“José Rodrigues Miguéis, entre os livros  e as entrelinhas…,” por Adelino Correia-Pires

Com um frio que se entranha a anunciar o verão do santo, aconchego-me como posso de volta com os egos. O meu e o de outros. É assim a natureza humana. Para alguns, o ruído é o embalo. É na mesa farta e composta que se aninham. Não lhes basta o silêncio, não lhes chega a penumbra. Tento perceber esta coisa dos estados de alma ou de espírito, algo que talvez se resuma ao estudo dos estados.

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E prossigo. Caminho pela mão de Rodrigues Miguéis ali ao Salão Bobonne, à Rua da Leva da Morte, de má memória para o Visconde da Ribeira Brava, por lá fuzilado ao abrigo da lei das fugas. Ele e mais uns quantos, por conspirarem contra Sidónio, o Presidente-Rei. Estranha rua, onde se misturavam conspiradores e artistas, revólveres e paletas de cores. Miguéis, nascido com o século (1901), escrevinhava as primeiras coisas na República e Seara Nova, que isto de se ser escritor tem que se lhe diga. Há que sujar os cueiros, pedalar, palmilhar léguas a fio e cair no goto, quando não no esgoto.

À época, homem novo, pouco mais de vinte anos, não o fazia por menos. Vá de zurzir de pena afiada nas exposições do Bobonne. Eram as telas doentes do António Saúde ou as abóboras amarelinhas de João Reis. Nada lhe escapava, nem mesmo o mestre, já consagrado na época: “… Carlos Reis preside, seu nome de mestre mais ou menos nimbado de triunfos. Tem duas telas apreciáveis: uma (Azas Brancas) é sem dúvida a mais doce, de expressiva emoção, a mais leve e natural na técnica, de quantas estão expostas. É, pode dizer-se, o quadro mais moço que se nos oferece. Surpreende-nos porém que a larga experiência do artista, a sua técnica experimentada, lhe houvessem permitido pintar uma figura morta e pastosa…”(1)

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São estas histórias que não se contam nos livros, antes se encontram folheando velhos jornais ou revistas que me vão empurrando cada vez mais para as entrelinhas. E é por aí que continuo e me encontro com o Miguéis de “O Diabo”, por onde deambula, publicando ali o primeiro conto neo-realista da literatura portuguesa (2). E continuaria escrevendo, escrevendo sempre. Até que, assumidamente influenciado por Raul Brandão lhe escapa “Páscoa Feliz”, o seu primeiro e notável livro, não sei se “… com psicologia a mais e angústia a menos” mas, o suficiente para, aos 31 anos, se ver com Camilo nos braços, não o homem, mas o Prémio, logo na sua primeira obra.

E de um discutível crítico de arte ou de um provável jornalista (mais um), deambulando pela boémia lisboeta de antanho, desponta um dos grandes escritores das nossas letras, onde o conto, a narrativa e o romance passariam a aconchegar as estantes mais exigentes.

E lá vou eu, a braços com a sua impaciência para o politicamente correcto, rumo a Nova Iorque para onde partiu entre guerras num exílio assumido, por lá ficando e por cá sonhando. Que o digam Dona Genciana, Léah e todas as Escolas de todos os Paraísos, todas as Aventuras Inquietantes, todas as Gentes de Todas as Classes.

Anos mais tarde, já amadurecido por outros ventos e tempos, ausente lá nas américas, escrevia então a bom escrever para a COR, que lhe editava os livros, revistos pelo director literário da editora, um tal José Saramago.

Nos anos sessenta trocaram cartas, mimos e amuos. Já então Saramago, mais atento ou desconfiado, primava pelo cuidado na escrita, como que adivinhando que o que entre ambos escreviam, um dia viria a lume e não para qualquer fogueira.

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Ali se revelam simples curiosidades, a ponta de muitas mealhas, dores de cotovelos vários ou histórias de fazer CORar alguma gente da nossa praça. Ali se percebe que, apesar da amizade, aqueles dois egos se contrapunham. Um, Miguéis, mais velho, já lido e com nome feito, puxando pelos galões sempre que a impaciência o ditava. O outro, Saramago, ainda debutante como escriba (que não como editor ou jornalista), fazendo de cada carta uma pincelada literária, assim como que antevendo a sua futura publicação.

Numa coisa estiveram de acordo. No desacordo quanto à capa do torrejano Luís Filipe de Abreu para a reedição de “Páscoa Feliz”, mas que nem um nem outro ousaram assumir rejeitar “… não gosto da capa, nem ninguém aqui gosta, mas aceitámo-la porque de cada vez que há discussão com o Luís Filipe, há zangas e quase corte de relações…” (3).

Estas (in)confidências, à velha maneira anglo-saxónica serão sempre um eterno problema. Qual a fronteira entre a ética e a devassa? Tudo isto está publicado, basta um pouco de tempo, estado de alma ou espírito para a coisa.

Talvez por isso continue pelas entrelinhas que, se não valem mais que uma obra, valem ao menos o tempo de perceber que o pequeno-grande Miguéis, com Saramago, os Reis e Abreu, tropeçou por estas bandas.

 

Notas:

1 – Seara Nova Nº 29, Janeiro 1924

2 – “O Diabo” – 20 Janeiro 1935

3 – “Correspondência 1959-1971”, José Rodrigues Miguéis – José Saramago

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Nasceu em Portalegre, em 1956, em dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Mais monge que missionário, é alfarrabista no centro histórico de Torres Novas. Vai escrevinhando por aí, nomeadamente no blogue "o tom da escrita" e é seu o livro “Crónicas Com Preguiça”. E continua a pensar que “não pode um país estar melhor se a sua gente está pior e apenas lhe resta ir colhendo a flor da dúvida, bem me quer, mal me quer...”

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