se perdem do seu par.

Foto: mediotejo.net

No que toca ao teletrabalho, a realidade não lhe é estranha, porque sempre trabalhou neste registo. Trabalhando para Portugal ou para o estrangeiro, crê que há princípios elementares para o sucesso dessa forma de vida. “Eu digo isto até aos meus alunos: quanto maior a liberdade, maior a responsabilidade. Uma pessoa tem que ser altamente disciplinada e responsável”, especialmente no que toca a prazos para entrega.

“Não sou uma pessoa de rotinas, mas levanto-me sempre muito cedo. Durmo muito pouco. Estou sempre a trabalhar. Eu oiço os sons dentro da cabeça… não sei explicar, mas eu oiço-os e sei o que quero fazer quando estou a compor música ou quando estou a criar o design sonoro de um filme. Já o vi, registei a estética, o ambiente, falei com o realizador sobre o conceito pretendido. E depois é ir ouvindo os sons”, descreve, falando um pouco sobre a profissão.

“Não sou uma pessoa de rotinas, mas levanto-me sempre muito cedo. Durmo muito pouco. Estou sempre a trabalhar. Eu oiço os sons dentro da cabeça… não sei explicar, mas eu oiço-os e sei o que quero fazer quando estou a compor música ou quando estou a criar o design sonoro de um filme.

Ari de Carvalho tem noção do património gigante com que lida. “A pessoa tem que aprender a ouvir de outra maneira, não ouvimos só como espectadores, ouvimos como criadores. Porque compor som, o design sonoro, é igual a compor música. É pegar em sons e reinventarmos a realidade. Eu estou a simular e a convencer as pessoas de uma coisa que não é a realidade, mas que passa a ser real”, explica.

Como se não tivesse já tanto a que se dedicar, tantas coproduções internacionais e projetos de parceria e de autoria, entendeu que ainda havia espaço na sua agenda diária para terminar o que começou, ainda a frequentar o mestrado. Embarcou no doutoramento, na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, para finalmente o concluir. A tese já está pensada e encaminhada, com os quatro orientadores definidos, pessoas que são referência, uma delas em Oxford.

Ari, nome próprio que se crê ter derivações do hebraico e do francês, e sobre o qual se lê que significa “leão” e se associa a alguém corajoso, valente, destemido. Um nome pequenino mas forte, sonante. Espelha a determinação e liderança com que o entrevistado tomou as rédeas da sua vida, independentemente das vicissitudes, transformando-as em oportunidades.

A mudança para Envendos efetivou-se com a alteração da sede da sua produtora, que já tem a morada maçaense. Foto: mediotejo.net

No caso, a oportunidade de mudar de vida, deixando para trás a agressividade que cresce nas cidades, a sobrecarga das pessoas, do stress lisboeta. Algo de que se está a desconectar, reaprendendo a viver num novo ritmo.

Havendo saúde, os projetos são para prosseguir. Com o bom tempo virão as obras de requalificação da casa, e depois a recuperação do palheiro. No primeiro andar, mais autónomo, nascerá a residência artística, que também poderá acolher os amigos que o queiram visitar em Envendos, freguesia já na fronteira com a Beira Baixa e o Alto Alentejo.

No palheiro estarão ateliês para os artistas que queiram integrar o projeto, quando for lançado, e queiram vir inspirar-se na terra dos três A: com boas águas, bons ares e bom azeite.

Ari de Carvalho à porta da sua nova casa, em Envendos Foto: mediotejo.net

Nunca esquecendo a sua condição de saúde, Ari está determinado e crente num futuro profícuo. Acredita no renascimento do Interior, no olhar outra vez para o campo e na regeneração. Sabe que não é caso único e, ali mesmo, já ganhou dois vizinhos da frente. Há cada vez mais gente a seguir-lhe os passos, trazendo nova vida às casas que estavam fechadas ou que só eram abertas uma vez por ano.

Os vizinhos envendenses já poderão orgulhosamente comentar que, agora ali, no nº 4, já mora gente outra vez. Seja bem-vindo, Ari.

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Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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