Quinta-feira, Março 4, 2021
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“Lentilha”, por Armando Fernandes

Em época carnavalesca, em plena clausura pandémica, no fio da navalha do medo, a única escapatória é procurarmos afagos palatais dos comeres vigorosos se possível vindos ou derivados das cozinhas tradicionais. Ora, um legume milenar originário da Ásia Central, carregado de simbolismo religioso e referente a direitos hereditários no seio das sociedades antigas que vieram a ser consolidados na civilização ocidental é a ervilha.

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A expressão por um prato de lentilhas remete-nos para a Bíblia num episódio onde podemos verificar a diferença entre a sedentarização e o nomadismo, para além da sua preparação culinária. Os estultos tendem a ignorar a fulcral importância alimentar no progresso civilizatório pois a falência da cadeia alimentar conduz ao pauperismo, à morte.

A lentilha, leguminosa verde ou seca, loura ou castanha, desempenhava um papel crucial no plano alimentar dos pobres e pobres de pedir seja no tocante a sopas, prato principal, saladas, espúrias finalizações de refeições, para lá de acompanhar as refeições de untar a barbela, prioritariamente, carnes e enchidos de natureza porcina.

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Os produtos «de comer» vindos do Novo Mundo (milho maís, batatas, feijões, etc.) provocaram algum afastamento da lentilha no tocante à construção da dieta quotidiana dos portugueses, no entanto, noutras cozinhas (especialmente nas mediterrânicas, asiáticas e da diáspora muçulmana) a lentilha é muito utilizada não só pelo seu valor calórico e vitamínico, também por ser polivalente no tocante à representação gastronómica.

O puré de lentilhas, a salada quente de lentilhas, a salada de lentilhas com presunto, com salpicão ou chouriça de carne e o pudim de lentilhas são exemplos da referida polivalência.

Bom Entrudo consubstanciado em bons comeres, são os meus votos para os leitores neste tempo de Purgatório diário sem sabermos quando acaba.

PS. A referência ao Purgatório é a lembrar Dante e quanto a sua leitura pode ajudar a gastar o tempo de cárcere no domicílio.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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