Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -
Terça-feira, Maio 11, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

“Lanche”, por Armando Fernandes

Dizem-me ter caído em desuso lanchar, refeição leve de diversas construções e composições, nos tempos de agora praticamente reservada às crianças e adolescentes a estudarem. Os puristas acrescentam ao termo a conotação burguesa urbana muito em voga nos séculos XVIII e XIX, no entanto, continuo a ouvir a palavra saída da boca de pessoas adultas a referirem-se a comeres consumidos ao meio da tarde, de um modo geral à base de sanduíches, bolos, fruta, bebidas frescas no Verão, quentes no Inverno.

- Publicidade -

É verdade, nos centros urbanos existia o costume do lanche, por volta das cinco da tarde, a sua composição variava conforme as posses de cada um, os mais endinheirados imitavam os ingleses concedendo atenção aos produtos fumados, aos queijos, às conservas industriais bebendo-se vinho, os menos abonados tanto deliciavam o palato comento bifes de cabeça chata, como produtos apresentados sobre a forma de escabeche, geralmente sobras de refeições anteriores.

E, agora, lancha-se ou não? A pergunta merecerá um sorriso trocista dos respondentes, lanchar ou merendar para a maioria não significa muito, já significa imenso petiscar-se até bem perto da refeição do jantar, petisca-se tudo e mais alguma coisa. Fundamentalmente nas cidades, vilas e aldeias mais populosas sobram as casas de pasto (pensem no termo pastar), snacks, cafés, tabernas e toda a casta de locandas onde podemos dar ao dente, bater a língua de duas formas, a primeira a ajudar na mastigação, a segunda no comentar a vida alheia, às vezes a própria (vai-se andando), a nacional mormente no que tange aos fenómenos desportivos e políticos.

- Publicidade -

Nas suas várias gradações ao longo dos século, desde a refeição completa ao cair da tarde, a refeição ligeira de convívio burguês, aos mimos doceiros a acompanharem chás rigorosamente, o imitado five-ó-clok, a sande e o copo de leite estudantil, as duas fatias de pão trigo ou centeio a abraçarem marmelada, manteiga ou compota para as meninas e os meninos em idade escolar, digo – o lanche – mesmo na versão merendeira terá sempre um lugar no quadro de refeições na Europa. As transformações sociais e a globalização imprimiram vertiginosa mutação no tocante ao sistema alimentar. No entanto, as coisas são como são, os estômagos reagem mal à falta de alimento e por isso mesmo as grandes superfícies abarrotam de gente no fim das jornadas de trabalho ou estudo interessadas em suavizarem os clamores da vontade de comer. Daí o lanche. Ou não?

A análise da composição da dieta alimentar do nosso quotidiano no Ocidente obriga a gasto de muito espaço porquanto já esbocei há largo tempo. Pouco a pouco a referirei, ao leitor peço que pense no seu horário de refeições, composição da dieta – alimentos e bebidas –, intervalos e duração. Se o fizer é capaz de colher surpresas a suscitarem pedidos de informação ao médico de família ou nutricionista não fundamentalista.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

- Publicidade -
- Publicidade -

COMENTÁRIOS

Please enter your comment!
O seu nome