“Lembrar uma cidadania ativa em prol do ambiente”, por José Alho

” O mundo é um lugar perigoso para se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer “

Albert Einstein

 

Na noite de 13 de Janeiro de 1990 o salão da sede da antiga Cooperativa Agrícola de Ourém (onde hoje está instalada a PSP) encheu de assistentes para ouvir uma palestra proferida pelo Eng.º Pedro Cortes sobre a Ecologia da Ribeira de Seiça e Agroal.

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Essa conferência foi o momento formal do início de uma ação de intervenção cívica que irradiou de Ourém para a região do “Ribatejo e Estremadura “e colocou de forma intensa na agenda política as questões da defesa do ambiente e do património.

Foi o momento simbolicamente fundador do núcleo da Quercus em Ourém e o arranque do seu trabalho relevante e contínuo em prol do ambiente e da sustentabilidade na nossa região.

A passagem de mais um aniversário é motivo para partilhar sentimentos e palavras que revisito.

O sucesso da Quercus resultou de uma coesão muito sólida entre os diversos elementos da sua equipa diretiva e colaboradores, aliada a uma complementaridade de competências técnicas que lhe granjearam credibilidade e o estatuto de parceiro social para a sua área de intervenção.

A partir da amizade e cumplicidade de um conjunto de jovens ativistas pelo ambiente foi possível construir um movimento solidário e irreverente, que na altura projetou na região uma perspetiva diferente de ver e pensar o mundo circundante.

O aparecimento desta organização em Ourém foi uma “pedrada no charco” que motivou uma atitude inicial de desconfiança dos atores políticos convencionais, um percalço cívico a que a comunidade não estava habituada, mas que rapidamente foi reconhecida em resultado da seriedade do trabalho desenvolvido e do seu espírito de entrega.

A Ribeira de Seiça e o Agroal com a sua lampreia de riacho, as lontras, os bufos reais, as orquídeas e carvalhos e outras joias naturais permitiram entender problemas ambientais graves, que passavam tão despercebidos perante a indiferença a essas riquezas naturais tão espetaculares e que, talvez por tão próximas, não mereciam a atenção das pessoas.

A partir desses valores ambientais construiu-se uma corrente de cidadania ambiental ativa que passou a barreira de uma geração e hoje continua bem presente nos novos ativistas, com novas linguagens e atitudes e novas organizações.

A ação desse núcleo regional marcou de forma determinante para o futuro a salvaguarda do património natural e cultural, a resolução do problema dos resíduos e das lixeiras, o estado dos recursos hídricos e deu contributo importante para a criação do direito à não-caça e implementação do turismo de natureza.

A educação ambiental desenvolvida por toda a região, em sessões nas escolas, nos campos de férias no Agroal, nos vídeos-educativos e nas inúmeras publicações, exposições, jornadas e debates públicos, constitui um legado de entrega à causa da sustentabilidade de importância fundamental dirigida ao nosso futuro comum!

Olhando para trás para a nossa agenda, à época, temos de ficar satisfeitos pela erradicação das lixeiras a céu aberto, para o avanço significativo na recolha seletiva e tratamento de resíduos, para as melhorias graduais na qualidade dos recursos hídricos, pela dinâmica da educação ambiental nas escolas e autarquias, pela classificação de valores patrimoniais relevantes e pela integração do tema ambiente nas agendas politicas locais, entre outros avanços que consideramos civilizacionais.

É com enorme satisfação que vemos esse esforço compensado na classificação das Pegadas de Dinossáurios como área protegida e o Agroal e Ribeira de Seiça integrados na Rede Europeia Natura2000 no designado sítio Sicó-Alvaiázere.

Muito está ainda por resolver, mas o caminho trilhado foi interessante pelos resultados já alcançados.

É preciso consolidar este novo paradigma de afirmação de novos valores ambientais, nas atitudes, na procura de convergência de perspetivas diversas entre a ciência, os recursos naturais, as dinâmicas sociais e económicas, a participação dos cidadãos e as organizações em redor do desenvolvimento sustentável.

Este espírito, revigorado, todos os dias, em novos equilíbrios e reencontros, permite-nos continuar a acreditar na inteligência, na vontade dos Homens e na importância da cidadania.

A Quercus nesta região, tal como no País, foi responsável por afirmar a importância dos valores do ambiente e do desenvolvimento sustentável promovendo uma grande sensibilização e informação dos cidadãos comuns relativamente a estas questões.

É contudo urgente manter e pôr em prática ações concretas que visem a salvaguarda desses valores enfrentando os novos problemas, mas também os novos desafios que se colocam na região e no Planeta, pois as razões para a mobilização mantêm-se e renovam-se como por exemplo em torno das alterações climáticas à escala global ou do rio Tejo numa perspetiva mais regional.

Registo este bom exemplo que foi dado na participação pública séria e no contributo para a consolidação do movimento ambientalista português.

A todos os que participaram neste movimento um reconhecido agradecimento e o desejo que este espírito de entrega ao bem comum prevaleça durante muitos e longos anos, independentemente das organizações onde hoje fazem a sua participação.

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José Manuel Pereira Alho Nasceu em 1961 em Ourém onde reside. Biólogo, desempenhou até janeiro de 2016 as funções de Adjunto da Presidente da Câmara Municipal de Abrantes. Foi nomeado a 22 de janeiro de 2016 como vogal do Conselho de Administração da Fundação INATEL. Preside à Assembleia Geral do Centro de Ciência Viva do Alviela. Exerceu cargos de Diretor do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, Coordenador da Reserva Natural do Paúl do Boquilobo, Coordenador do Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios da Serra de Aire, Diretor-Adjunto do Departamento de Gestão de Áreas Classificadas do Litoral de Lisboa e Oeste, Diretor Regional das Florestas de Lisboa e Vale do Tejo na Autoridade Florestal Nacional e Presidente do IPAMB – Instituto de Promoção Ambiental. Manteve atividade profissional como professor convidado na ESTG, no Instituto Politécnico de Leiria e no Instituto Politécnico de Tomar a par com a actividade de Formador. Membro da Ordem dos Biólogos onde desempenhou cargos na Direcção Nacional e no Conselho Profissional e Deontológico, também integra a Sociedade de Ética Ambiental. Participa com regularidade em Conferências e Palestras como orador convidado, tem sido membro de diversas comissões e grupos de trabalho de foro consultivo ou de acompanhamento na área governamental e tem mantido alguma actividade editorial na temática do Ambiente. Foi ativista e dirigente da Quercus tendo sido Presidente do Núcleo Regional da Estremadura e Ribatejo e Vice-Presidente da Direcção Nacional. Presidiu à Direção Nacional da Liga para a Protecção da Natureza. Foi membro da Comissão Regional de Turismo do Ribatejo e do Conselho de Administração da ADIRN. Desempenhou funções autárquicas como membro da Assembleia Municipal de Ourém, Vereador e Vice-Presidente da Câmara Municipal de Ourém, Presidente do Conselho de Administração da Ambiourem, Centro de Negócios de Ourém e Ouremviva. É cronista regular no jornal digital mediotejo.net.

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