Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Quinta-feira, Agosto 5, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

“Japão”, por João Salvador Fernandes

A tarde, outrora radiante e soalheira, deslustrara-se com ameaços pluviosos de nuvens baças e negras acabadas de se fazerem anunciar. O cerimonial fotográfico, praxis típica das ocasiões institucionais, terminara recentemente; e o Senhor Presidente da República dizia adeus aos abrantinos, que qualificou de forças da natureza, depois de nos alegrar com a sua cativante presença e voz de afectos, durante a sessão de homenagem realizada no Teatro São Pedro. Celebrávamos o centenário da elevação de Abrantes a cidade, e o Chefe de Estado não nos falhou!

- Publicidade -

Sentiam-se os passos das gentes em debandada, entrecortados pelos vozeares de despedida, quando o interessado e curioso nipónico deu por si sozinho, olhando em redor. Apercebendo-nos de tão inusitado abandono, por se tratar de figura insigne das relações diplomáticas, eu, o Arquitecto António Castelbranco e a sua mulher, Oksana Turchanina, logo entabulámos conversa com o honrado Senhor Embaixador do Japão em Portugal. Azuma Hiroshi, retomando os velhos hábitos de uma velha e fecunda amizade, acedeu à interpelação cordial e retribuiu com cortesia.

De rompante, surgiu um audacioso convite, musicado em tons ucranianos, para beber chá na casa do senhor Arquitecto; e, de rompante também, foi aceite com avidez! Lá nos dirigimos, pisando aquelas pedras que conhecem o peso das vivências de Abrantes, até à rua Nova, com o propósito de disfrutarmos de um momento de união entre Ocidente e Oriente, tendo, desta vez, o arquipélago do Sol Nascente por visitante.

- Publicidade -

Enquanto o excelso emissário se maravilhava, de câmara em riste, com o lar dos Castelbranco, com o samurai cavalgante em disposição e com as experiências seculares ali acumuladas, fomos falando desse amical diálogo entre Portugal e o Japão, iniciado nos idos anos quarenta de mil e quinhentos; um diálogo que, ainda hoje, se manifesta num precioso legado cultural que raros traduziram e nos explicaram com a mesma sabedoria do Padre Luiz Fróis ou com o cuidado e a verve de Armando Martins Janeira ou Wenceslau de Moraes.

Os aromas alaranjados evolavam das cerâmicas chinesas até às nossas narinas, e a fluidez da infusão ondulava pelas nossas línguas, à medida que decorria o profícuo colóquio, sempre com menções a Hitoyoshi, cidade nipónica geminada com Abrantes, e à Mitsubishi, maior empregadora do Município, situada em Tramagal. O contentamento irrompia a cada palavra, por parte do Senhor Embaixador, que evidenciava a vontade de intensificar e adensar essa vetusta conexão de que me relembro amiúde, quando leio a lombada da edição do Tratado de Paz, Amizade e Comércio de 1860, firmado entre Portugal e o Japão, que descansa sobre uma das prateleiras da área da minha biblioteca que dedico ao país.

Não incorro em falsas modéstias, levo mais de uma década de estudo da cultura japonesa e aproveitei o acontecimento para, com entusiasmo, trocar impressões sobre temas diversos, como o Bakumatsu (período histórico que abrange os últimos anos do Xogunato Tokugawa, entre 1853 e 1867) ou o sumi-e (uma técnica de pintura oriental), buscando por uma melhor compreensão de realidades que o saber livresco nunca me oblatará­. Creio que houve comprazimento mútuo, porque fui ali invitado para a Festa do Japão, que sobreveio no pretérito dia de 18 de Junho, em Lisboa. Acedi, com gosto e algum arrebatamento.

Infelizmente, a diplomacia exige o cumprimento de tarefas protocolares, por isso, com o abeirar da hora da inauguração da estátua evocativa do centenário, interrompemos a nossa reunião vespertina, naquele terraço que afirmei ser um exemplo de yugen (um ideal estético que exalta a graciosidade na simplicidade). No trajecto para meu carro, visto que boleei o estimado Embaixador até à rotunda perto do quartel, percorremos ruas e ruelas do centro histórico da nossa urbe, que o inebriaram pela peculiaridade e beleza. Mantivemos a comunicação empolgada: eu quis inteirar-me sobre a prática corrente do Kemari (uma espécie de futebol que data do Século VII); e ele informou-me de que era a primitiva oportunidade que lhe fora ofertada para, verdadeiramente, descobrir Abrantes. Após o seu apeamento da minha viatura, terminámos o périplo com um simpático até breve, que pouco distou no tempo.

No dia 18 de Junho, respeitando o convite de Sua Excelência, desloquei-me ao espaço que albergou a Expo 98 e onde o matsuri (termo para festival tradicional) tomava corpo, com o intuito de saborear os matizes de um Japão moderno que continua fiel a hábitos e costumes milenares.

À chegada, antes de deparar com os automóveis em exposição, destacando-se o trio adamante da Mitsubishi, pude observar os adejantes koinobori – birutas, em forma de carpa, que descendem dos estandartes samurai – e constatei que o local e a decoração, com o plácido Tejo em jeito de sinuoso caixilho, despertavam um estado de espírito contemplativo. Contudo, o meu interesse incidiu, rapidamente, no palco edificado em madeira e no que sobre ele sucedia. Antes de me consignar ao entretenimento, porém, procurei pela banca da Embaixada Japonesa e pelo amigo de Abrantes: o Embaixador Azuma Hiroshi.

A pesquisa gerou frutos! Encontrámo-nos e cumprimentámo-nos! Reafirmámos o desejo de uma maior colaboração entre o Município de Abrantes e Akitsushima (topónimo arcaico do Japão, que pode significar Ilha Libélula), que beneficia já de laços estabelecidos por vínculos políticos e industriais que merecem fortificação.

O Senhor Embaixador, de importante hóspede a solícito anfitrião, via-se no dever de compartir atenções e de coordenar afazeres; e eu optei por não contribuir para o seu sobrecarregamento: havia que fruir das barriquinhas, dos produtos e dos espectáculos, muitos deles desempenhados por portugueses que, como eu, nutrem paixão por uma pátria fisicamente longínqua; todavia, emotivamente próxima. Degustei do rítmico e vigoroso tonitruar dos bojudos Taiko (tambores e instrumentos de percussão); assisti a demonstrações de Karate, musculadas, mas graciosas como a postura da garça; sorri ao som memorável das fue (flautas); horas de deleite e de aprendizagem que não se esquecem!

Omura Sumitada personifica, com exactidão, a descoberta recíproca que nos tem acompanhado a nós, japoneses e portugueses. Não só foi o primeiro Daimyo (senhor feudal) convertido ao cristianismo, como, em 1571, abriu o porto de Nagasaki ao comércio com os mercadores lusos. Naquele 18 de Junho, identifiquei-me com D. Bartolomeu, nome de baptismo de Sumitada, numa posição de conversão inversa. Saí do Parque das Nações enriquecido pelo Yamato-damashii, a alma do Japão, convicto de que essa anciã descoberta permanece viva e passará, de novo, por Abrantes!

Domo Arigato!

Natural de Alferrarede, Abrantes, João Salvador Fernandes é advogado e cronista de temas da actualidade e de cinema; é, também, um apaixonado pela cultura e a história japonesas, estudando-as há cerca de 15 anos. Gosta de escrever e versejar, já tendo publicado alguns poemas e textos de prosa poética. Nos tempos livres, dedica-se a jogos de expressão dramática (tabletop role-playing games).

- Publicidade -
- Publicidade -

1 COMENTÁRIO

  1. Você falou do Yamato. Isso me lembrou uma musica:
    saraba chikyuu yo tabidatsu fune wa
    uchuu senkan YAMATO

    uchuu no kanata ISUKANDARU e
    unmei seoi ima tobidatsu
    kanarazu koko e kaette kuruto
    te o furu hito ni egao de kotae

    ginga o hanare ISUKANDARU e
    harubaru nozomu
    uchuu senkan YAMATO

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome