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Terça-feira, Novembro 30, 2021

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Jovens tomarenses entram na luta pela despoluição do Nabão e querem despertar consciências

Depois de descargas poluentes, com a habitual espuma espessa, águas turvas e acastanhadas, dois jovens tomarenses tomaram a dianteira e insurgiram-se nas redes sociais com o Movimento Luto Pelo Rio Nabão. A ideia é consciencializar e despertar os cidadãos para uma causa de todos, em prol da saúde e despoluição do rio Nabão, atacado durante décadas por episódios de poluição dantescos, e sem solução à vista ou resposta eficaz das entidades competentes. O mediotejo.net quis conhecer Fábio e Natércia, que encabeçam o movimento que age silenciosa e meticulosamente, e que avalia a cada passo onde poderá fazer a diferença e reunir o maior número de contributos e alcançar resultados junto do poder político. Querem respostas, mas acima de tudo, chegar ao objetivo comum: um rio limpo que possa ser usufruído por todos.

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Foi através de uma publicação na rede social Facebook, onde surgem sempre testemunhos em fotografia ou vídeo a denunciar mais uma descarga poluente e mais focos de poluição ao longo do rio, que o Movimento Luto pelo Rio Nabão apela à ação da comunidade, para uma manifestação coletiva junto do Ministério do Ambiente.

Fábio Antunes, editor de vídeo, 29 anos, reside em Oeiras. Decidiu no após o dia 1 de março, Dia do Concelho, ‘agitar as águas’ e lembrar que na bela cidade natal muita coisa está por resolver, entre as quais, a despoluição urgente do rio Nabão.

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E aqui entra Natércia Rodrigues-Lopes, 28 anos, investigadora e cientista, que reside em Barcelona atualmente. Ambos cresceram e estudaram em Tomar até ao ensino secundário.

Quis o tempo que voltassem a unir-se em prol do Movimento Luto Pelo Rio Nabão, que pretende criar consciência nas pessoas. O objetivo é “alertar e consciencializar”.

O movimento, dizem, foi criado de forma instantânea e orgânica, com pretexto da efeméride do dia 1 de março, Dia da Cidade de Tomar.

“Criei um post a dizer «Movimento Luto Pelo Rio Nabão», e comecei a ver pessoas a comentarem e a aderirem, e a Natércia, que é minha amiga, comentou comigo sobre a possibilidade de tomarmos iniciativa e enviarmos e-mails para as entidades competentes. Iniciámos uma aventura a bem do meio ambiente”, reconhece.

Foto: DR

Recorda que na altura pensou que a união faz a força. “Se formos muitos a ficar indignados e agir nos sítios próprios, talvez consigamos ser mais ouvidos”, admite.

“Apesar de não sermos residentes em Tomar neste momento, não é por isso que não queremos agir. Se toda a gente fizer o seu papel, se agir com cidadania, por iniciativa própria e por uma causa que a todos diz respeito, acho que estaremos num bom caminho. O objetivo é esse, tentarmos alertar as pessoas e criar consciência em cada uma, porque esta é uma realidade que acontece há décadas”, nota Fábio.

O jovem decidiu tomar conhecimento para melhor argumentar, e foi investigar mais sobre o passado do rio e dos atentados ambientais que sofre.

“Tenho feito pesquisa sobre a poluição no rio Nabão, e encontrei um documentário na RTP Arquivo, um programa do jornalista Luís Filipe Costa, que acabei por partilhar num vídeo, que inclui entrevista de 1974, com mortandade de peixes causada por contaminação nas águas proveniente de uma fábrica de papel. Já aqui assistíamos a crimes ambientais no rio desde a década de 70. E é muito triste, passadas tantas gerações, tantos anos, este problema não ser resolvido de vez. Já é tempo a mais, infelizmente”, lamenta.

Já Natércia, vai mais longe, referindo que o que tem acontecido “é que as ações das instituições, associações e entidades que têm tentado apresentar a causa e defender soluções junto das entidades competentes não têm sido suficientes. O problema continua-se a arrastar e nada se resolve”.

E sem papas na língua, defende que esta é uma competência do governo e que deve ser uma prioridade, para a qual deve também existir disponibilidade de verba para intervir sempre que necessário.

PSP recolheu amostras no Nabão no dia 5 de março e está a averiguar suspeitas de crime ambiental. Foto: PSP

“O tratamento das águas, a gestão da água e das descargas poluentes, é algo que cabe a um país gerir com a sua própria verba. Chega a ser chocante ter que se esperar por verbas europeias para lidar com algo que é básico”, diz, aludindo à tentativa de proposta de um plano de despoluição do rio Nabão ao Plano de Recuperação e Resiliência, e dos projetos que aguardam financiamento comunitário.

“Desde que frequentei a escola primária que oiço falar na importância da gestão da água, de acabar com a poluição nos recursos hídricos. A Lei da Água em Portugal, de 2005 e adaptação de uma diretiva europeia, já lá vão 16 anos, tem uma alínea que diz precisamente que é preciso cessar de forma faseada as descargas poluentes para os rios”, reafirma.

Natércia sublinha que passaram 16 anos e o rio Nabão ainda precisa de intervenções “que são previstas na lei, que têm de partir do governo do país, e no entanto aqui estamos. Se as autoridades nada fazem, temos nós, cidadãos tomarenses, que fazer alguma coisa”.

Por isso, quando viu Fábio a tomar iniciativa nas redes sociais para espalhar a palavra, quis juntar-se à luta. “Porque é a nossa terra. É o nosso rio”, considera.

Foto: CMT

Natércia defende que a preocupação de hoje deve ser com a “acumulação”, porque os episódios de poluição são recorrentes há longos anos.

Os jovens reconhecem o trabalho que tem sido feito por Américo Costa, do movimento Aqua Tomar, uma pessoa ativa na causa pelo rio Nabão. “Ainda há tempos ele dizia nas redes sociais que anda há 20 anos a falar disto. Ele tem sido uma pessoa ativa, sempre a batalhar pelo rio. Na verdade, a certa altura, acho que as pessoas nem o ouviam. Mas agora chegamos à conclusão que ele tem razão, que há um problema grave e que não se resolve de maneira nenhuma. Não sei se ele se sente feliz ou frustrado de as pessoas, ao fim de 20 anos, as pessoas ouvirem o que tem para dizer sobre o rio”, declara.

Quanto ao futuro, Fábio e Natércia ponderam avançar passo a passo, congregando esforços e contactando diversas entidades no sentido de conseguirem algum tipo de apoio para consolidar a iniciativa e chegar ao maior número de pessoas.

O primeiro impacto foi “bastante bom”, sendo que Fábio diz ter ficado bastante surpreendido com a adesão. “Calhou, por coincidência, na mesma semana que lançámos o movimento, houve uma descarga [5 de março] e aí as pessoas aderiram, partilharam o post de alerta e comentaram que tinham enviado e-mail, correspondendo à primeira ação que promovemos, e que iam encorajar outras pessoas a fazê-lo”, diz.

Foto: CIMT

“É uma situação que nos afeta a todos, não só aos tomarenses, é do interesse de todo o país e todo o mundo, porque é o meio ambiente que está em jogo. Afeta os rios, a agricultura, os animais, a flora e fauna dos ecossistemas. Temos de estar despertos e conscientes. Não podemos estar a viver nos anos 20 ou 30, na senda da industrialização e onde não se pensava nas consequências para o meio ambiente. Hoje em dia temos uma sociedade evoluída que tem de pensar nas consequências dos seus atos e no que se podem tornar no futuro”, reconhece.

Natércia adverte que o movimento não foi planeado, mas que surgiu pelo impulso de defender o rio Nabão, da mesma forma que não é um movimento “diferenciador”. “É um movimento nosso, dos tomarenses, e de todos os que se queiram juntar pelo bem do rio, pela despoluição das águas. Não é um movimento ou organização fechada”, salienta.

A ideia é congregar esforços no palco onde tudo acontece, que são as redes sociais, passando a mensagem mas com intuito de atrair interessados em “puxar a atenção política” para o problema.

Uma das ações passou por encorajar cidadãos a enviar por e-mail um manifesto, onde se exigem respostas e soluções quanto à despoluição do Nabão ao Ministério do Ambiente.

“Queremos o rio limpo, é só isso”, sublinha Natércia, e “ter respostas” às dezenas e dezenas de e-mails que já foram sendo enviados.

“Até ver, no meu e-mail, não recebi qualquer resposta, e não ouvi falar de ninguém que a tivesse recebido. Chegaram dezenas e dezenas de e-mails ao Ministério do Ambiente e da Transição Energética que não foram respondidos, e é preocupante. Passou um mês… se ficamos sem resposta, alguma coisa tem que acontecer. Não podemos deixar cair”, insiste.

Foto: CMT

Os jovens estão dispostos a avançar com a procura de respostas, contactando partidos políticos com representação parlamentar e outros, “para ver se algum dos partidos efetivamente decide que isto é uma causa que vale a pena apoiar”, e agem em conformidade, pressionando para ações e respostas concretas.

E se mesmo assim não for suficiente, prometem ir mais longe. “Em última instância, a Lei da Água em Portugal é uma adaptação da diretiva da União Europeia, portanto a União Europeia exige aos seus estados membros que cuidem dos recursos hídricos e façam boa gestão da água. Isso está a falhar em Portugal… Quanto mais não seja, somos cidadãos portugueses, mas somos cidadãos europeus também… e se tivermos que ir até à União Europeia, pois sim. Mas gostávamos primeiro de ter uma resposta do nosso Ministério, que é quem devia responder às mensagens enviadas”, concluem.

Recorde-se que, conforme noticiado pelo mediotejo.net, foi lançado um movimento a mobilizar a sociedade civil para demonstrar o seu desagrado e procurar respostas sobre a poluição recorrente no rio Nabão, situação que proliferou partilhas e comentários nas redes sociais e que motivou o envio de um manifesto via e-mail ao Ministério do Ambiente, pressionando para se obter respostas concretas e para que a tutela atue efetiva com os seus organismos no cerne da poluição que assola este curso de água em terras nabantinas, à semelhança de tantos outros casos conhecidos na região e no país e que também aguardam uma solução definitiva e eficaz.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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