Logística | AHBVA serviu 6 mil refeições durante o incêndio de Abrantes

Num total de seis mil refeições servidas e 18 mil reforços entregues aos operacionais no terreno, durante os sete dias de incêndio no concelho de Abrantes, a equipa de logística da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários possui, apesar do cansaço e das poucas horas de sono que o combate exigiu, um espírito de missão cumprida. O mediotejo.net foi saber como tudo se processou nos bastidores.

PUB

No Posto de Comando Operacional (POC) instalado em Carvalhal, no concelho de Abrantes, todo o plano estratégico de acção foi desenhado para combater um incêndio que esteve no terreno durante sete dias. Os agentes da Protecção Civil reuniam-se e iam ajustando o dispositivo combatente na frente de batalha, em função da evolução do incêndio e da sua velocidade.

Mas não estavam sozinhos. Ao lado trabalhava uma equipa de 25 elementos, separada em dois grupos, um no quartel dos bombeiros e outro no posto de comando, para que na hora da “ração de combate” adaptada ao esforço dos soldados da paz, tudo estivesse operacional.

PUB

Tal como os incêndios florestais precisam de combustível para se desenvolverem, também os bombeiros necessitam alimentar-se para os combater. E essa necessidade foi assegurada como prioridade por essa equipa que, articulada, foi responsável pelo fornecimento, em sete dias, de seis mil refeições – pequeno-almoço, almoço e jantar – e ainda 18 mil reforços – lanche diurno e nocturno – composto por sandes, fruta, sumos e barritas de cereais, que no incêndio de Abrantes foram ensacados pelos escuteiros em missão de voluntariado.

“Estiveram a produzir sandes em massa”, disse ao mediotejo.net, em tom de riso, o presidente da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Abrantes (AHBVA), João Furtado, ao mesmo tempo que enaltece o desempenho “muito interessante, quase profissional”.

PUB

Os escuteiros no corpo de bombeiros em missão de voluntariado

Além dos escuteiros, colaboraram elementos da direcção, funcionários e voluntários, apoiados por quatro viaturas. Recorde-se que na estrutura organizacional, os agentes de protecção civil são sete: Bombeiros, GNR, PSP, INEM, Sapadores Florestais, Polícia Judiciária e Militares. Como apoio: a Cruz Vermelha Portuguesa, Caritas Portuguesa, Escuteiros e Escoteiros, Radioamadores e todos os cidadãos.

São estas pessoas que asseguram “as compras, a confecção e distribuição de alimentação, a distribuição de combustível e até a manutenção dos veículos”, contou.

Para tal estabeleceram-se acordos com quatro restaurantes do concelho – A Paragem do Motorista, A Lareira, Aquapolis, Paurui –, que na exigência da resposta adequada e na do curto espaço temporal para cozinhar refeições às centenas, socorreram-se da família ou contrataram funcionários, alguns só para o embalamento das mesmas.

Hora de almoço no posto de comando para uma das equipas de operacionais no incêndio de Abrantes

Diariamente, já a pensar no almoço, a correria começava cerca das 9h00. Tentava-se apurar junto do comando quantos operacionais estavam naquele dia no terreno. “É complicado conseguir o número exacto antes das 10h30, para depois comunicar aos restaurantes e saber quantas refeições têm capacidade de confeccionar para entrega às 13h00” explica Gisela Oliveira, responsável pela comunicação da AHBVA.

Depois era necessário ir buscar os almoços ou jantares, alguns chegavam embalados em caixas plásticas outros em tachos e panelas. Todos os dias, os almoços começavam cerca das 13h00 e podiam prolongar-se até às 18h00 com as equipas dos diversos sectores a alimentarem-se a diferentes horas. Logo às 20h00 iniciava a hora de jantar que nas noites mais complicadas terminava madrugada dentro.

Nesta equação de compras, confecção e distribuição, contaram com a “total disponibilidade 24 horas por dia” do Intermarché de Alferrarede, como interlocutor privilegiado. “Tem uma postura relativamente aos bombeiros fora do vulgar. Abre o supermercado para trabalhar para nós”, garante o presidente.

“Chegámos a fazer pedidos de madrugada para o pequeno-almoço às 07h00 e foram sempre atendidos” reforça Gisela. Além disso o supermercado forneceu pão (em média 2 mil por dia), carnes frias (750 fatias por dia), sumos, águas e fruta (por dia chegaram a ser 11 kg de pêssegos, 11 kg de maçãs, 11 kg de laranjas e 11 kg de bananas entre outras numa média de 90 quilogramas), e também frangos assados.

O presidente João Furtado (ao meio) com João Maçãs, José Carlos Silva, Gisela Oliveira e Orlando Marchão

Neste incêndio, na adrenalina do movimento no sentido de assegurar celeridade e rapidez, serviram, no pico máximo do mapa de distribuição, mais de 800 refeições. No primeiro dia de fogo (quarta-feira dia 9 de Agosto) 600 jantares. Não é fácil, mas vale o planeamento e alguns anos de experiência.

“É fundamental percebermos sempre que exista uma ocorrência, nossa ou de outros, como é que se faz e as melhores soluções. Tentamos ao longo do ano preparar o planeamento para ter alguma preparação prévia”, explica João Furtado.

Por outro lado há um problema, “não se sabe quando acontece, onde e como, nem o número de dias. Há que todos os dias reinventar aquilo que estava planeado”, acrescenta.

A certa altura a imaginação para o menu já não dependia apenas das necessidades calóricas de um repasto próprio de bombeiro, mas muito do stock disponível nos restaurantes e nos supermercados do concelho. As refeições durante estes sete dias passaram sempre por pratos ditos com substância como por exemplo meia-desfeita de bacalhau, sopa da pedra ou carnes grelhadas com arroz, alimentos ricos em hidratos de carbono.

E apesar da complexidade da operação, João Furtado assegurou que a articulação “correu muito bem” não descartando existirem “aspectos a melhorar”. Segundo o presidente, a localização do posto de comando em Carvalhal “proporcionou boas condições para a logística”, garantindo assim “um desempenho muito bom”. O POC, de acordo com as directrizes da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC), deverá ser colocado no ponto mais alto, mais próximo do incêndio desde que em segurança.

A não existir capacidade de resposta? “Teríamos de falar com quem de direito para eventualmente ser activado o Plano Municipal de Emergência”, diz. No caso da logística, o que está definido, tendo início a ocorrência no concelho, a gestão pertence na totalidade à AHBVA desde a execução ao financiamento. Durante a fase Charlie “se for bem gerido conseguimos reaver grande parte dos custos” pagos pela Autoridade Nacional de Protecção Civil, com cada refeição principal, de cada um dos operacionais envolvidos, a não poder ultrapassar o valor de sete euros. “Os funcionários da Associação e os voluntários não estão envolvidos”, esclarece.

A plataforma logística recebeu ainda doações solidárias, com os populares a entregar garrafas de água, bolachas ou conservas no posto de comando ou no quartel. “Temos uma estrutura que nos permite, em conjunto com a Câmara Municipal, gerir as nossas necessidades”. No entanto, esse apoio é “fundamental” considera João Furtado, dando o exemplo das toneladas de garrafas de água empilhadas mesmo à nossa frente enquanto conversávamos. “Permitiu que tivéssemos o problema das águas resolvido durante todos estes dias”.

A questão está longe de ser apenas financeira, explica o presidente. “Se fossemos nós a comprar poderíamos esgotar a água de um supermercado como aconteceu no ano passado com as maçãs. Nessa altura pediu-se no Facebook” e duas empresas ofereceram uma tonelada de maçãs cada uma. Este ano pediu-se uma carrinha de frio que esteve durante o incêndio no quartel. “As ajudas de voluntários são determinantes para o sucesso da operação. Isto sem voluntários custava muito dinheiro. É a vantagem de uma estrutura de uma associação humanitária, o que não significa que não tenhamos profissionalismo”, refere. Até porque é cultivado nos profissionais o espírito do voluntariado.

Em Portugal, segundo dados do Recenseamento Nacional de Bombeiros Portugueses de 2017, existem cerca de 66 mil bombeiros, na sua maioria do sexo masculino e na faixa etária 31-50 anos.

PUB
Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).