Livros | “Singularidades de uma mulher de 40” (pré-publicação)

“Singularidades de uma mulher de 40” marca a estreia na ficção da jornalista Elsa Ribeiro Gonçalves, 46 anos, natural de Tomar. O romance, editado pela Origami Livros (chancela nacional da Médio Tejo Edições), será apresentado a 26 de maio, às 18h, na Feira do Livro de Lisboa.

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Este é um daqueles livros que se leem vorazmente, em poucas horas, escondendo sobre uma aparente simplicidade um acutilante olhar sobre a condição feminina, sobre os sonhos que se adiam ou arrumam na gaveta – porque é preciso trabalhar para pagar as contas, porque é preciso estar em casa para ver crescer os filhos.

Ouvindo os pensamentos de Maria Helena, uma mulher que passa longos turnos a cortar fiambre num supermercado, ouvimos também as inquietações de quase todas as mulheres que, por uma ou outra razão, foram perdendo a sua auto-estima e colocando as necessidades dos outros à frente das suas.

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Até ao dia em que… bom, para saber mais, terá mesmo que ler o livro. E pode começá-lo já aqui: em pré-publicação para os leitores do mediotejo.net, revelamos as três primeiras páginas.

Singularidades de uma mulher de 40,
de Elsa Ribeiro Gonçalves (Origami Livros)

– 1 –

Suspirou duas vezes e voltou a pegar na lâmina para cortar mais 250 g de fiambre. Bem aviado, pedia a cliente num tom soberbo. Mais uma daquelas suburbanas enfadonhas que se sentem as rainhas do supermercado. O dia estava particularmente difícil, pesado. Mas onde é que ela tinha errado? Até não era feia e o corpo roliço deixava muitos homens loucos de desejo.
Perguntou se a espessura estava boa. Era a centésima vez que o fazia naquele pesaroso turno de oito horas. O Mário. Devia ter casado com o Mário. Hoje estava a trabalhar no escritório do pai dele. Ora se estava.
Não entendia onde tinha errado. Seguira todos os conselhos dos pais. Andou na catequese e até foi madrinha de crisma. Para ali, perto dos 40, se encontrar redonda, a cheirar a gordura. De manhã deixou o frango a descongelar para o jantar. Talvez abrisse aquela garrafa de vinho.

Se os miúdos dormissem cedo ainda conseguia ler aquele livro que me ofereceram no Natal. Ah, tenho a roupa para passar. Porra. Mas nunca mais é sexta? Ui, esquece Maria Helena… tu trabalhas por turnos. Onde é que eu errei? Segui tudo o que me disseram…

– 2 –

Chegou a casa já passavam das nove da noite. Estava cansada, muito cansada. Como sempre. Especialmente cansada dos seus dias serem todos iguais. Cópias repetidas a papel químico. A preto e branco. Pôs o frango no forno e foi tomar duche.
Ai! As saudades que tinha de um longo e relaxante banho de imersão. Daqueles com muita espuma macia e perfumada. Os filhos, com 7 e 11 anos, estavam a fazer os trabalhos de casa.

Porque é que fui ter dois? Logo quando estava quase a recuperar a minha liberdade, voltou tudo à estaca zero. Ainda me tentei matricular no curso, mas as fraldas e os biberões… E gosto tanto deles.

Pensou como era triste que os filhos fossem a sua razão de viver. Ela sim, devia ser a sua razão de viver. Mas não. Não era. Fechou os olhos e ficou quieta, a sentir a água quente a cair sobre o seu corpo, levando também as lágrimas que caiam pela sua face.

– 3 –

Três camisas, dois pares de calças e duas camisolas depois arrumou a tábua de passar e sentou-se no sofá. Precisava de ir dar um jeito às sobrancelhas mas estava sem um pingo de energia. Tinha tempo para tudo menos para o mais importante: ela própria. Mas onde foi desencantar a ideia de que os outros estavam sempre em primeiro lugar? Tinha crescido com essa crença de tal forma enraizada que acabou sempre por tomar decisões com base no que os outros esperavam de si.
Que burra. Como fui cair neste emaranhado onde já nem sei bem o que sou? Onde foi que me perdi?

Os filhos já estavam a dormir e olhou para o livro que lhe ofereceram no Natal, um embrulho-mistério que permanecia em cima da mesa da sala. Não, ainda não era hoje que lhe pegava. Amanhã tinha que acordar cedo para trabalhar. Deitou-se. Era o seu momento preferido do dia, aquele em que fechava os olhos na almofada. Nunca sabia o que os sonhos lhe podiam dar nessa noite. Talvez sonhasse com o Mário.

– 4 –

O despertador tocou pesaroso como todos os dias e ela abriu os olhos lentamente. O marido já tinha saído. Maria Helena não se lembrava sequer de ter sonhado. Despachou as crianças para a escola e vestiu a primeira roupa que encontrou. No trabalho usa bata, por isso tanto faz. De que lhe vale tentar ficar bonita?
Lavou os dentes, aplicou o creme anti-rugas que lhe custou os olhos da cara, na farmácia. Não quer cá dos outros que estragam a pele. Bebeu o café aos golos, ganhando coragem para se ir enfiar atrás de um balcão frigorífico durante oito ou mais horas, a cortar fiambre às fatias. Que raio de ideia lhe meteram na cabeça. Que era uma boa proposta, segura e perto de casa. Já ali estava há quase dez anos. Os maravilhosos 30 escondidos atrás de um balcão de supermercado. O comboio a andar e ela a perder a viagem. Cabeleireira ou esteticista. Era isso que queria ser. Mas sempre lhe disseram que era difícil, que não teria muito jeito. E ela acreditou.

Porra, mas eu mereço mais do que isto até a reforma. É hoje. É hoje que me vou despedir. Basta. Vou falar com o patrão e nem digo nada a ninguém. Faço-o e pronto. Estás louca ou quê, Maria Helena?! Então e como é que arranjas comida para os filhos? Como é que pagas o carro e a casa? E o que que os outros vão dizer rapariga? Endoidaste de vez?

Abotoou a bata branca e simulou um sorriso. Mas não havia como disfarçar a tristeza dos seus olhos apagados.

– 5 –

Durante o dia olhava para o relógio vezes sem fim, tentando que as colegas não se apercebessem que o fazia. As conversas por ali variavam entre o tempo, a novela e, claro, as gracinhas dos filhos. Sentia-se numa prisão sem grades, todo o dia o mesmo campo visual, entre alimentos enlatados e alimentos processados. Credo. Que tédio. Aquilo dava-lhe a volta ao estômago. Nos momentos de menor fluxo de clientes dedicava-se a repor o stock ou a atualizar as etiquetas dos preços. A Ermelinda é que a sabia toda, metida com o chefe de turno.

Ela é que a leva bem. Sai quando quer e lhe apetece. Mas eu sou uma mulher séria, oh se sou. Saio do trabalho vou para casa, e de casa vou para o trabalho. Todos os dias. Não vou cá em cantigas, que o Carlos é muito bom homem e um bom pai.

Casou com ele aos 27, poucos meses depois de sofrer um grande desgosto de amor. O Mário andava indeciso e ela estava a fazer-se velha.

Claro, eu tenho é que gostar de quem gosta de mim. Já me cansava viver em casa dos pais, as tias todas no Natal a perguntar ‘quando é que te casas, quando é que te casas?’. Fomos de lua de mel ao Gerês e depois começou a vida. Fui feliz, pois fui, já lá vai o tempo. Agora é que já não mas, na verdade, ninguém é sempre feliz. Ou é?

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