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Terça-feira, Agosto 3, 2021

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“Invocação de Santa Margarida contra os dragões e causas difíceis”, por Patrícia Fonseca

Aos devotos de Santa Margarida pede-se hoje que tenham fé na Ciência. Crónica sobre a lenda da "Santa das causas difíceis", no dia em que a população desta freguesia de Constância teve de cancelar as festas em honra da padroeira e se alinha nas ruas numa procissão mais silenciosa e triste, para fazer testes de covid-19.

O Dia de Santa Margarida celebra-se a 20 de julho, mas a população desta freguesia de Constância teve de cancelar as festas em honra da sua padroeira, orago daquela localidade pelo menos desde o séc. XVII. A Santa não saiu em procissão, ficou também “fechada em casa”, em virtude destes tempos pandémicos.

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Mas se há ano em que o povo precisa que Santa Margarida lhes valha é este. Afinal, mantém-se viva a sua lenda há quase dois mil anos por ser considerada a Santa das “causas difíceis”.

Conta a tradição que Margarida de Antioquia (cidade crucial na difusão do Cristianismo, no Império Romano, hoje parte da Turquia) contrariou o pai e preferiu o trabalho duro nos campos a casar com um rico pretendente que a obrigaria a renunciar à fé cristã. Terá sido espancada e torturada publicamente sem um queixume, acabando por ser decapitada no ano 304, quando tinha apenas 15 anos.

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Depressa se espalhou pelo mundo a lenda da virgem de inabalável fé em Jesus que foi engolida por um dragão, mas conseguiu rasgar caminho com um crucifixo que tinha na mão e sair incólume da barriga do monstro.

Santa Margarida foi muito venerada durante as Cruzadas e acabaria imortalizada pelos pincéis de mestres como Rafael ou Ticiano, dominando um dragão a seus pés.

Agora que chegou da terra do dragão vermelho outro ser assustador, ameaçando aprisionar-nos e subjugar-nos à sua vontade, valerá a pena recordar a importância que também teve Santa Margarida na Idade Média, quando a peste negra assolava a Europa, e o seu nome integrava a lista dos Catorze Santos Auxiliares invocados pelos cristãos em caso de grande necessidade (só deixou de integrar este grupo em 1969, por decisão do Papa Paulo VI, que expurgou as figuras femininas).

Procissão em Santa Margarida da Coutada, a 20 de julho de 2019. Créditos: CMC

Esta quarta-feira, a população de Santa Margarida será chamada a alinhar-se nas ruas numa procissão mais silenciosa e triste, para fazer testes de covid-19. As autoridades de saúde prevêem realizar 1.200 exames, tentando conter a propagação das infeções, que atingiram neste 20 de julho, que deveria ser de festa, os 695 casos por cada 100 mil habitantes – quase o triplo do limite permitido.

Na origem deste aumento considerável de casos esteve uma festa de casamento. Um momento de celebração do amor, como nos contos de fadas, mas que acabou por aprisionar centenas de pessoas nas masmorras dos dias estranhos que vivemos, procurando escapar à fúria de um novo dragão à solta.

Os textos religiosos indicam que Santa Margarida gosta que escrevam e falem da sua história. Por isso creio que mal não virá ao mundo se, com estas palavras, estiver a interceder de alguma forma pela proteção daqueles que a têm como padroeira.

Nos próximos dias seria bem-vinda uma ajuda de Santa Margarida, a quem Joana D’Arc apelava com grande devoção antes das maiores batalhas – haja também fé na Ciência e nas “tropas” organizadas nesta investida em força, para que seja possível vencer o inimigo.

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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