Leiria/Fátima | A morte misteriosa do padre Marco

O pároco da Maceira, no concelho de Leiria, foi encontrado sem vida numa praia em junho de 2018 Foto: Diocese de Leiria - Fátima

O Departamento de Investigação e Ação Penal do Ministério Público de Leiria arquivou o processo sobre a morte do padre da Maceira, Marco Brites, 38 anos, cujo corpo apareceu no areal da praia das Valeiras, Marinha Grande, em junho de 2018. A Polícia Judiciária não conseguiu apurar as causas do falecimento. A investigação revelou porém que o pároco tinha uma vida dupla e desconhecida das autoridades da diocese de Leiria-Fátima, que vêm agora lamentar publicamente os contornos sexuais do caso.

A história do pároco da Maceira agitou o fim da primavera na região vizinha há ano e meio, quando o sacerdote foi encontrado sem vida no areal da praia de Valeiras. O corpo foi avistado pelas 09h30 da manhã de 6 de junho. Segundo o comandante da Capitania do Porto da Nazaré, Paulo Agostinho, não havia evidência de crime.

“A pessoa estava vestida com roupa normal, afastando-se a hipótese de ser pescador. Não tinha qualquer bem consigo nem identificação”, citava à época o Jornal de Leiria.

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O padre fora visto acompanhado na noite anterior, tendo sido dado o alerta do seu desaparecimento no dia seguinte por uma paroquiana, quando faltou às confissões e à visita aos doentes. Em casa deixara as chaves do carro e o próprio carro, a carteira e o telemóvel.

Ao longo dos meses foram surgindo notícias relacionadas com o caso, nomeadamente por testemunhos dos pais, que acreditavam que o filho tinha sido assassinado. O pároco, confirmaram, chegara a instalar uma câmara de vigilância no quarto, convicto que estava a ser perseguido. Chegara inclusive a apanhar um homem que estivera a mexer-lhe nos pertences.

Esta semana, a Lusa e a própria diocese de Leiria-Fátima noticiaram que o caso foi arquivado sem que se tivesse chegada a uma conclusão quanto às causas da morte do clérigo. Segundo a Lusa, “as extensas diligências probatórias realizadas não permitiram apurar as causas da morte de Marco Brites, nem estabelecer se a mesma se deveu a homicídio, suicídio ou acidente”, refere a procuradora no despacho de arquivamento do Ministério Público.

Acrescenta ainda que “do que se conclui não se reuniram indícios suficientes da intervenção de terceiros na morte” do pároco, “ou seja, que este tenha sofrido crime contra a vida”.

O processo revela que quando o corpo foi encontrado estava “devidamente vestido e calçado”, tendo consigo um molho de chaves, lenços de papel, uma esferográfica, dinheiro, um terço e uma cruz. A autópsia médico-legal “admite que a morte tenha sido devida a afogamento”. “As análises toxicológicas realizadas revelaram-se negativas para as substâncias analisadas”. Também o exame ao corpo não revelou “sinais visíveis de agressão”.

No despacho, a procuradora refere ainda que “na habitação não foram encontrados vestígios nem sinais de violência”, que “nenhuma das testemunhas inquiridas forneceu elementos que permitam apurar as causas do falecimento de Marco Brites” e que “da análise dos elementos fornecidos pelas operadoras de telecomunicações e dos sistemas informáticos apreendidos nada de relevante foi apurado”.

As 42 testemunhas ouvidas pela Polícia Judiciária revelaram que o padre Marco “já tinha tentado o suicídio quando estava no seminário” e que “era uma pessoa querida na comunidade, não tinha problemas com ninguém e desempenhava com competências as suas funções de pároco”.

Segundo referiram, na noite anterior aos factos, o padre ausentou-se de uma reunião da paróquia, confidenciando que tinha “um assunto muito delicado” a tratar. Algumas pessoas confirmaram que as luzes da habitação estiveram acesas até cerca da meia-noite e o seu automóvel parqueado, sendo que uma das inquiridas confirmou que trocou mensagens telefónicas com o padre até essa hora.

Num dos relatos, uma mulher admitiu que o padre tinha uma relação afetuosa consigo, tendo mesmo admitido que iria deixar o sacerdócio, tendo o seu marido descoberto e avisado que iria contar ao bispo da Diocese Leiria-Fátima.

Outros relatos falam de desvios de dinheiro que teriam sido efetuados pelo padre que o antecedeu na paróquia. Facto que foi desmentido pelo próprio.

O padre desconfiava ainda que um outro religioso lhe mexia nas suas coisas, pelo que instalou videovigilância no seu quarto e verificou que a pessoa entrava nos seus aposentos.

O caso só prescreve a 6 de junho de 2033 e pode ser reaberto se forem encontradas novas provas. “No desejo e empenho para que se apurasse a verdade e eventuais responsabilidades, a Diocese colaborou, desde o princípio, com a investigação, incentivando as pessoas que soubessem alguma coisa relativa ao trágico acontecimento a revelá-lo à Polícia Judiciária.

O próprio bispo e talvez uma dezena de padres foram inquiridos, dando a conhecer sem reservas o que sabiam sobre o padre Marco e a sua morte”, referiu inicialmente a diocese na sua página eletrónica.

Nos últimos dias, porém, alguns órgãos de comunicação social noticiaram que a judiciária apreendera também vídeos e fotografias de teor sexual e pornográfico de Marco Brites e terceiros a manter relações sexuais, entretanto mandados destruir pelo próprio Ministério Público quando devolveu o computador à diocese.

Em comunicado de imprensa divulgado na sexta-feira, 28 de fevereiro, foi a vez do bispo de Leiria-Fátima, o Cardeal António Marto, mencionar o relatório final da morte do sacerdote, onde “estão revelados alguns comportamentos impróprios e reprováveis do padre Marco Brites que, de todo, desconhecíamos até à sua morte. Tal conduta deixa-nos profundamente tristes, bem como a todos os seus colegas sacerdotes, e causam confusão e perturbação nos fiéis, nos familiares e nas comunidades que servia, por estar em contradição com os compromissos sacerdotais e a probidade moral que dele se esperava”.

O cardeal condena ainda “todas as insinuações caluniosas que pretendem
responsabilizar qualquer sacerdote ou outras pessoas na morte do padre Marco
Brites. Conforme explícito nas conclusões do processo de investigação criminal que
relatam os factos de forma inequívoca, não foram encontrados indícios nesse
sentido”.

O que aconteceu ao pároco da Maceira? Suicídio, assassinato ou acidente, parece que o mistério vai ficar por desvendar…

c/LUSA

 

 

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