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Terça-feira, Janeiro 18, 2022
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Incêndios/Mação | Autarquia vai pedir estatuto de calamidade pública ao Governo

Após a tragédia que assolou o concelho na passada semana, o executivo camarário de Mação reuniu esta sexta-feira, dia 28, tendo Vasco Estrela admitido que se justifica que a CM Mação solicite ao Governo o estatuto de território de calamidade pública. O autarca frisou ainda uma série de medidas já tomadas, nomeadamente de levantamento e estimativa de questões sociais e prejuízos quanto às habitações permanentes ardidas nos incêndios que ali lavraram entre os dias 23 e 27 de julho.

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“A estupefação e a revolta aumentam à medida que vamos tendo conhecimento da verdadeira dimensão da tragédia”, disse hoje Vasco Estrela, tendo referido que o último levantamento aponta para “14 casas de primeira habitação ardidas, total ou parcialmente, mais de 30 aldeias atingidas pelo fogo, cerca de 10 pessoas feridas, e mais de 18 mil hectares de área florestal destruídos, para além de barracões, palheiros, material agrícola e viaturas”.

Quanto ao pedido de declaração de calamidade pública, Vasco Estrela justifica que “apesar de não ser obviamente nada de agradável que tal tenha de ser pedido”, servirá para dar acesso a uma “série de instrumentos que podem, eventualmente, vir a ser utilizados para tentarmos retomar a atividade normal do concelho, e para que possamos ter acesso a outro tipo de procedimentos administrativos e/ou eventualmente financiamentos para tentar repor a normalidade no concelho. Acho que é justo que esta declaração seja reconhecida pelo Governo”, explicou.

Para o presidente da autarquia existem questões e reflexões importantes para o futuro do concelho, que deverão ser feitas noutra ocasião, deixando os ânimos arrefecerem.
A primeira habitação a arder foi durante a primeira noite em Vales, Cardigos, no concelho de Mação. Foto: A.Silva
“Com muito poucas horas passadas em cima do que aconteceu, é normal que não tenhamos ainda a frieza e o distanciamento que é necessário para este tipo de questões e para análise de tudo aquilo que aconteceu e, mais do que isso, para perspetivarmos aquilo que poderá acontecer no futuro”, referiu o autarca, indicando que já estão a ser levadas a cabo medidas “para tentar minimizar os prejuízos e o sofrimento das pessoas mais atingidas pelo incêndio”.
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“Está a ser feito um levantamento de tudo aquilo que ardeu em termos de habitações, principalmente de habitações permanentes”, disse, salientando que na passada quarta-feira, esteve no posto de comando João Paulo Catarino, enquanto coordenador da Unidade de Missão para a Valorização do Interior, “para demonstrar a solidariedade do Governo e do Primeiro-Ministro em relação ao que estava suceder no concelho, tendo aquele responsável referido haver disponibilidade do Governo para, a exemplo do que fez na zona de Pedrógão, poder ajudar a custear a reabilitação dessas habitações”.

“Estamos a tentar trabalhar com a rapidez possível, para tentar ter respostas e podermos disponibilizar às pessoas condições mínimas para que possam tentar retomar a sua vida, dentro daquilo que for possível, tendo em conta a tragédia que aconteceu”, assumiu Vasco Estrela.

A par desta primeira estimativa de custos, há também ações sociais a decorrer, nomeadamente nas aldeias mais atingidas pelo fogo. “Foram para o terreno todas as técnicas de Ação Social da Câmara, em colaboração com as técnicas da RLIS e do CLDS, tendo sido formados grupos de trabalho para fazer uma avaliação, aldeia a aldeia, principalmente das aldeias que foram evacuadas e atingidas pelo incêndio, para verificarem localmente as necessidades de cada uma das pessoas com quem conversarem e darem conta de situações que possam ter escapado do controlo e ter especial atenção para as pessoas que foram evacuadas dessas aldeias”, frisou Vasco Estrela, durante a última sessão ordinária de executivo camarário

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No que toca à tentativa de restabelecimento da atividade normal, nomeadamente das atividades económicas no concelho, caso da criação de gado, o presidente da Câmara afirmou estar a ser assegurada a alimentação para os animais, tendo na sexta-feira já seguido a caminho de Mação alguma quantidade, e seguiu uma viatura da Câmara Municipal para a zona de Sobreira Formosa a fim de trazer também mais alimentação, que está garantida durante a esta semana”, tendo sublinhado que a autarquia irá continuar a assegurar esta questão, uma vez que os animais ficaram sem pastagem.

“Faremos uma gestão descentralizada desta matéria, ficando nas sedes de freguesia mais atingidas por este incêndio, Envendos, Carvoeiro e Cardigos, locais para que os agricultores possam ir buscar este alimento para os seus animais e com toda a logística centralizada em Mação no Estaleiro Municipal”, referiu.

O autarca disse ainda que se deverá proceder ao levantamento dos animais que morreram carbonizados no incêndio, a fim de se reunirem condições para que os mesmos possam ser recolhidos, “e para percebermos posteriormente junto do Ministério da Agricultura, como os efetivos podem ou não podem ser repostos”.

Foto: mediotejo.net

Outras questões terão de ser analisadas com mais distanciamento, diz autarca

Durante a reunião de executivo, Vasco Estrela deu ainda conta que iria convocar uma reunião extraordinária da Comissão Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios a realizar no dia 8 de agosto para analisar o que aconteceu neste incêndio, cujo objetivo seria “questionar também aquilo que foram as decisões tomadas ao longo destes dias pela ANPC relativamente a este incêndio, ver que erros possam ter sido cometidos da parte da CMM e da parte de outras entidades”, reiterou.

Voltou ainda a afirmar que a CM Mação tem “o direito de saber as decisões e opções que foram tomadas ao longo destes dias, e nesse sentido iremos requerer todos os dados que nos devem ser facultados. Adiantando desde já que caso os mesmos não sejam obtidos, não hesitaremos em solicitar que a Inspeção-Geral da Administração do Território possa também fazê-lo, ou de outros, para podermos saber aquilo que aconteceu”.

“São devidas explicações e justificações a Mação, e comecei a pedi-las logo no primeiro dia de fogo e sem conhecer as proporções dantescas que o incêndio viria a tomar, pelo que irei até às últimas consequências para que me sejam dadas explicações sobre o número de meios, a forma como os posicionaram num incêndio que começou na Sertã, e sejam apuradas responsabilidades e identificados os responsáveis pelas decisões tomadas”, afirmou.

“Se os meios no terreno eram os suficientes, como sempre me disseram, como é que ardem três concelhos e só num deles, no de Mação, ardeu mais do dobro do que nos outros dois? Não me calarei nem que tenha de solicitar uma ação inspetiva à Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) e a quem tomou as decisões”, assegurou, em declarações à Lusa.

O autarca deixou uma palavra a todas as pessoas que ao longo destes dias ajudaram e colaboraram naqueles tristes acontecimentos.

“Desde as pessoas que colaboraram com os bombeiros, com a Proteção Civil Municipal, destacando o extraordinário envolvimento da população, e todo o apoio na retaguarda para que nada faltasse, para que fosse possível servir cerca de 3 a 4 mil refeições diárias, garantindo estes dias todo o trabalho logístico que foi preciso fazer, o envolvimento de centenas de pessoas que não têm nada a ver com a estrutura da Proteção Civil nem dos bombeiros, mas que de forma voluntária e desinteressada se ofereceram e apareceram nos locais para tudo fazer para ajudar-nos a ultrapassar estes momentos”, enumerou, referindo não querer correr o risco de esquecer alguém, e notando também a solidariedade da parte de empresas, governantes e outros membros políticos, entre os quais os autarcas da região e deputados.

Em jeito de balanço, Vasco Estrela lamentou o sucedido. “Ao longo do tempo fomos dizendo que haveria algumas coisas que podiam não estar corretas, infelizmente isso aconteceu, mas por outro lado começam a aparecer evidências que algumas coisas não correram bem”, disse, destacando a deslocalização de meios de Mação, na segunda-feira, dia 24, noticiada pela comunicação social, e mencionando que pode ter havido ali algum contributo para aquilo que correu depois menos bem.

O secretário de Estado Jorge Gomes com o presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela. Foto: Paulo Jorge de Sousa

Ainda que o executivo persista na busca por respostas a algumas questões que estão por esclarecer, Vasco Estrela deixou claro que os membros do atual executivo não se demitem das suas responsabilidades.

“Que fique claro que não estamos com isto a tentar tirar responsabilidades que eventualmente possamos ter em toda esta matéria. Tive oportunidade de dizer que a CMM está um pouco no foco de toda esta questão, por ser uma Câmara que há anos e anos e anos fala da questão da floresta, e aqui e ali quase são os autarcas de Mação os responsáveis por isto (…) em nenhum outro ponto do país tenho observado ao longo dos últimos tempos que se questione as Câmaras Municipais pelas questões relacionadas com os fogos florestais da forma que em Mação é feito”, explicou.

O autarca lamentou que todo o esforço feito em torno da matéria florestal tenha sido vão, ao longo de 14 anos.

“É com enorme tristeza que se observa, e o restante executivo sabe tão bem ou melhor que eu, aquilo que tem sido feito ou que Mação tentou fazer ao longo destes anos. Sabem a quantidade de ministros e secretários de Estado que vieram a esta sala e a outros locais da Câmara, de todos os partidos. Reconhecendo que as ideias que aqui existiam eram ideias boas e importantes para o futuro da floresta, não do concelho de Mação, mas de todo o país. Portanto, se era consensual, foi dito nomeadamente imensas vezes pelo Engenheiro Louro a nossa disponibilidade, o nosso querer em ter aqui uma atitude proativa nesta matéria”, insistiu, notando ainda “a quantidade de vezes que pedimos, nos mais variados governos, um acordo político que pudesse possibilitar o desenvolvimento de um projeto-piloto sobre essa matéria em Mação, e portanto, se alguma coisa tivesse sido feita aqui, conforme o que fomos solicitando, provavelmente podia ter-se evitado esta questão”.

“Qualquer pesquisa nos arquivos, de qualquer televisão e jornal, prova as inúmeras vezes que o concelho de Mação pediu para levar por diante aqui um projeto-piloto”

Acontece ainda que, Vasco Estrela, enviou uma carta ao Ministro da Agricultura em junho deste ano, cuja resposta apenas chegou durante ao 3º dia do incêndio no concelho. Mas o lamento e indignação são maiores, após declarações do governante em que terá dito nunca ter recebido queixas dos autarcas de Mação sobre esta matéria.

“Não consigo compreender que o Sr. Ministro da Agricultura tenha dito esta sexta-feira que nunca recebeu as queixas dos autarcas de Mação em relação a esta matéria, que diz que apenas recebeu uma carta em 29 de junho, cuja resposta chegou aqui quarta-feira (dia 26), e onde basicamente diz que nós somos boa gente mas coloquem-se na fila, quando houver igual, há para todos. Que diz que me encontrou a mim e ao Eng. Louro por duas vezes, cá em Mação num seminário sobre Agricultura e também em Lisboa, e portanto, que não tínhamos nenhuma razão de queixa, recebeu apenas uma carta, portanto não haviam razões nenhumas para perceber que nos possamos queixar de ninguém nos ter ouvido para podermos fazer aqui alguma experiência-piloto”.

Vasco Estrela preocupado com a evolução do incêndio em Mação
Foto: Paulo Jorge de Sousa

Acrescentou ainda o autarca que no ano passado, o Governo esteve em Mação, a comemorar o Dia Internacional da Floresta, altura em que o Ministro e o Primeiro-Ministro terão assumido a validade da aplicação do projeto florestal no concelho.

Por fim, o autarca deixou uma nota de lamento e de esperança aos maçaenses. “A partir de agora é importante recomeçar, é importante reconstruir, faz todo o sentido que agora, após toda esta infelicidade, Mação seja obviamente um dos concelhos abrangidos pelo projeto-piloto que vai ser levado por diante. Relembro que fomos o concelho em que ardeu mais área, entre todos os outros, felizmente não tivemos desgraça que outros tiveram em termos de perda de vidas humanas, relembro que foram evacuadas mais de 30 aldeias. Depois de tudo isto, temos de ter aqui uma palavra de esperança no futuro”, concluiu.

Por sua vez, António Louro, vice-presidente da autarquia e grande impulsionador e responsável pelos projetos de intervenção florestal no concelho de Mação, como é sabido, mostrou-se abalado com os acontecimentos. “Acho que só tenho a dizer que apesar de saber o elevado risco que tinha de acontecer, e procurar todas as formas de alertar tudo e toda a gente para isto, durante muitos anos, e de saber da elevada probabilidade de isto acontecer, acho que podia ter sido evitado. Depois de começar a acontecer, podia ter sido minorado. E agora espero que, ainda acredito que vivo num país que vai fazer alguma coisa para que isto não se volte a repetir”, notou.

c/LUSA

O Presidente da República deslocou-se a Mação para acompanhar a situação do incêndio

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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