“Karma, ou a vã glória de futurar”, por José Rafael Nascimento

“Sou um visionário periférico. Consigo ver o futuro, mas apenas para o lado.”
– Steven Wright, comediante

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“Se queres que Deus se ria, conta-lhe os teus planos”, disse um dia Woody Allen motejando o velho ditado popular de que “o futuro a Deus pertence” e o messiânico mandamento “dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Ora, se a prospectiva é obra complexa e divina, porque insiste César em tomar para si aquilo que é de Deus? Será mera curiosidade adivinhatória ou teme o futuro que lhe está reservado? Ou será que percebe que as oportunidades, quando bem aproveitadas, lhe podem dar vantagens?

Perante o Senado americano, Abraham Lincoln afirmou em 1858 que “a minha preocupação não é se Deus está do nosso lado, é estar do lado de Deus”. Mas, compreender o Criador não é tarefa fácil e muitos políticos, investidores, empresários, gestores e outros decisores optam por recorrer aos serviços de mediáticos e bem remunerados Astrólogos. Isto talvez o surpreenda, mas muitas decisões desses executivos, afectando a vida de milhões de pessoas em todo o Mundo, apenas são tomadas depois de ouvirem astrólogos, tarólogos, videntes, paranormais e outros indivíduos sensitivos ou conselheiros espirituais.

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Talvez estes especialistas do esotérico devam também ser escutados quando a preocupação é com o futuro, pois sempre ajudam a dar confiança ou a ter cautela com os passos que terão de ser dados… Afinal de contas, sabe-se bem quem são e ao que vêm, só se deixando por eles influenciar quem quer. Terão como directos concorrentes, obviamente, os obscuros políticos-comentadores avençados que, ao contrário de reconhecidos académicos e especialistas dedicados à futurologia gnósica, utilizam o influente espaço mediático para especular sobre o devir.

Os futurólogos credíveis procuram prever o futuro – o possível, o provável e o desejável – seja em continuação e desenvolvimento da perspectiva e paradigma actuais (com todas as suas potencialidades e contradições), seja na sua transformação e mudança para outra perspectiva e paradigma, de que é exemplo a famosa “destruição criativa” de Joseph Schumpeter. Em tempos de crescente incerteza, a previsão contingencial ou por cenários (e não pela mera projecção linear da evolução passada) ganha a preferência dos decisores pois, como dizem os militares, “não há plano que resista ao primeiro tiro do inimigo”.

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Diferentes perspectivas conduzem a diferentes paradigmas. Este é o princípio do pensamento lateral e criativo, o qual permite descobrir novas soluções para velhos problemas.

A lista de futurólogos é extensa e diversificada, compreendendo escritores, cientistas, tecnólogos, cineastas, empresários, astrónomos, médicos, filósofos, jornalistas e muitos outros especialistas ou autodidactas. Dela fazem parte personalidades como Nostradamus, da Vinci, Marx, Verne, Tesla, Disney, Orwell, Asimov, Toffler, Sagan, Hawking, Negroponte, Popcorn ou Kaku, mas também muitos nomes contemporâneos com diferentes graus de notoriedade e impacto, como Kelly, Zalman, Kjaer, de Grey, Khanna, Solis, Burrus, Brin, Orange, Gibson, Leonhard, Hiemstra, Canton, Carroll ou Kurzweil (ufa!), só para dar alguns exemplos da actual “indústria futurológica”.

Não se pense, contudo, que o futuro é constructo consensual. No texto Um outro final de tempo?, publicado em Janeiro de 2000 no seu livro Pensageiro Frequente, o escritor moçambicano Mia Couto revelava: “Há uns anos, um jornalista que me acompanhava nas minhas andanças de biólogo ficou espantado porque não encontrou, no interior de Moçambique, equivalente na língua local para o termo «futuro». As pessoas possuíam, evidentemente, noção da existência de um porvir. Mas não nomeavam esse tempo vindouro. Nessa cultura – como em tantas outras – domina uma concepção circular do tempo, bem distinta da concepção linear que se acredita universal.

Mas não são apenas as culturas da oralidade que rejeitam a ideia do tempo-flecha, como um ponteiro evoluindo num infinito cenário. A própria ciência coloca hoje em dúvida as concepções aristotélicas e newtonianas sobre as quais assenta a nossa intuição da passagem do tempo. Para os físicos que estudam a lógica das galáxias, a pergunta sobre o «depois» do universo não tem muito sentido. Simplesmente porque, para o universo, não houve nunca um antes. À pergunta fatal – e antes de haver universo o que é que havia? – alguns físicos respondem com a maior simplicidade: não existia nada. O tempo nasceu com o próprio universo”.

Como se disse atrás, a tentativa séria de imaginar e caracterizar o futuro mostra-se extremamente complexa. Além de requerer o acesso, selecção e processamento de elevadas doses de informação e conhecimento, o trabalho de prospectiva exige uma extraordinária capacidade de análise e um saber configuracional, feito de inferência cognitiva, que só muitos anos de estudo, experiência e integração de aprendizagens permitem alcançar. Este saber inclui, obviamente, o dom do bom senso e a capacidade de se manter, tanto quanto possível, alinhado com a realidade.

“Quando deixa de haver a ideia de futuro, as pessoas começam a escavar o passado. […] Quanto estamos construindo no ventre do presente uma sociedade grávida de futuro?” – Mia Couto
Mesmo assim, o futuro revela-se uma caixinha de surpresas, umas agradáveis outras decepcionantes, por vezes uma terrível “caixa de Pandora”. Isto tende a ocorrer quando as mudanças, nomeadamente as radicais ou transformacionais, são desencadeadas pelo voluntarismo precipitado dos homens e não pelo determinismo decorrente do natural amadurecimento dos processos e suas contradições. Quando estas condições não estão suficientemente maduras, podem entrar em conflito e funcionar como travão daquela vontade. Quando estão, revelam-se “lâmpadas de Aladim” e as mudanças são aceleradas pela deliberada vontade humana.

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Em 1999, numa das suas várias intervenções polémicas, José Saramago disse acreditar que “se a Revolução dos Cravos não tivesse sido feita, Portugal estaria igual ao que é hoje. O 25 de Abril acabou. É história. É uma promessa que não se realizou”. E acrescentou: “Não quer dizer que não o devêssemos ter feito. Apenas que não soubemos, não pudemos ou não nos deixaram mantê-lo”. Reafirmou-o em 2006, ao dizer que “do 25 de Abril de 1974 não ficou nada, rigorosamente nada”, acrescentando que “nem mesmo a democracia é uma herança directa da revolução. A Espanha não fez nenhuma e é um país democrático”.

Respondendo a estas declarações, Pedro Pezarat Correia – director de O Referencial, boletim da Associação 25 de Abril (ver nº 83, Abril-Junho de 2006) – refutou a interpretação “evolucionista” das palavras de Saramago, sugerindo que este “quis dizer que os traços mais marcantes, mais identificadores que tornaram o 25 de Abril exemplar, foram sendo sistematicamente apagados ao longo destes 30 anos de regime constitucional e, deles, nada resta. Assim interpretado, ainda que revelem um desencanto excessivo que não partilho totalmente, as palavras de Saramago justificam outra atenção e abalam muitas consciências”.

Saramago nunca esclareceu (se necessário fosse) o que realmente “quis dizer”, deixando muitos na incerteza própria do futuro, mesmo quando o futuro já é passado. Com a pandemia covídica que se abateu agora brutalmente sobre a população mundial, só relativamente comparável à gripe pneumónica “espanhola” de 1918, a qual terá ceifado qualquer coisa como 100 milhões de vidas humanas, volta a especular-se sobre os impactos que a crise decorrente terá no curso do progresso das sociedades, das organizações e de cada indivíduo.

“Sem futuro, o presente não serve para nada, é como se não existisse. […] A nossa maior tragédia é não saber o que fazer com a vida. […] Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.” – José Saramago
Para quem tem experiência de vida e já passou por muito, expressões salvíficas e de infundado optimismo – confundindo desejos com realidade – como “o mundo nunca mais será o mesmo” e “vamos todos ficar bem” (ou “vai ficar tudo bem”), soaram sempre a óbvio exagero e ilusão. Como referi na crónica Prever para falhar a previsão, compreende-se a sobrestimação dos eventos positivos e a subestimação dos negativos. Mas, como citei em A difícil relação com a verdade, as pessoas que põem óculos “cor-de-rosa” podem sentir-se bem no presente, mas tendem a ser menos felizes e menos bem-sucedidas no futuro.

Na verdade, não se sabe bem o que resultará do impacto desta crise pandémica, a qual se distingue significativamente de tudo aquilo que sucessivas gerações puderam experienciar nos últimos cem anos. Houve quem erradamente lhe chamasse “guerra”, certamente por não ter vivido nenhuma. Numa guerra a sério, não se fica sentado num sofá a engordar, por um período de tempo previsível, sem cortes de água, energia e comunicações, temendo poder vir a morrer de tédio. Foi, sim, uma ameaça e combate sanitários com tremendos efeitos socioeconómicos colaterais, dos quais se espera poder recuperar rapidamente.

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Por outro lado, as condições – científicas, tecnológicas, políticas, sociais, comunicacionais, etc. – em que esta crise ocorre, num Mundo completamente diferente daqueles que se conheceu em eventos disruptivos no passado, ainda não foram postas à prova, no limite do seu potencial. As crises – e esta nem vai ser especialmente impactante, como foram outras mais profundas e prolongadas – têm geralmente por consequência facilitar e acelerar as tendências e os processos de mudança que já vinham ocorrendo. Verdadeiramente transformacionais são as crises que redefinem a escala de valores humanos e esta da COVID-19 não vai ter essa sorte (mas a da revolta anti-racista, a somar à da pandemia e desemprego, poderá ter…).

Albert Camus, o pensador do absurdo, termina o seu livro A Peste (uma metáfora do nazi-fascismo) com as seguintes palavras: “Ao ouvir os gritos de alegria que subiam da cidade, Rieux lembrava-se de que esta alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que esta multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços e na papelada. E sabia também que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz”.

“O que mais nos impressiona hoje, com efeito, é que no mundo actual, em geral (e à excepção dos crentes de todas as espécies), a maior parte dos homens se encontra privada da noção de futuro. Ora, não há vida vivida sem projecção no tempo, sem esperança de amadurecimento e progresso.” – Albert Camus

Esta visão negra – mas premonitória – do futuro era, no entanto, acompanhada de uma recomendação sobre como os homens devem comportar-se perante as dificuldades; “Esta crónica não podia ser a da vitória definitiva. Podia apenas ser o testemunho do que tinha sido necessário realizar e que, sem dúvida, deveriam realizar ainda contra o terror e a sua arma infatigável, a despeito das suas dores pessoais, todos os homens que, não podendo ser santos e recusando-se a admitir os flagelos, se esforçam, no entanto, por ser médicos”.

Em Um outro final de tempo?, Mia Couto escreve também sobre “o antes e o depois”, nomeadamente sobre a passagem do anterior para o actual Milénio, recordando o que terá ocorrido mil anos antes. Conta, então, que “nas vésperas do ano 1000, grande parte dos europeus foram tomados pelo pânico. Um batalhão de videntes, astrólogos e profetas, secundados por matemáticos e monges, anunciavam o catastrófico fim do universo.

Gerações que viam avizinhar-se a viragem do século convertiam-se em piedosas criaturas redigindo generosos testamentos. Os ricos doavam terras à Igreja e os seus bens aos mais pobres. Muitos viajaram para Jerusalém. Outros procuraram abrigo em mosteiros. Em Dezembro do ano de 999, os comerciantes fecharam as lojas e distribuíram o dinheiro pelos pobres. Perdoaram-se dívidas, soltaram-se condenados, ilibaram-se criminosos.

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Cito Hillel Schwartz: «Nos lares, as esposas perdoavam os maridos adúlteros e os maridos perdoavam as esposas infiéis. As crianças eram dispensadas dos bancos das escolas pelos seus mestres que não viam utilidade no ensino, tão perto se encontrava o fim do mundo». O dia 31 de Dezembro de 999 instituiu um verdadeiro caos. Cristãos encheram as igrejas, em preces desesperadas. À meia-noite daquele dia, o Papa Silvestre II dirigiu-se em missa especial de Roma e viu, com espanto, que nada de especial acontecia enquanto proferia suas orações.

O Papa Silvestre II teve uma vida atribulada e exerceu apenas durante quatro anos (999-1003). Era considerado um eminente professor e investigador, tendo deixado insignes contribuições nos domínios da matemática, geometria, astronomia, música e retórica. Escreveu o tratado filosófico “De racionali et de ratione uti”, o qual se debruçava sobre o uso da razão e a definição do conhecimento. “Tudo despertava o seu interesse: se ignorava, aprendia; se sabia, transmitia”, escreveu em 1999 sobre ele o Papa João Paulo II.

O novo milénio despontava sem que o mundo se abatesse no vácuo. Um enorme suspiro de alívio uniu os crentes que imediatamente se dedicaram, com ânimo, a diversas obras de reconstrução. O ano 1000 foi um período admirável de reconstrução e esperança. Pudesse esse espírito regressar agora, nesta infância do século, e encorajar os homens para reconstruírem aquilo que tem sido degradado. E que, desta feita, a obra maior fosse o próprio homem”.

E é nesta obra que precisamos de nos centrar. Na obra de proporcionar a melhor educação, cultura e oportunidades de realização a todos os homens e mulheres, sem excepções nem discriminações. Porque o futuro é um karma, i.e., recebemos a contrapartida do que nele investimos. A previsão de resultados depende da previsão de investimentos. Não há glória sem sacrifícios (“no pain, no gain”) e qualquer exercício de previsão que não assente nesta premissa, não passa de pura vanglória ou ilusão. O futuro será o que fizermos por ele.

Já não existindo o passado e sendo o presente, por teorética definição, uma mera intersecção do passado com o futuro, é neste que todas as atenções se centram, até porque é ele que nos mantém vivos. “Ninguém consegue imaginar o futuro sem nele estar presente, o que explica por que não se está preparado para morrer”, justificou com graça Robert Schimmel. Linear ou circular, o tempo vindouro continuará a preocupar a Humanidade, como sempre preocupou até hoje. Como dizia o comediante George Burns, “é preciso olhar para o futuro porque é lá que passaremos o resto das nossas vidas”.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico. 

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