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Domingo, Agosto 1, 2021

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“Lentilha”, por Armando Fernandes

Leguminosa seca (este ano é dedicado às leguminosas) cultivada desde há milhares de anos será originária da Ásia Central. Antes da chegada da batata e do milho a par dos grão-de-bico e do feijão-frade elemento preponderante na alimentação dos pobres em Portugal.

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Actualmente, por cá é pouco considerada estando na obscuridade na maior parte das regiões, a razão primacial residirá no facto de as transformações alimentares terem contribuído para o seu afastamento, também porque nunca logrou a popularidade de outros grãos a começar pelos feijões. E, no entanto, no Canadá (o maior produtor mundial), na Índia, na Turquia, nos Estados Unidos e Austrália logra valimento de tomo, integrando grande número de receitas daqueles países.

Rica em glúcidos só é comestível depois de cozida previamente colocada de molho, há quem as coza sem a demolha e considere ser esta a melhor forma de as cozinhar. A diferença de opinião referente a põe de molho, não põe de molho, escora-se no antes e depois do aparecimento de utensílios e artefactos de cozinha capazes de prepararem os alimentos em menos tempo e satisfatoriamente.

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O progresso técnico inventou a panela de pressão e eis a dispensa da demolha irritando os puristas a amigos de demoradas cozeduras, pensemos nas feijoadas, nas tripas, nos cozidos daqui e dali, à portuguesa, à madrilena, à catalã, à maragato e tutti-quanti.

Entram em molhos de acompanhamento de carnes cozidas, secas e salgadas, fazem sopas, papas, purés e depois de moídas a farinha é utilizada na composição de bolos de vários géneros.

A lentilha referida na Bíblia pois está associada a uma querela a persistir até aos nosso dias. Com efeito, Esaú, filho de Isaac e irmão de Jacob, vendeu a primogenitura por um prato de lentilhas. Amado por seu pai, o irmão detinha as preferências da mãe Rebeca. Esaú em hebraico peludo, distinguiu-se como intrépido e astucioso caçador, um dia vindo extenuado e faminto de uma jornada cinegética, não hesitou em ceder o direito a ser o primeiro tomando para si o preparado de lentilhas que Jacob se preparava para comer.

Os estudiosos do livro sagrado sabem qual o resultado da degustação, Esaú saciado entendeu dar o dito por não dito e o conflito continua.

As lentilhas sendo alimento das gentes pobres disseminou-se, os romanos importavam enormes quantidades do Egipto, faziam parte da «ração» de apaziguamento centrada na célebre expressão «pão e circo» que nos tempos de agora aplicamos quando queremos explicar o desbaratar de dinheiros públicos.

Pessoalmente gosto de apreciar lentilhas, defendo a sua inclusão nas ementas dos restaurantes e casas de comeres, as possibilidades de enriquecerem preparações culinárias de várias tonalidades são tantas quantas detêm os feijões, tendo o condão de quebrarem a monotonia, neste pormenor outros legumes frescos e secos estão à espera de serem escolhidos para o efeito.

Não entra nesta crónica a análise das ementas da maioria dos restaurantes portugueses, de qualquer forma, atrevo-me a escrever quão tristonhas, teimosas e tacanhas se mostram e desenvolvem.

  

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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