José-Alberto Marques: “A minha ambição é sempre escrever o que não há”

José-Alberto Marques (Foto: mediotejo.net)

“NARRATIVYLÍRICA”, é este o título do mais recente trabalho do escritor José-Alberto Marques, considerado abrantino, embora nascido em Torres Novas. Trata-se de um romance que é diferente de todos os outros romances alguma vez escritos, que integra alíneas nos diversos capítulos, que entrelaça a narrativa e a lírica, numa obra com várias personagens e “um jogo literário muito intenso”.

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Depois de ter sido apresentado, no passado mês de fevereiro, no maior festival literário português – o Correntes d´Escritas -, foi agora a vez de Abrantes receber a apresentação de “NARRATIVYLÍRICA”, que aconteceu esta terça-feira, dia 3 de maio, na Biblioteca Municipal António Botto e que esteve a cargo de José Alves Jana e de Francisco Lopes.

O mediotejo.net falou com o escritor e poeta José-Alberto Marques, 76 anos, antes da sessão de apresentação em Abrantes do seu novo romance.

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“NARRATIVYLÍRICA”: porquê? Segundo esclareceu José-Alberto Marques, “eu sou uma pessoa que me identifico muito com uma corrente literária em Portugal que se intitula poesia experimental. Evidentemente, também os próprios romances que tenho escrito têm sido livros que têm todos eles uma marca de natureza experimental”.

“Lembro-me de ter publicado um livro (“Sala hipóstila”) em que uma das páginas era um espelho, isso quer dizer que o próprio leitor entrava no próprio romance como personagem e penso que isso não foi feito em parte nenhuma do mundo”, recorda o autor remetendo para um outro romance seu “que se tratava de um conjunto de pessoas que queriam fazer uma revolução em Portugal e meteram-se num carro para ir fazer essa revolução e fizeram todo o caminho até Lisboa sempre em marcha atrás e evidentemente que as coisas ficaram sempre todas ao contrário”.

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“A minha ambição é sempre escrever o que não há, é sempre buscar na escrita qualquer coisa que nunca pudesse ter sido apresentado ou feito em qualquer parte do mundo”, refere José-Alberto Marques.

Com o seu “NARRATIVYLÍRICA”, “eu tentei captar o título deste livro, não pelas palavras em si, mas pela estrutura linguística do próprio livro, o título quer dizer que eu também me preocupei fundamentalmente com o desenho de que o livro tivesse uma narrativa mas também é acompanhada essa narrativa sempre por um determinado texto chamado lírico e daí eu ter entrelaçado os dois”, explica José-Alberto Marques.

José-Alberto Marques com o seu novo romance "NARRATIVYLÍRICA" que foi apresentado esta terça-feira, dia 3 de maio, na Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes (Foto: mediotejo.net)
José-Alberto Marques com o seu novo romance “NARRATIVYLÍRICA” que foi apresentado esta terça-feira, dia 3 de maio, na Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes (Foto: mediotejo.net)

“Quem leia o livro, pode fazer uma pausa e dar consigo próprio a ler um poema longo, sem dar por isso, simplesmente não é um poema vulgar, não tem rima, é mais uma parte do próprio texto, digamos prosa poética assim chamada nos cânones da literatura”, refere o autor.

No início do livro, José-Alberto Marques colocou uma frase do escritor francês Albert Camus: “Paralelamente devo perguntar a mim próprio: uma obra absurda será possível?”. Pergunta essa à qual José-Alberto Marques afirma que sim, “que realmente a obra absurda é possível”.

E a “NARRATIVYLÍRICA” “tem elementos que vão comprovar isso”, afirma o autor, referindo que, neste livro, os capítulos têm sempre “várias alíneas”. “Eu aproveitei isso para situar o leitor nos dados fundamentais que cada um dos capítulos encerra com as suas referidas alíneas que não é normal aparecerem num romance”, refere o escritor.

“O livro não pretende ser maçudo e por isso não é muito grande, exatamente porque tem um jogo literário muito intenso de leitura mas conta uma ou várias histórias porque tem uma ou várias personagens, aliás, tem variadíssimas personagens, desde a personagem principal da obra que é um senhor que se intitula Coronel, outras dizem que é Tenente Coronel, há quem diga se seja Sargento, há quem diga que é só Oficial, há quem diga que seja Alferes, mas este homem nem nunca foi à tropa e é casado com uma mulher muito rica de quem vive às custas, dava altos jantares aos seus amigos e as pessoas tratavam-no consoante o momento”, refere José-Alberto Marques.

E conclui com a expressão: “Este livro pertence ao mundo imaginário do absoluto, quaisquer leituras relativas são pura ficção do leitor”.

“Autor notável da poesia experimental em Portugal”

Para José Alves Jana, a quem coube a apresentação de “NARRATIVYLÍRICA”, este é um livro que “desafia a que o leitor construa – construa por si – as ligações que, para si, fazem sentido”.

José Alves Jana, José-Alberto Marques e Francisco Lopes durante a apresentação do livro "NARRATIVYLÍRICA" (Foto: mediotejo.net)
José Alves Jana, José-Alberto Marques e Francisco Lopes durante a apresentação do livro “NARRATIVYLÍRICA” (Foto: mediotejo.net)

“Este livro não está escrito, está apenas começado”, referiu Alves Jana dizendo que “o leitor tem de escrever ou tecer as linhas de construção desta narrativa e lírica que o autor entrega ao leitor para que o leitor se faça escritor ao ler o livro”.

Ao mediotejo.net, José Alves Jana definiu José-Alberto Marques como ”um autor de vanguarda, é um autor notável da poesia experimental em Portugal” e que este “NARRATIVYLÍRICA” “é um livro de vanguarda, experimental, não é um daqueles romances que se leem ao serão para ocupar o tempo, é um exercício de leitura em que o leitor é convidado a reescrever o livro com o autor. Quem vem aqui à procura de um puro entretenimento, deve de ir procurar a outro lugar porque este é um livro para fazer um exercício de leitura, para aprender a ler e para aprender a descobrir um autor que é hoje um clássico no sector da literatura portuguesa e para quem não o conhece, convém descobrir”.

“É um autor ousado na estrutura, na forma de escrita, ousado na forma como constrói a sonoridade dos seus textos, é um autor que reconstrói sempre aquilo que é a tradição da escrita, autor de vanguarda porque procura sempre novos caminhos, novas formas, é um autor que por isso mesmo convida o leitor à descoberta de uma nova escrita, de uma nova literatura”, descreve Alves Jana.

José-Alberto Marques é autor de um poema chamado “Zara”, que tem como tema a cidade e o concelho de Abrantes, e que Alves Jana informou que “irá ser representado neste ano de centenário”.

Por sua vez, Francisco Lopes, diretor da Biblioteca Municipal António Botto, durante a apresentação do livro, começou por salientar que José-Alberto Marques “é um cavalheiro como já não se usa, é frontal e essa frontalidade faz falta porque ajuda a pensar”.

Maria do Céu Albuquerque, presidente da Câmara Municipal de Abrantes, e os vereadores Luís Dia e João Gomes estiveram na apresentação do livro de José-Alberto Marques (Foto: mediotejo.net)
Maria do Céu Albuquerque, presidente da Câmara Municipal de Abrantes, e os vereadores Luís Dias e João Gomes estiveram na apresentação do livro de José-Alberto Marques (Foto: mediotejo.net)

“Ainda antes de o conhecer, nos anos 70, ouvia falar de José-Alberto Marques como sendo um professor especial da Escola D. Miguel de Almeida, em Abrantes, que colocava os seus alunos a fazer teatro de fantoches e lembro-me de o ver no Pego numa destas sessões de teatro”, recordou Francisco Lopes.

Mas foi através do livro “Sala hipóstila”, de José-Alberto Marques, que Francisco Lopes teve o primeiro contacto com a obra deste autor, um livro que define como sendo “um longo proso poema que me surpreendeu pela sua técnica narrativa”, para além de ter a particularidade de ter, numa das páginas, um espelho que transporta o leitor para dentro do livro.

Ao médiotejo.net, Francisco Lopes referiu que “em termos literários, José-Alberto Marques é um nome incontornável das correntes experimentais da literatura portuguesa, da poesia e da prosa, ele é talvez o primeiro autor português a publicar um poema concreto ainda nos anos 50, é autor de uma antologia da poesia concreta em Portugal com o Ernesto Melo e Castro publicada em 1973, é um nome brilhante das letras portuguesas”, salientando no então que “não é um nome para massas enormes de leitores, mas como eu costumo dizer, em cultura nem tudo é o Tony Carreira, não é pela quantidade dos seus leitores que tem de se apreciar a obra de José-Alberto”.

“José-Alberto Marques é um autor difícil – com algumas exceções porque tem inclusive obra infantil premiada, como é o caso do “A Magia dos Sinais” -, as suas obras são por vezes difíceis de ler, são absolutamente experimentalistas, quer do ponto de vista dos grafemas, do aspeto gráfico das palavras, quer do ponto de vista dos sons, dos fonemas, há toda uma semântica complexa que ele cria e recria constantemente, é um autor, do meu ponto de vista, de um lirismo extraordinário, mesmo quando se trata de prosa”, descreve Francisco Lopes.

“É um nome incontornável. José-Alberto Marques, António Botto e Edmundo Curvelo são para mim os maiores autores abrantinos do último século e integram-se no lote dos maiores autores portugueses do último século”, refere Francisco Lopes que avança que estes três autores vão integrar a exposição “100 anos de autores abrantinos” que inaugura esta sexta-feira, dia 6 de maio, na Biblioteca Municipal de Abrantes.

Na próxima sexta-feira, dia 6 de maio, é inaugurada a exposição "100 anos de autores abrantinos", na qual José-Alberto Marques estará incluído (Foto: mediotejo.net)
Na próxima sexta-feira, dia 6 de maio, é inaugurada a exposição “100 anos de autores abrantinos”, na qual José-Alberto Marques estará incluído (Foto: mediotejo.net)

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