“Josefina”, por Vera Dias António

Chego e sento-me. Vou para falar e tenho que respirar fundo, estou cansada. Josefina pôe-me a mão no ombro e diz “relax”. Acho o máximo aquele relax que volto a ouvir inúmeras vezes enquanto conversamos, tal como um “that’s ok” (tudo bem) entre outras expressões em inglês que lhe saem naturalmente fruto dos 34 anos, toda uma vida, em que viveu no Canadá. Tem duas filhas, uma que veio para Mação, outra que ficou no Canadá.

Josefina, que via muitas vezes na rua, foi uma surpresa que tive quando, no Encontro de Emigrantes promovido pela Câmara Municipal de Mação, me achei sentada perto dela, contente que estava com o evento “que os emigrantes merecem pois passaram muito lá fora para mandar dinheiro para cá, ajudaram as suas terras a desenvolverem”.

Começamos a conversar e fui conhecendo aspetos que eu desconhecia de Mação pelo que pensei automaticamente que tínhamos que falar melhor. E começaram uns meses de namoro torto, que até à neta Cláudia recorri e que não, “a nossa conversa foi uma conversa, agora cá entrevistas, não tenho cabeça nem saber para isso”, e mandava-me passear… de forma educada, que o problema não era eu, era ela.

Até que um dia lá se deu a coisa! Precisamente no dia em que me comprometi comigo mesma a ir ao encalce de Josefina (pois a neta Cláudia me disse que ao fim da tarde era certo encontrá-la no muro da Igreja Matriz), encontro-a na Rua principal, meia dúzia de passos e lá estava ela. E ali ficámos. E lá acedeu!

Atenção que quando falei do muro da Igreja Josefina me corrigiu para “Pial de S. João”. Como? Questiono… É isso, um pial pois aqueles muros que sempre houve à porta das casas, neste caso também da Igreja, são os piais, Pial de S. João pois está do lado da Igreja que tem o Altar de S. João. Simples. Perfeito. Desconhecia…

Josefina nasceu na Rua de S. Bento que era “uma animação muito grande, tanta gente, tudo amigo”. Daquela zona do fundo da Vila, à volta da Matriz, onde nasceu e cresceu tem as memórias felizes de um Mação cheio de gente e de amizade.

Conta que no Largo Samuel Mirrado havia, quando era pequena, um mercado todos os meses, “como é na Feira dos Santos, mas mais pequeno, todos os meses, era muito bom”. Depois na Rua do Adro juntava-se ali tudo a jogar à macaca, ao lenço, ao anel, ao jogo de esconder, era uma maravilha e remata “ai menina, tanta gente, tudo tão bonito”. E diz que se sentava ao pé das velhinhas que gostava de as ouvir falar.

De repente lembra-se de uma história que tem preceito e que a acompanhou toda a vida, uma lição de vida, digamos!

A avó de Josefina tinha uma zanga permanente quando ia à horta, não havia vez que lá fosse que não viesse com ralações pois uma vizinha lá da horta, a Henriqueta, moía-lhe o juízo. Um dia a casa frente à avó de Josefina ficou à venda. Adivinha-se quem a comprou… Henriqueta. A avó de Josefina levava as mãos à cabeça, o que havia de ser da vida dela com tal “diabo” à porta. “E não queira a menina saber! Quando se mudou, a Henriqueta foi falar à minha avó que não queria brigas ali e pediu-lhe um abraço e foram melhores amigas, como irmãs, o resto da vida!…” isto parece impossível mas é verídico, ninguém pensava…

Josefina lembra-se entretanto das tabernas que por ali havia, a do Sr. Alexandre na Rua da Videira, que era casado com uma espanhola, a D. Arminda que tinha uma mão para cozinhar… “ela cozinhava de tal forma que quando fazia escabeche para as sardinhas cheirava-se cá ao cimo da rua”. Lembra-se também da taberna da ti Esperança na Rua do Adro e conta que uma vez o avô estava lá sentado, depois de um dia a serrar madeira, e ela com ele, descalça que andou muito descalça e iam para tirar uma fotografia e a avó lhe foi tapar os pés com um lenço para não se notar que estava descalça. Era uma menina e ainda guarda esta memória quase 7 décadas depois, o que me faz pensar no interessante que é aquilo que nos marca enquanto crescemos, o que guardamos, mesmo sem querer…

Na altura eram tantas as tabernas que o pai de Josefina dizia que eram como igrejas, tudo lá tinha que ir um bocadinho.

Às vezes, conta, iam para lhe chamar Finita e ela nunca se deixou ficar com tal diminutivo pois Finita era o que chamavam às Josefinas ricas e fazia-lhe impressão.

Também não sabia, mas contou-me a querida Josefina, que de Mação se ia lavar a roupa à Ribeira de Eiras, ranchos de mulheres, tudo carregado por aí abaixo e depois tudo para cima com a roupa “tão limpa e bem dobradinha”.

Este pormenor resgato-o eu, de propósito, para quem se lembra de ir lavar roupa à ribeira pois também tenho memória de ir com a minha avó Lurdes lavar a roupa à ribeira no Castelo e o que eu gostava daquilo… tudo estendido a corar. Uma delícia.

Josefina diz que andavam na ribeira com a água pelos joelhos e sentiam as sanguessugas a vir picar-lhes os pés e diziam que era bom para limpar o sangue.

O pai de Josefina foi carpinteiro da Casa Pina toda a vida e Josefina conta que ia lá muito e eram todos muito simpáticos e lhe davam sempre uma bocadinho de pão com queijo para comer. Aceitava sempre, não porque tivesse fome “que graças a Deus em casa dos meus pais não se passava fome” mas aceitava pois não queria fazer desfeita e o queijo era bom. Josefina remata que as netas lhe dizem que sabe muitas histórias e que as corrige “não são histórias, são realidades”!

A mãe de Josefina tinha uma mão especial para os bolos, fazia de tudo, torrados, escondidos, miminhos, cavacas. Havia fornos onde se juntavam as mulheres a fazer belas fornadas de bolos e “ninguém escondia nada em casa, todos trocavam tudo uns com os outros”.

Lembra-se entretanto da madrinha que gostava muito dela e lhe fazia campelas com perpétuas para não lhe doer a cabeça.

Gostava muito de dançar e fala-me dos ranchos, havia ranchos na Vila e depois montava-se o palco no Largo (dos Combatentes) para as festas e os ranchos atuavam lá. Esteve nos ranchos dos 9 aos 18 anos e agradece que os pais lhe tenham dado tal alegria. O organizador dos ranchos era o mestre da música, o Jaime e os ensaiadores eram o Sr. Manuel Saldanha, o Sr. Jaime e o Sr. Chico Dias. Dos músicos lembra-se do Ti João Mendes e do Sr. Manuel Jesus, “o pai do João Manuel que era um grande homem”. Suspira quando se lembra dos ranchos e de como gostava de dançar “Mação tinha coisas muito lindas”.

Guio a conversa para o Jardim Municipal onde conversámos pela primeira vez, o primeiro Jardim, O Jardim de Mação, que era muito bem tratado, conta, pelo Ti João Pascoal, “sabe, era o avô do Jaime e do Norberto, aquele homem tinha um gosto no Jardim…”

Josefina conta que vinham flores de Santarém, tudo muito composto e que “ele quando as plantava às vezes mandava uns bocaditos lá para trás do Jardim e eu e a minha irmã apanhávamos esses bocaditos e íamos pô-los na horta e fazíamos belos canteiros. O meu pai desmanchava aquilo e o meu avô, que sabia que a gente tinha aquele gosto, arranjava-nos a terra”.

Diz que o Jardim era tão bem tratado que não se via uma erva ou uma planta fora do sítio, tal o gosto que o Ti João Pascoal tinha no Jardim ”ele era muito zeloso”, remata. Chamavam-lhe Jardim do Tanque da Ladeira pois tem o tanque lá em frente.

Falamos desse Tanque, das Fontes que havia e onde se ia à água e Josefina conta que quando teve cancro, no Canadá, uma fase de dor e sofrimento que não esquece, querendo esquecer, mas conta que o médico que lhe fez a Quimioterapia lhe dizia que “o melhor amigo que temos é um caminho livre e eu perguntava-lhe o que era isso e ele dizia que era conseguir ir na rua e ouvir um pássaro a cantar, sentir a natureza”. Josefina conta que agarrou naquilo e quando voltou do Canadá andou ali dois anos a habituar-se, a ambientar-se que foram muitos anos fora e então ia dar umas voltas ao fundo da vila, às Fontes como a Fonte do Forno para sentir a água e ouvir os pássaros e que isso a ajudou, a jeito de terapia.

Conta também que no Canadá uma vez partiu uma perna e que a senhoria, que era do Algarve, ia estar com ela no hospital e lhe levou o livro “A Família Paroquial”, que leu e que a fascinou, de tão simples e bonito. Já comprou mais de 50 para ir dando, que é mesmo muito bonito.

Josefina, que voltou ao seu Mação para descansar, para “relax”, depois de muitos anos de trabalho. Tem uns dias bons, outros que nem por isso, agora tem uns problemas na cabeça que a incomodam e às vezes pergunta-se porque ainda anda cá. Depois passa. Valem-lhe muito as memórias, a família, os bisnetos… tão espertos. E vale-lhe o marido, José Mela, “que começou a trabalhar aos 6 anos e aos 80 não pára, tanto que gosta da horta”, que se percebe que há ali uma história séria de muito respeito e amizade. Penso que é o seu ponto de abrigo de sempre e para sempre, o seu lado calmo, o seu verdadeiro relax, que às vezes há coisas que até lhe salta o coração e é ele que o acalma.

Josefina, que tanto me fugiu e com quem é tão prazeroso conversar, ainda bem que se resignou a mais de duas horas de conversa, umas vezes corrida, outras empolgada, com muito boas memórias e realidades. Gostei tanto que só me resta agradecer e desejar paz, muita paz no coração! That’s ok!

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

pub
Artigo anteriorAlcanena | Município convida população a conhecer projetos cofinanciados
Próximo artigoTomar/Autárquicas | CDU quer eleger pelo menos dois vereadores
Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica. Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida. Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

2 COMENTÁRIOS

  1. Adorei! Good Job!!! A expressao muito usada no Canada. Sou a filha da Josefina que esta no Canada.
    Historias nao a realidade como diz a minha mummy. Este testemunho de uma senhora muito sabia e carismatica.
    Como dizia Maya Angelou
    “There is no greater agony than bearing an untold story inside you.”

    Adoro caminhar com a minha mummy pelas ruas de Macao a noite e ouvir as lindas historias que a minha mummy conta desta terra e deste povo. A palavra SAUDADE para mim e isto.
    As historias sao a riqueza de um povo.

    Nos emigrantes temos muitas historias e recordacoes porque…” a vida e dura”.

    Um grande abraco para Portugal.

    Da vossa filha, Ana Cristina

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here