Mação | Apicultores do concelho e Proteção Civil unidos no combate à vespa velutina

A vespa velutina chegou a Mação há cerca de 2 meses, algo que tem preocupado não só apicultores, como a autarquia e comunidade em geral. Neste sentido, a Melbandos – Cooperativa de Apicultores do Concelho de Mação, em parceria com a CM Mação, promoveram uma ação de sensibilização no Centro Cultural. Bruno Moreira, apicultor experiente, veio do Porto para dar dicas sobre um combate eficaz e em segurança, evitando riscos para a saúde pública, para a biodiversidade e para a economia local.

Largas dezenas de participantes ocuparam o auditório do Centro Cultural Elvino Pereira, no passado dia 9 de novembro, preocupados com esta invasão da vespa velutina ou asiática, na variedade europeia nigrithorax. Até ao momento, a mais vulgar no território português seria a vespa crabro, que também é fator prejudicial para as colmeias de abelhas autóctones, alimentando-se destas, mas optando pelas mais fracas.

A velutina ganha pela amplitude de propagação, tendo vindo do Norte do país, e estando a propagar-se um pouco por todo o território, já que em 2017 foram detetados ninhos em 12 distritos do país, com especial enfoque no Norte, mas com casos pontuais no Alentejo. Esta tem uma alimentação sobretudo proteica para fortalecer a sua criação, sendo predadora não só de abelhas como também de outras espécies de vespas ou outros insetos.

A vespa velutina é considerada de grandes dimensões e o corpo é castanho-escuro ou preto aveludado, delimitado por uma faixa fina amarela e um único segmento abdominal quase inteiramente amarelado alaranjado, segundo informação divulgada pelo Plano de Ação para a Vigilância e Controlo da Vespa velutina em Portugal, definido pela DGAV, INIAV e ICNF, e a ser posto em prática em parceria com as Câmaras Municipais através dos seus Serviços Municipais de Proteção Civil, bem como com a Federação Nacional de Apicultores de Portugal.

Na sessão, que contou com abertura por parte do autarca Vasco Estrela, que se mostrou empenhado em colaborar na minoração de riscos e danos pela invasão desta vespa no seu concelho, Bruno Moreira, orador convidado e apicultor membro da “Turma da Abelha”, referiu a importância de intervir, com os devidos cuidados e com fatos de proteção especiais, impedindo a picada da velutina, e preferencialmente atuar na primavera com armadilhas para as denominadas fundadoras.

“Sempre que os ninhos são importunados, geram ataques de centenas de indivíduos, sendo que as vespas velutinas chegam a perseguir o alvo por mais de 100 metros”, explicou o apicultor.

Ninho de vespa velutina trazido pelo formador Bruno Moreira para demonstração na sessão. Foto: mediotejo.net

Lembrando que foi imputada a responsabilidade aos Serviços Municipais de Proteção Civil (SMPC) das autarquias locais a identificação do ninho, do tipo de vespa e destruição dos mesmos, o orador esquematizou os procedimentos a seguir.

Após a deteção de um ninho, o indivíduo deve contactar diretamente a Câmara Municipal, que se desloca posteriormente ao local para confirmar e agenda a destruição deste, quer com uma equipa formada e especializada para o efeito, quer com o apoio dos bombeiros, uma vez que é frequente o uso do fogo para destruição dos ninhos durante a noite, através de queima e com garantia de que todos os indivíduos estão dentro do ninho.

Outra dica para erradicar o ninho desta vespa, segundo Bruno Moreira, que já enfrentou cerca de mil ninhos de velutinas, passa por utilizar uma arma de Paintball para que se possam disparar bolas de inseticida congeladas ou de inseticida em pó moldadas, e utilizando bolas de gordura animal, entre outros métodos que no norte do país já se vão praticando. Como recursos de apoio para aumentar a eficácia deste método, deve utilizar-se uma mira telescópica e um tripé robusto.

Por outro lado, o maneio e a prática da apicultura também deve sofrer algumas mudanças, utilizando outros apetrechos e protegendo de alguma forma as colmeias, nomeadamente enriquecendo-as com alimentação de manutenção proteica e energética, utilizando novos materiais apícolas e utilizando barreiras que possam dissuadir a entrada da velutina nas colmeias, por exemplo através do uso de arpas elétricas ou mesmo diminuindo a abertura colocando um entrave depois da tábua de voo que ampara o pousar das abelhas, ou o regresso e saída da colmeia.

Quanto a armadilhas que possam ajudar na prevenção e que atuam nas vespas fundadoras, Bruno Moreira falou em espalharem-se iscos, em recipientes caseiros, feitos com garrafas de 1,5 litros ou comprando recipientes já preparados para o efeito, que devem conter algo doce e álcool, pois “impede que as abelhas sejam apanhadas nas armadilhas”.

Uma das receitas leva um terço de vinho branco, um terço de cerveja branca ou preta e um terço de groselha ou néctar de pêra. A substituição dos iscos deve ser feita de 15 em 15 dias, e estes devem ser espalhados em vários pontos circundantes a áreas de apiário.

Bruno Moreira com duas armadilhas, uma de compra e outra artesanal. Foto: mediotejo.net

Rapidez de propagação exige Plano de Ação concertado evitando riscos e danos maiores

Segundo Bruno Moreira, pelo menos duas mortes, uma delas em Portugal, já foram confirmadas por picadas de vespa velutina.

“Uma picada gera desconforto, inchaço e dor prolongada”, mas se acontecer “na cabeça ou pescoço é necessário procurar ajuda”. Por outro lado, alertou o formador, quando se trata de “várias picadas e picada em pessoas alérgicas, deve procurar-se ajuda e contactar-se de imediato o 112”.

Acontece que a vespa velutina (rainha) procura instalar os seus ninhos primários ou embrionários em colmeias vazias, latas/pipos de madeira, habitações/coberturas, estruturas agrícolas e, raramente, em buracos de árvores. Já os ninhos secundários, surgem em árvores altas, postes de alta tensão, silvados, buracos no solo ou em talude e chegam a atingir 2000 indivíduos, libertando entre 150 a 200 fundadoras nesta altura do ano, que serão as rainhas do próximo ano.

O tempo de construção do ninho é “muito rápido”, sendo que uma fundadora demora “entre construir o ninho e começar a pôr ovo, cerca de 4 a 5 dias”, explicou o formador.

Em Mação, o primeiro ninho foi detetado há 2 meses e 5 ninhos já foram destruídos, nomeadamente na freguesia de Ortiga. Porém, assumiu António Louro, vice-presidente da CM Mação e responsável pelo Serviço Municipal de Proteção Civil, “neste momento o território todo do concelho já está invadido, de norte a sul”.

No sentido de minorar o impacto da presença desta espécie invasora, a Proteção Civil da Câmara de Mação está a preparar, em parceria com a cooperativa Melbandos, “uma linha de ação conjunta”, contando com os apicultores do concelho.

A ação a esta altura é crucial, pois, tal como referido por Bruno Moreira e citado por António Louro, “a presença de 5 ou 6 ninhos este ano, significa que podemos passar facilmente para a centena ou mais de ninhos para o ano, e no ano seguinte a milhares. É neste momento que tem que se fazer um esforço maior e é isso que estamos a tentar concertar entre todos”, disse, acrescentando que o SMPC está a adquirir equipamento específico para que os operadores não corram riscos num potencial ataque “significativo” durante um processo de averiguação ou destruição de ninhos.

António Louro reforçou ainda que qualquer cidadão que tenha dúvidas ou aviste um ninho “deve contactar a Câmara e a Proteção Civil, que nós vamos ao local averiguar e se se confirmar a presença da vespa velutina, iremos fazer a destruição do ninho”, explicou.

Da esquerda para a direita: António Louro (vice-presidente da CMM), Vasco Estrela (presidente da CMM) e Fernando Monteiro (presidente da cooperativa Melbandos). Foto: mediotejo.net

Em representação da Melbandos esteve Fernando Monteiro, presidente da direção e também veterinário municipal da CM Mação. O responsável não tem uma visão dramática quanto à propagação desta espécie invasora, considerando ainda assim que se trata de “uma praga que pode pôr em causa a apicultura regional e ainda por cima, estando muito espalhada pelo território, pode trazer dificuldades pelo facto de os apicultores não terem formação para se protegerem”, salientou, frisando que a apicultura é uma atividade de “grande valia, quer económica, quer ambiental, porque é responsável pela polinização e bem precisamos dela agora”, aludiu.

Fernando Monteiro deixou também um alerta, uma vez que é necessário “proteger a população” tendo em conta a maior agressividade da espécie e do veneno desta.

Para o veterinário municipal resta “envolver a população no combate e vigilância ativa dos ninhos, devendo reportar [a sua existência e localização]”. O mesmo responsável deu indicação de que irá ser dada formação “a alguns membros da Proteção Civil e apicultores da Melbandos” e a Câmara Municipal de Mação adquire “até quatro equipamentos que impedem a 100% a picada, pois a velutina tem um ferrão muito maior que a vespa autóctone”.

A prevenção está nas mãos “dos apicultores e no maneio dos seus apiários”, que devem primar por fortalecer através de uma boa alimentação que os deixe “mais fortes”.

A palavra de ordem é combate. “Vamos para a luta, destruir ninhos (…) para não formarem mais. Temos que as apanhar na altura em que vão fazer os ninhos primários para não os concluírem e diminuir os indivíduos ao máximo”, disse, em jeito de conclusão, até porque até agora “nenhum país no mundo conseguiu erradicar esta espécie” e portanto há que aprender a viver com ela e minimizar/evitar danos colaterais e riscos desnecessários.

Mais informações em http://www.iniav.pt/fotos/editor2/vespa_anexo_vi_folheto_divulgativo.pdf

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here