“Lolita”, por Armando Fernandes

É Vladimir Nabokov um dos escritores e professor de literatura que mais admiro, que maior respeito me merece, que me esclarece sobre quão difícil é escrever de modo a oferecer ao leitor total e profunda visão do nosso Mundo, sonhado, pensado, concebido, vivido, tudo plasmado em palavras capazes de suscitarem o interesse de quem as lê.

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O genial dissecador dos livros de outros dotados de qualidade suficiente para lhe suscitarem desejo de os ler, o formidável criador literário e entomologista renomado ensinou-me a perceber a América, os Estados Unidos.

No ano de 1982, fui passar três semanas a uma pequena cidade da periferia de Boston, de uns 80.000 habitantes, Tauton assim se denomina. Na pasta o famoso romance de Nabokov, Lolita dado à estampa em 1955. Olhar os largos espaços, as estradas municipais bem alcatroadas, o entrelaçar de autoestradas e os seus motéis, hotéis, restaurantes, as grandes superfícies inçadas de tudo a preços baixos na comparação com o nosso País em trabalhos de integração europeia, verificar o cuidado dos automobilistas nos cruzamentos, fora deles quando se aproximavam crianças ou uma mulher grávida, e observar as pessoas aqui e ali levaram-me a à noite reler páginas do fascinante romance.

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Desde então já voltei à América mais de quarenta vezes, no entanto, nunca esqueço os detalhes singulares registados em Lolita, seja no entender distanciamentos envolvidos em saudações automáticas, seja no perceber as diferenças entre as cidades-metrópole e as cidadezinhas grávidas de hipocrisia, inveja, ciúmes, transgressões, rivalidades, boas acções, numa mistura de raças, credos e gerações.

Durante anos gastava os dias na América no seio da comunidade portuguesa presa a atavismos de cá a irritarem os netos e bisnetos nascidos e integrados na sociedade americana ao modo dos peixes na água, relapsos a falarem português, muito menos a escreverem na nossa língua, apenas atraídos por alguns comeres da nossa herança cultural, longe de manejarem o garfo e a faca ao mesmo tempo, cada utensílio em cada mão.

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A comida rápida, sempre feita, sempre temperada ao gosto dominado pelas multinacionais dos condimentos, sempre apta a ser servida a qualquer hora, é cativante, os dentes não encontram dificuldades na sua penetração, o gosto suave e adocicado leva à habituação, o desejo é saciado num crescendo de gozo palatal. O Elvis das canções tomava laxantes a fim de poder mastigar mais vezes durante o dia. Acabou como acabou. Lembram-se?

Felizmente a América culinária, não é apenas o fast-food, o celebrado Roland Barthes, escreveu penetrante ensaio referente às gastronomias nas terras do Tio Sam, é também o conjunto generalizado das referências comestíveis de todos quantos demandaram aquelas paragens, desde os puritanos ingleses aos refugiados de agora, sem esquecer os nativos de lá, os índios reduzidos a representações folclóricas de vários tons e sons.

Lá a sofisticada cozinha francesa é confrontada com a não menos intrincada e delicada alta-cozinha chinesa, a japonesa, a russa, a vietnamita, a escandinava. No patamar das expressões populares o confronto é enorme, para todos os gostos, todos os paladares: tacos mexicanos, ceviches peruanos, feijoadas brasileiras, carne braseada ao estilo argentino ou uruguaio, pratos quentes, quase sufocantes, tailandeses, indianos, paquistaneses, indonésios, tapas espanholas além das omnipresentes pizas e pastas. E comeres portugueses?

Várias experiências em restaurantes de essência portuguesa redundaram na maioria das vezes em más provas, irritantes, quando tecia e teço hossanas às pitanças portuguesas. É uma constatação: não temos um prato de cunho global.

Um importante estudo de conceituada investigadora americana apenas inclui a receita de bacalhau à Gomes de Sá na sua restrita lista de recomendações. Sina nossa!

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No domingo passado comemorou-se o 15.º aniversário da tragédia de Nova Iorque, dentro de seis semanas realizam-se as eleições presidenciais. A América país de gritantes contrastes não esquece a sua História, a democracia segue bem viva.

Lolita vale a leitura, experimentar preparos culinários para além dos hambúrgueres e cachorros também, aventure-se o leitor, verificará a variedade existente. Nos vinhos o panorama diversificado é igual.

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