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Quarta-feira, Outubro 27, 2021

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“Já não desconfiamos só da publicidade do lava mais branco”, por Hália Santos

Perante uma notícia de que alguém, candidato ou candidata, a um cargo de exposição pública, se apresenta, num qualquer site, blogue ou rede social, com um currículo com… digamos… inexatidões, já só podemos acreditar em anjinhos.

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No momento em que mais se fala em verificação das informações, acreditar que as informações disponibilizadas sobre alguém (sobretudo alguém que pode vir a assumir algum protagonismo) vão ser tidas como verdadeiras, mesmo que não o sejam, é como acreditar em criaturas doces sem maldade.

Então, se uma candidata à liderança de uma juventude partidária é apresentada como sendo detentora de um grau académico que não tem e como tendo nascido num ano que não nasceu… isso é… nebuloso. Porque os anjinhos andam nas nuvens.

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Claro que nestas coisas fica sempre muito por dizer. Sobretudo, porque parece pouco evidente que alguém, que viva com os pés assentes na terra e não nas nuvens, acredite que um currículo de alguém que quer vir a fazer carreira política não seja verificado pelos jornalistas.

Portanto, das três, uma: ou a candidata a líder da juventude socialista que protagonizou este episódio o fez deliberadamente (e vive nas nuvens e tem asas); ou alguém alterou o seu currículo por forma a ser mais consistente (pelo suposto grau de mestre) e mais dentro do que se esperava (para não estar no limite de idade) com o seu conhecimento; ou alguém alterou o seu currículo com qualquer outro objetivo sem o seu conhecimento. Qualquer dos cenários é mau.

Isto remete-nos para um mundo em que sérias dúvidas se levantam todos os dias: quem diz a verdade? Mais ainda: até que ponto é que aquilo que se diz sobre um qualquer indivíduo é verdade. Já não é novo, mas cada vez mais se agudizam estas questões. Até porque as consequências de uma falsa informação são imprevisíveis. No limite, pode ser a morte antes mesmo da nascença. Sobretudo no caso de alguém que se candidata a um cargo que espera que venha a ser a plataforma para toda uma carreira: se um documento de apresentação é divulgado com incorreções, a reputação da pessoa fica não só beliscada, como deverá ficar ferida de morte. Mesmo que a responsabilidade não tenha sido sua, mesmo que essas informações falsas tenham sido divulgadas sem o seu conhecimento, o certo é que a opinião pública, nestes casos, pouco se preocupa com as explicações sobre o que se passou. Qualquer coisa que se diga, soa sempre a falso.

Estamos, pois, numa era em que a verdade e a mentira, o certo e o errado ou o bem e o mal se confundem sem grandes possibilidades de esclarecimentos rigorosos.

O excesso de informação, os casos incontáveis de mentiras que se prolongaram no tempo e de outras que imediatamente se detetaram são tão frequentes que a desconfiança é certamente o sentimento mais corrente entre a opinião pública. Estamos perdidos em inundações de verdades, semiverdades, pseudoverdades, quaseverdades, nãoverdades e não as conseguimos destrinçar.

Por isso, desconfiamos. Já não desconfiamos só da publicidade do lava mais branco. Já não desconfiamos só dos títulos sensacionalistas. Desconfiamos de tudo. E isto não é bom.

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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