Mação | Ana Rita, de Aboboreira, reconhecida pela melhor tese de doutoramento em óptica e fotónica

Ana Rita Ribeiro no Centro de Fotónica Aplicada do INESC TEC

A melhor tese de doutoramento na área da óptica e da fotónica em Portugal foi atribuída a Ana Rita Ribeiro, uma jovem de 29 anos, natural de Aboboreira, concelho de Mação, que desenvolveu “uma ferramenta que abre novas portas na investigação”. A distinção, promovida pela Sociedade Portuguesa para a Investigação em Óptica e Fotónica vai ser entregue durante a conferência AOP 2019 – IV Internacional Conference on Applications in Optics and Photonics, que decorre em Lisboa, entre os dias 31 de maio e 4 de junho. A antiga estudante da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto falou ao mediotejo.net sobre o percurso que a levou até Paris.

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Quem vive no interior de Portugal teme que em breve não haja mais filhos da terra que a encha de juventude e dinamismo, próprios de quem tem no sangue a efervescência do querer e da vontade. Os sinais e as estatísticas confirmam o envelhecimento e a perda de população. Contudo, pouco haverá a fazer na fixação dos jovens talentos no interior, e até no País, se Portugal não apostar “mais e mais na ciência e no desenvolvimento. A criação de mais postos de trabalho justos, quer no sector privado quer no público, é urgente e faria com certeza a diferença”, diz ao mediotejo.net Ana Rita Ribeiro, antiga estudante da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, e que desenvolveu uma ferramenta baseada em fibras ópticas, que possibilita “retirar células e analisá-las”.

Mas Ana Rita não é natural do Porto e apesar de atualmente trabalhar numa ‘startup’ na área da biotecnologia em Paris, a 4Dcell, também não é francesa. Nasceu em terras de verde horizonte, a 27 de fevereiro de 1989, e tal como a irmã e os pais, é natural de Aboboreira, no concelho de Mação. Uma família com a qual pode contar, estendendo também aos avós esse apoio incondicional, que sempre incentivou a concretização dos sonhos de Ana Rita e “principalmente que lutássemos por eles”, conta.

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Ana Rita Ribeiro no Centro de Fotónica Aplicada do INESC TEC

Afirma ter encontrado as condições de trabalho e as oportunidades profissionais fora de portas e não pensou duas vezes embora encare “a distância” daqueles que ama como “um desafio”.

“Adoro novos desafios e explorar oportunidades diferentes”, assume, confessando existirem momentos em que se sente “mais desafiada nesse sentido”. Contudo, a ambição no prosseguimento da sua carreira profissional falou mais alto, solicitando um rumo em determinada direção “não permitida em Portugal”.

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Ana Rita Ribeiro mereceu a melhor tese de doutoramento na área da óptica e da fotónica do ano de 2017 em Portugal, distinção atribuída por desenvolver “uma ferramenta que abre novas portas na investigação”. Recebeu a notícia com “uma enorme alegria e satisfação e com o sentimento de dever cumprido”, por ver reconhecido o projeto da sua tese de doutoramento.

Explicou que a ferramenta que desenvolveu, baseada em fibras ópticas, possibilita “retirar células e analisá-las, abrindo portas para a investigação de novas doenças, ou até de doenças que já se conhecem mas que não estão aprofundadas”.

A tese, que tem como título ‘Optical fiber tools for single cell trapping and manipulation’, teve como principal objetivo criar um dispositivo que substituísse o microscópio e onde fosse possível imobilizar as células tempo suficiente para conseguir identificar as suas características.

Ana Rita Ribeiro durante a conferência Photonics West em São Francisco, nos Estados Unidos, em 2015

O projeto envolveu “o desenvolvimento de dispositivos ópticos baseados em fibras ópticas (como as utilizadas nas telecomunicações, para levar internet a todos nós) que permitem imobilizar e manipular células através do uso da luz, e que são conhecidos como pinças óticas (optical tweezers). Estes podem ser aplicados na área da biomedicina na investigação de doenças como o cancro, alzheimer, etc”, concretizou.

A luz que é guiada através da fibra ótica “tem a capacidade de exercer uma força sobre objetos de dimensões muito pequenas (como as células do nosso corpo), que permite imobiliza-las de forma a que outros dados possam ser recolhidos sobre as mesmas (consegue-se diferenciar por exemplo uma célula cancerosa de uma célula saudável através da luz que esta reflete e é coletada de novo pela fibra)”, explica Ana Rita.

Na realidade, a possibilidade de desenvolver estes dispositivos para aplicações biomédicas surgiu ainda durante a a sua tese de mestrado em 2012. Na época a investigadora desenvolvia um dispositivo óptico para estudar glóbulos vermelhos infetados com malária. No entanto, “deparámo-nos com algumas limitações, por exemplo, como seria possível imobilizar individualmente glóbulos vermelhos para poder adquirir informação relativamente ao seu estado de infeção com malária”, disse.

Ana Rita Ribeiro frequentou a pré-escola e a escola primária na Aboboreira. Depois, desde o 5º ano até o 12º, estudou em Mação. Em 2007 entrou para Física, na Universidade do Porto, onde acabou também por fazer o mestrado e o doutoramento (igualmente em Física).

Ana Rita num conferência em Baku, no Azerbaijão

Na verdade, em criança tinha uma curiosidade enorme por astronomia. E ainda tentou seguir esse caminho dentro da licenciatura em Física. Quis o destino (ou mostrou-lhe a vocação) que no segundo ano da licenciatura entrasse para um estágio no Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC) e se apaixonasse pela área dos dispositivos baseados em fibra óptica, tópico em que trabalhou até ao final do seu doutoramento.

Quando concluiu a tese de doutoramento decidiu que “queria trabalhar numa empresa para que de facto pudesse ver ideias transformadas em produtos a que outros tenham acesso”, refere. Determinada, candidatou-se a um lugar no departamento de desenvolvimento de produto da empresa 4Dcell, em Paris, e teve sucesso.

A empresa “trabalha no desenvolvimento de dispositivos biofísicos que permitem testar novos medicamentos, onde estou responsável pela parte de desenvolvimento destes dispositivos”, afirma, manifestando-se “bastante satisfeita” com a posição que tem e com o trabalho que faz. “No futuro talvez gostasse de trabalhar numa outra empresa, mas mais na área da óptica, uma vez que foi nessa área da Física que me especializei”, revela.

Esta distinção, para além de ser o “reconhecimento do esforço e trabalho de quatro anos”, é também sinónimo de “continuidade”. No fundo, “saber que o que desenvolvi é importante para a comunidade científica deixa-me muito grata. Alem disso, é também gratificante saber que há pessoas, todos os dias, no laboratório a dar continuidade ao trabalho que fiz”, acrescentou.

No laboratório do INESC TEC, segundo a investigadora, duas colegas estão a melhorar a ferramenta, a otimizá-la e a aplicá-la na diferenciação de células tumorais e células normais que circulam na corrente sanguínea, o que pode contribuir para o diagnóstico de doenças como o cancro, mas também doenças neurodegenerativas.

“É claro que gostava de poder trabalhar em Portugal, no entanto não existem oportunidades suficientes! Embora goste muito da zona centro, e em particular da Aboboreira, sempre tive noção que, tendo em conta a área que escolhi, seria bastante difícil trabalhar na região e tive sempre a ambição de explorar novos desafios!” confessa.

Ana Rita Ribeiro, de Aboboreira, Mação

Na diáspora, Ana Rita diz ter-se adaptado “relativamente bem” a Paris. E se reconhece à cidade encanto e beleza não gosta particularmente da azáfama diária, e isso provoca-lhe “muitas saudades da calma da Aboboreira”. Por outro lado, e como boa portuguesa que é, quando está em Paris afirma ter “muitas saudades da comida portuguesa”.

Acaba por ter alguma sorte, no que toca a matar saudades, uma vez que a empresa permite-lhe trabalhar remotamente, o que faz com que passe algum tempo no Porto, e visite com frequência a Aboboreira e aproveite os tempos livres para andar de bicicleta ou ler, a par de outras ocupações preferidas como a prática do yoga ou viajar.

Ana Rita acredita estar “nas mãos de cada um lutar pelos seus objetivos. Sempre tive de me esforçar bastante para conseguir atingir os meus, mas sempre contei com um apoio muito grande dos meus pais e restante família neste sentido. Sem eles não teria sido possível”, garante.

Quanto ao futuro? Reconhece “uma revolução extraordinária na ciência” nas últimas décadas, mas “ainda há muito a fazer”. Do seu ponto de vista, “o futuro passa por investigadores de áreas diferentes trabalharem em conjunto. Julgo que há muito mais a ganhar quando as várias áreas da ciência se cruzam”.

A distinção, promovida pela Sociedade Portuguesa para a Investigação em Óptica e Fotónica vai ser entregue durante a conferência AOP 2019 – IV Internacional Conference on Applications in Optics and Photonics, que decorre em Lisboa, entre os dias 31 de maio e 4 de junho de 2019.

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