“Línguas de gato”, por Armando Fernandes

Espalmadas quanto uma folha de papel acabada de retirar da resma. Chatas não por serem aborrecidas ou enfadonhas (antes pelo contrário), rasas sim, arredondadas, que tanto podem ser açucaradas e cobertas com guloseimas, como desprovidas de açúcares levando a massa, apenas a massa, apenas manteiga, de forma a ficarem macias quanto a pele acetinada de donzela medieval protegida dos raios solares, ventos, trovões e chuviscos de vária ordem.

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Gosto de línguas de gato (a delícia originou alusões maliciosas inseridas em obras literárias e artísticas) porque podem ser sustentáculo de conversas pífias sem ponta de afagos lambidos em pensamento, ou interesse. No entanto, a leve untuosidade das línguas de gato tornam o obrigatório palrar (noblesse oblige) num divertido solilóquio onde quem desveladamente as confeccionou e as ofereceu acompanhadas por licor de laranja.

Esfusiantes, as línguas retiradas de uma lata dourada (onde se conservam muito) tornaram a rememoração menos enfadonha e, na despedida, ficou o desejo de saborear as restantes.

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Escuso-me de referir outras virtudes das finas e delicadas línguas, no entanto, atrevo-me a sugerir a quem lê esta crónica colocar num pires as tentadoras e noutro a fazer-lhe companhia natas ou iogurte. Depois, qual gato lambareiro, molhar ligeiramente cada língua no segundo pires e preguiçosamente mastigar, mastigar até roçar a ponta dos dedos. O resultado final é desfrutar a iguaria até à saciedade.

Há quem aprecie as línguas em combinação com salada de frutas, a fruição será tão donairosa como a antecedente. Poderá subir em exaltação sensorial se, em todas as experimentações, substituir o licor por champanhe ou um bom espumante.

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Não vou citar (ao contrário do que costumo fazer) livros nos quais os autores e autoras domesticam as palavras de modo a estas explanarem demorada e languidamente referirem as bênçãos recebidas na sequência das experimentações, sim, porque o prazer é físico e sensorial. Não estou a exagerar, estou apenas a suspirar porque a pandemia obriga-me a atacar o tédio da reclusão a lembrar-me de aventurosas reuniões de trabalho nas quais as delicadas línguas de gato me faziam exclamar: a vida é bela, nós é que damos cabo dela!

Agora, escrevo acerca de saudades do passado sem máscaras agrilhoadoras, sem luvas pegajosas, sem temor e tremor ante vírus de origem desconhecida. Com línguas…

Apetece relembrar E não se pode exterminar! Do corrosivo Karl Valentim. Exterminar o vírus, entenda-se bem.

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