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Sexta-feira, Dezembro 3, 2021
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“Iria, Deusa das Águas”, por Aurélio Lopes

É por demais conhecida a lenda da mártir Iria, jovem e formosa, alvo de lascivos e doentios desejos, vilmente assassinada e lançada às águas, que a transportaram carinhosamente nos braços até fundear frente a Scálabis, onde permanece ainda hoje num ignoto (mas, por isso mesmo, ainda mais maravilhoso) túmulo de alabastro, construído, com certeza, pelas potências celestes e escondido do mundo pelas águas protetoras do Tejo.

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Resistindo a todos os esforços para a deslocar, a mesma manifestou assim, de forma indubitável, o desejo de aí continuar, justificando portanto, em sua honra, a renomeação da velha urbe, de Scálabis para Santa Iria ou Santa Irene.

Igualmente em sua honra, diz ainda a lenda, D. Dinis mandou erguer sobre o túmulo (pela última vez mostrado, a rogo da “Rainha Santa”) um consagratório padrão que, dois séculos e meio depois, a Câmara de Santarém terá mandado revestir de cantaria, colocando no seu topo a “imagem” da Santa, ainda hoje, aí, alvo de devoção popular.

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Dela, diz a crença popular, que se as águas das cheias alguma vez lhe chegarem aos pés… o mundo acabará!

Na verdade, enquanto simbólica de todas as hilogenias, a imersão equivale no plano humano à morte e, no plano cósmico, ao dilúvio, que dissolve periodicamente o mundo no oceano primordial.

Faceta que é, afinal, de uma natureza imprevisível. Uma faceta violenta e radical, com certeza, mas que “não destrói senão as formas esgotadas e consumidas”.

Na verdade, a imersão não corresponde, nunca, a uma extinção definitiva: apenas a uma reintegração passageira no indiferenciado, à qual se sucede, inevitavelmente, uma nova existência – seja biológica, seja virtual ou soteriológica.

Pois a cada uma destas destruições de uma velha realidade, segue-se sempre um novo período, uma nova era, um novo Homem!

Porque o “novo” provém do “velho” e a sua eclosão pressupõe a morte prévia do degenerado, do desgastado.

As lendas diluvianas consubstanciam, portanto, a essência mítica da regeneração cíclica, modelo de revitalização das energias cósmicas, que o regresso ritual e cíclico ao limbo primordial permite acontecer.

Princípio do aleatório, as águas precedem a criação, reintegrando-a depois periodicamente por absorção, fundindo-a temporariamente no caos niilista, donde há-de emergir renovada, entenda-se recriada.

Desintegrando as formas, abolem a história (isto é o passado) possuindo deste modo as virtudes do esquecimento e capacidades de purificação e renascimento.

Quem delas emerge, transforma-se numa nova entidade. Pura, isenta de pecados, rejuvenescida.

Ciclicamente, como acontece no batismo! Ou de uma forma mais perene e prolongada.

A imersão mítica e dramática de Iria irá dotá-la, portanto, de uma nova natureza. Renascendo numa outra dimensão, próxima, agora, da esfera do divino!

Resultando de um drama de inimaginável violência (assim se potenciando a intensidade energética própria dos tempos de transição), esta adquire os atributos de uma divindade das águas, logo da regeneração e da fertilidade, naturalmente dos campos e da agricultura.

Preside e regula as “cheias” que ciclicamente arrasam os campos e os fertilizam, que destroem e criam, num contexto operatório e, inclusive catársico, da morte/renascimento.

Aliás, as antigas divindades da agricultura ou da fertilidade (como Cibele, Afrodite, Deméter, Atenas ou Prosérpina) com as valências lunares fortemente ligadas, presidiam quase sempre aos ciclos vitais da natureza e deste modo, aos grandes mecanismos do devir cósmico, muitas vezes cataclísmicos, algumas vezes apocalípticos.

Outras como Tétis ou Nereu, Escamandro ou Aqueloo, constituíam verdadeiras divindades das águas e dos rios, das fontes e dos lagos.

Mas serão as ninfas (chame-se-lhes nereides, náiades, tágides, sereias ou ondinas) divindade menores e mais próximas de uma dimensão popular, que neste contexto serão consideradas como particularmente perigosas, já que seduzem e iludem com cantares enganadores (tanto adultos, como crianças), os quais arrastam irresistivelmente para si e levam, inexoravelmente, à morte.

Situação a que não serão alheias, com certeza, as tradicionais mortes por afogamento (noutros tempos bem mais frequentes) em rios, poços e lagos. Em que remoinhos e lodos sugavam corpos e membros e emaranhados de trancos depositados nos fundos se agarravam aos pés quando, aflitiva e desesperadamente, se lutava por vir à superfície.

Seja como for, na intensa simbologia das epifanias das águas que os mais diversificados mitos cosmogónicos deram corpo (e os batismos cristianizaram) todas estas divindades nascem das águas onde, aliás, permanecem usualmentes.

Também Iria imerge e posteriormente emerge das águas, junto a Santarém, desta forma não só optando por uma tutorização primeva, que tempos posteriores diluíram, mas igualmente renascendo, agora já como potestade meteorológica.

Assim, a santa mártir, cujo drama existencial potencia a regeneração, adquire atributos de imortalidade por transubstanciação: diluída nas águas, com estas se funde, numa supressão de formas e lembranças.

Desumaniza-se. Torna-se divina!

Transforma-se, assim, num elemental das águas, qual “ondina”, eterna e intemporal, supostamente benéfica na dimensão assumida de divinização cristã.

Afinal, o tal túmulo de alabastro, pode ser visto como a perspetivação da residência aquífera de uma divindade cristã que, sob as águas repousa, mas que, como todos os santos e santas, se mantém viva e atuante.

Neste caso, aliás (como acontece igualmente, por exemplo, com São Torcato ou São Gonçalo), numa dupla e evidente valência: enquanto “imagem” e foco devocional e enquanto corpo/relíquia, que nem por ser existencialmente mítico e ignoto perde, afinal, a sua dimensão arcana e operativa.

Mesmo que não se manifeste! Não se revele em episódios mais ou menos hierofânicos.

Mesmo quando contingências de uma vivência fluvial, pouco impetuosa, vão deixando o pedestal fora do leito do rio.

Apesar de tudo, está lá. Vigilante.

Respondendo aos milenares apelos das populações ribeirinhas na apaziguação dos impulsos, quantas vezes violentos, de uma natureza nem sempre serena e aprazível!

E embora virada de frente para a cidade que escolheu tutorizar e em grande parte a ignora, Iria, Senhora das Águas, é vista pelas populações como catalisando, ainda, a fertilidade dos campos que as cheias cíclicas fertilizam, mas impedindo as mesmas de assumirem, afinal, contornos catastróficos.

Marca, assim, os limites da regularidade, a partir do qual o caos impõe a sua vontade. Assinalando, em última instância, o fim de uma Era e, o sequente, início de outra.

Investigador universitário na área da cultura tradicional, especialmente no que respeita à Antropologia do Simbólico e à problemática do Sagrado e suas representações festivas, tem-se debruçado especialmente sobre práticas tradicionais comunitárias culturais e cultuais, nomeadamente no que concerne à religiosidade popular e suas relações sincréticas com raízes ancestrais e influências mutacionais modernas. É Licenciado em Antropologia Social, Mestre em Sociologia da Educação e Doutorado em Antropologia Cultural pelo ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa.

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