“Iremos juntos sozinhos pela casa”, por José Rafael Nascimento

Ilustração de Alexander Mostov

“O belo dia liso como um linho / Interminável será sem um defeito / Cheio de imagens e conhecimento.”
– Sophia de Mello Breyner Andresen

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Com a crise pandémica declarada e o estado de emergência decretado, muito se tem falado sobre os problemas conexos que começamos a enfrentar, designadamente em matéria de abastecimento alimentar e não-alimentar, serviços básicos e de emergência, emprego, negócios, pagamentos à Banca e ao Estado, etc. As implicações directas e indirectas ainda estão a ser recenseadas, mas tudo parece ser essencial e estar para durar um tempo impossível de prever.

Contudo, já com as escolas encerradas e grande parte da população a cumprir a orientação de recolhimento domiciliário, pouco se tem falado dos desafios pessoais e familiares em matéria de estabilidade psíquica e social. Ela é fundamental para lidar com a crise, ou não fosse todo o nosso comportamento controlado pela mente e psicologicamente determinado pelas funções cognitivas e emocionais.

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Preocupada com o stress que a crise gera na população mundial, a Organização Mundial de Saúde (OMS) produziu um conjunto de recomendações visando promover o bem-estar mental e psicossocial das famílias. A primeira delas vai no sentido de não estigmatizar as pessoas com COVID-19, rejeitando-se a associação deste surto a qualquer origem nacional ou étnica específica e pedindo-se empatia, compaixão e entreajuda nas comunidades, discriminando-se positivamente os mais vulneráveis.

Outra recomendação refere-se à carga noticiosa que cada um é capaz de suportar, evitando o stress da sobrecarga de informação e rejeitando as fontes de credibilidade duvidosa que apenas servem para aumentar as dúvidas, a ansiedade e o medo. Em caso de partilha de informação com outros, a OMS sugere que se dê prioridade a notícias positivas, por exemplo de recuperação de doentes, de acções solidárias na comunidade e de apoio aos profissionais de saúde.

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As redes sociais são, nesta pandemia, o nosso refúgio comunitário, o nosso “Planeta B”. Ilustração de Lucas Varela/FT

O espaço virtual é hoje o nosso refúgio comunitário, o nosso “Planeta B”. Apesar de nem sempre usado com ética e sentido de responsabilidade, ele oferece muito mais vantagens do que desvantagens, não sendo avisadas nem aceitáveis as opiniões que defendem o seu silenciamento. É através das redes ou média sociais que a boa informação pode chegar rapidamente a grande parte da população, que muitas iniciativas de rastreio e apoio comunitário podem ser organizadas, e que as famílias e amigos podem interagir e apoiar-se mutuamente.

Em período de crise, importa estar atento ao estado emocional e às necessidades próprias e dos que nos rodeiam, a nível familiar e da comunidade. Devem ser planeadas actividades físicas e mentais que favoreçam a condição física e anímica, e satisfaçam as necessidades sociais, culturais e de entretenimento, respeitando o recolhimento e distanciamento exigidos pela ameaça pandémica. O sentimento de confiança e a convicção na superação da crise, sem falsas expectativas, devem ser mantidos em patamar elevado.

A nível de bairro ou aldeia, é importante que haja espírito comunitário e de entreajuda, não deixando de se cumprir todas as orientações das autoridades, sanitárias ou outras. Se os mais idosos – bem como as pessoas com doenças crónicas, incapacitadas ou portadoras de deficiência – constituem um grupo de risco especialmente vulnerável e, por isso, requerem uma protecção física mais atenta e cuidada, as crianças devem merecer uma particular atenção do ponto de vista sócio-emocional.

Assim, a OMS recomenda que as crianças devem ser incentivadas a expressar os seus sentimentos num ambiente familiar e protector, de forma lúdica e criativa, por exemplo através do desenho, dos jogos e das brincadeiras, incluindo ao ar livre. As rotinas devem ser mantidas, introduzindo-se novas rotinas se as circunstâncias o exigirem. Os fins-de-semana deverão ser diferenciados dos outros dias, como normalmente acontecia.

É essencial manter o espírito de comunidade e a atenção aos nossos familiares, amigos, colegas e vizinhos. Ilustração de Rose Wong

Recorde-se que as crianças observam atentamente as emoções e comportamentos dos adultos, em busca de pistas para si próprias e que, em momentos de incerteza e instabilidade, é natural que procurem maior atenção, afecto e interacção com os pais, avós ou outros cuidadores. Perante as dúvidas e receios das crianças, os adultos devem ser pacientes e honestos nas respostas e esclarecimentos, adequando a linguagem à capacidade cognitiva das mesmas.

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A relação com os mais idosos deve também merecer, em períodos de crise, maiores cuidados, uma vez que estes podem revelar-se mais agitados, ansiosos, irritados ou alheados. Importa que sejam contactados com frequência (mantendo o obrigatório distanciamento social) para saber do seus estado de saúde e anímico, bem como das suas dúvidas e necessidades. É importante que não se sintam esquecidos e abandonados à sua sorte.

As pessoas idosas devem ser tratadas com respeito, paciência e de forma adulta, sendo-lhes dadas informações e explicações de uma forma simples e repetida, reduzindo-as a escrito quando necessário. As práticas higiénicas e medicamentosas devem ser instruídas de forma prática e rotineira, e a mobilidade e o exercício regular (físico e mental), incluindo actividades ao ar livre e em jardins, devem ser estimulados, assim como a hidratação. 

O recolhimento domiciliário determinado pelo Estado de Emergência obriga hoje as pessoas a permanecerem mais tempo no ambiente familiar (se não viverem sozinhas), relativamente isoladas dos amigos e colegas com quem, não raramente, interagem diariamente durante muito mais horas. Não devem permanecer em pijama, nem quebrar as rotinas de higiene e alimentação. Podem ocupar o tempo em teletrabalho, o que não é fácil para quem não está habituado e tem crianças em casa, ou noutras actividades instrutivas e prazenteiras que não sejam viciantes (redes sociais, videojogos, etc.). 

Perante o inimigo externo que a todos ameaça, a resposta das famílias deve ser de união e entreajuda, adaptando-se às novas circunstâncias. Ilustração de Chelsea Beck/NPR

Ao ficarem mais tempo juntos, os membros das famílias vão ter de aprender a gerir as relações num contexto que é agora de maior proximidade, incerteza e ansiedade. Ora, sabendo-se como a gestão da distância social (proxémica) – espacial e temporal – constitui um instrumento essencial para a manutenção das relações a níveis saudáveis, ou pelo menos suportáveis, a imposição da permanência em casa pode desencadear níveis de stress e conflito muito elevados, comprometendo gravemente as relações no casal ou entre pais e filhos.

Importa ter consciência do problema e agir com realismo (e uma boa dose de tolerância). Mesmo ao nível do lar, é possível fazer alguma gestão do distanciamento social, negociando regras de comportamento que sejam aceites e cumpridas por todos. Uma vez que as emoções são contagiosas e o “comportamento gera comportamento”, cada um dos membros da família deve ser mais proactivo do que reactivo, contribuindo assim para que as respostas dos outros sejam mais positivas.

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Entabule conversas abertas e amenas, valorize temas de mútuo interesse e concordância, sugira actividades em conjunto que ambos adorem, dê abraços imprevistos ou em determinados momentos do dia,  reflicta e escreva sobre aquilo a que está grato e imagine como alguém de fora observaria as relações entre os membros da família. Em suma, procure atrair os pensamentos positivos e afastar os negativos, olhando para o recolhimento domiciliário como uma oportunidade para fazer coisas novas e de que se gosta, e não como uma molesta reclusão e privação.

Este período difícil vai ser superado e as nossas vidas retomarão o seu curso normal. Esta pandemia, com o impacto que revela, é um acidente global e geracional raramente acontecível. Não permitamos que alguns se aproveitem dos nossos legítimos receios para pôr em causa os avanços civilizacionais que a humanidade duramente já alcançou. Temos de a encarar com relativa naturalidade, não deixando de tirar dela as lições que nos permitam evitar a sua repetição ou enfrentá-la com maior capacidade. Todos juntos, numa sociedade unida, confiante, democrática e solidária.

Termino com este belo poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, desejando a todos uma rápida superação das dificuldades, com muita saúde e força anímica.

IREMOS JUNTOS SOZINHOS PELA AREIA

Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.

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As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.

O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.

Sophia de Mello Breyner Andresen | “No tempo dividido”, 1954

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico

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