João “Espanhol”, o eterno trovador de Torres Novas (C/ Vídeo)

Na semana em que é avançada a noticia de que a Casa Espanhol vai encerrar portas ainda este ano, recordamos a entrevista realizada pelo mediotejo.net a João “Espanhol”, o último grande trovador de Torres Novas, publicada inicialmente em janeiro de 2016.

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João José Lopes, 86 anos, João “Espanhol” para os amigos. Nascido e criado em Torres Novas, cantador de serenatas e vencedor ribatejano do programa “À Procura de uma Estrela”, de 1953. Comunista de filiação, guerreiro de coração, pois a vida foi uma luta contra a pobreza e a justiça social é um bem pelo qual se deve dar a alma. Vocalista durante 50 anos do Grupo Niger, que correu o país a dar nome a Torres Novas. Hoje fica-se pela loja de ferragens, o mais antigo negócio da cidade torrejana. Mas ainda sabe cantar serenatas!

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Não tem nada que enganar. A loja de ferragens “João “Espanhol” fica atrás do Banco Santader, perto da Praça 5 de Outubro. Negócio local com 90 anos, criado pelo pai galego de João Lopes nos anos 20 do século passado, quando chegou a Portugal fugido do General Franco. O sobrenome era “Lopez” – sim senhora! – mas na escola o professor puxava-lhe as orelhas e mandava-o escrever Lopes como deve ser…  Aportuguesou-se a coisa, paciência! Já a Casa ficou sempre “Espanhol”. E da naturalidade ninguém duvida.

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João “Espanhol” possui uma loja de ferragens em Torres Novas com cerca de 90 anos de história

Espaço com história, pois é de História que falamos, percorremos pelas paredes os rostos sorridentes de Álvaro Cunhal, Fidel Castro e Jerónimo de Sousa. Por baixo fotografias – imensas fotografias – da profícua carreira musical de João Lopes, pictogramas a preto e branco de uma época dourada da música ligeira, onde todos os rostos pareciam de porcelana e a arte era uma romance pelo qual os jovens se apaixonavam.

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Foi assim que começou, afinal. Com João “Espanhol” a entoar serenatas à janela das donzelas, a dele e a dos outros, por mote próprio ou por encomenda (“foi com uma serenata que ele me amarrou”, comenta a esposa de um canto da sala). Por vezes pegava na guitarra e cantava uma serenata sozinho. “Tornaram-se convívios”, explica João Lopes, lembrando o tempo em que à volta das suas artes de trovador se juntavam pequenas plateias (“não havia televisão”, torna a rematar a esposa, entre risos).

Mas a vida nem sempre foi romântica. Com sete anos, João e os irmãos são expulsos da escola. É por aqui que a história da vida de João “Espanhol” começa. Um episódio marcante que ainda hoje recorda com mágoa. Conta que acusaram a mãe de ter lepra e que foi o Estado que os mandou tirar da escola. Os irmãos ainda procuraram continuar alguns estudos em Mira D’aire, mas João Lopes ficou-se pela 3ª classe. A mãe era doente, nem ele próprio sabe dizer bem o que ela tinha. “Ninguém quis saber…”, recorda. “É um desgosto que eu tive. No palco, quando cantei o Avante, foi em jeito de luta”, comenta, relembrando a cerimónia municipal em que recebeu uma medalha e começou a cantar para a plateia.

Nem todos terão gostado da brincadeira, mas assim é João “Espanhol”: um lutador, que não abdica de o demonstrar. Com 11 anos, o pai morre na sequência de uma cirrose. A loja de amolar fica então ao encargo dos filhos. Teimoso, João queria trabalhar, queria aprender. Ainda hoje se recorda daquele fatídico dia em que um Comandante da Escola Prática de Cavalaria ali foi deixar uma navalha para afiar. Disse que sim, que o trabalho estava garantido. Afiou a navalha até…já não haver navalha. Foi a mãe que, entre choros, pediu desculpa à alta patente. A história por ali ficou, mas João Lopes nunca esqueceu a vergonha. “Continuei a fazer asneiras à mesma”, reconhece, mas acabou por aprender com outro espanhol que por ali marcou paragem. “Vivíamos com dificuldades, não pagávamos a renda. Comecei a fazer o que era possível.”

A Música e o Partido

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Álvaro Cunhal, Jerónimo de Sousa ou Fidel Castro preenchem as paredes da loja de João “Espanhol”, junto das fotografias da sua longa carreira musical, ao lado do Grupo Niger

“O meu pai era uma ponte de passagem de espanhóis fugidos da Guerra Civil”, conta. Teve inclusive um primo que, tendo passado por Torres Novas e sido denunciado pela Legião Portuguesa, acabou fuzilado em Badajoz. “Torres Novas foi uma terra muito sacrificada no Estado Novo, houve presos em massa da minha idade. Fazíamos reuniões onde líamos os cadernos de um Padre brasileiro e cada um interpretava”, refere, não se conseguindo lembrar quem era o autor desse cadernos. “Falava sobre os direitos das pessoas, de viver…”

Nos seus 16/17 anos, todos os seus amigos foram presos. João Lopes ia para a rua fazer serenatas e acabou por afastar-se da imagem de opositor do regime. “Só depois do Humberto Delgado é que me tornei mais ativo”, refere, acabando por aderir ao Partido Comunista quando este se oficializou. É o sócio nº 88034. “Uma vez, num congresso em Aveiro, em 1969, fugimos da polícia. Não levei, mas a minha mulher ainda levou uma bastonada”, lembra rindo (“doeu-me bem”, sussurra a esposa no fundo da sala).

Por esta altura, João Lopes já participara no concurso de rádio “À procura de uma estrela”, tendo vencido a edição nacional, depois de ter conquistado a mesma vitória a nível distrital. Como concorrência tinha a jovem fadista Lídia Ribeiro, recorda. O programa foi cancelado pouco tempo depois por motivos políticos e os concorrentes ainda foram à Assembleia da República contestar. “Sujeitámo-nos a muito”, disseram-lhe depois.

“Não queria ser cantor profissional”, reconhece João Lopes. Mas regressado a Torres Novas, em 1955, recebeu o desafio de um amigo para formar um grupo musical. Assim nasceu o Grupo Niger! “Foi um grupo que deu muita alegria aos torrejanos”, lembra o vocalista, salientando que chegaram a atingir muito boa qualidade e que muitos se admiravam daquele grupo ser oriundo de Torres Novas. Percorreram o país, atuaram em casinos e festas e mantiveram-se no ativo durante 50 anos. “Não era o fim que desejava”, comenta, lembrando que o grupo terminou e se dividiram os instrumentos, quando João Lopes gostaria que tivesse continuado com gente nova.

A loja de ferragens

Com 86 anos, João Lopes permanece agora com a sua loja, «João “Espanhol”», com o epíteto merecido de estabelecimento mais antigo de Torres Novas. O fim das tipografias enfraqueceu o negócio, mas a luta continua e os braços nunca param de trabalhar. “Consigo ter aqui muitos amigos”, refere com orgulho, sendo a loja um ponto de paragem, de conversa e notícias do que se vai passando na cidade.

“Já atingi o que gostava de atingir”, reconhece com humildade, querendo apenas continuar a ver o seu espaço aberto e os amigos a aparecer. Torna a lembrar a mãe, que pensava que em miúdo tinha a ajuda de outra pessoa para amolar as ferramentas que traziam à loja. “Eu queria fazer tudo”, torna a afirmar com nostalgia. “A minha ambição era manter a família e não dever nada a ninguém”…

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Esta é a história do último grande trovador de Torres Novas.

 

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2 COMENTÁRIOS

  1. Em meados dos anos 50 pertenci à «terúlia» frequentada por João Espanhol, Canais Rocha, mais dois Canais gémeos, outro Canais tipógrafo, Simões da loja de fotografias, António Peitaça e outros cujo nome já não recordo.
    Foi em Torres Novas que vivi a mocidade e tive dois amores frustrados que deixaram marcas.
    Sou algarvio mas Torres Novas é a minha terra de eleição.
    Gostaria de ser enterrado em Torres NOvas mas isso não será possível.

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