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Terça-feira, Novembro 30, 2021

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Incêndios/Entrevista | Cristina Andrade, diretora do Laboratório de Investigação Aplicado em Riscos Naturais

“Talvez todo este contexto sirva para a unir a comunidade civil à comunidade académica e à comunidade política”

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Cristina Andrade, professora no Instituto Politécnico de Tomar (IPT) e diretora do Natural Hazards Research Center – Laboratório de Investigação Aplicado em Riscos Naturais (NHRS), defende um “consenso a nível nacional sobre a riqueza que para nós deverá ser a floresta. Em entrevista, deixa um conselho para a fase que se segue, depois dos incêndios de Pedrógão Grande e dos incêndios de 15 de outubro: “Não começar a casa pelo telhado, começar pelos alicerces”, referindo-se à prevenção não só na época de maior calor, como também no Inverno.

Diretamente afetada pelos últimos incêndios, esta especialista acredita que o reordenamento do território tem que passar pela plantação de árvores autóctones, como o castanheiro, o carvalho, entre outras porque “elas fazem parte da flora do mediterrâneo, portanto, estão preparadas para este tipo de ocorrências, têm uma grande resiliência e uma grande resistência ao fogo”.

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A ausência de cultura cívica por parte dos cidadãos é também alvo de reflexão de Cristina Andrade: “Não podemos atribuir as culpas à Proteção Civil, não podemos atribuir as culpas ao Governo. Todos nós temos culpa desta situação, porque todos nós temos algum comportamento de risco.”

A professora do IPT alerta para um futuro com esperança, dando algumas soluções possíveis para a redução de catástrofes como os incêndios florestais, como uma melhor especialização dada aos bombeiros: “Temos que ter as pessoas certas no lugar certo.” Numa conversa com críticas, mas também com propostas concretas, a especialista sugere a realização de simulacros para preparar as populações, manchas florestais que funcionem como tampões para a progressão de um incêndio, formas de comunicação alternativas, criação de sistemas de retenção das águas da chuva, aproveitar os conhecimentos dos militares, entre outras.

A procura de soluções não só pode, como “deve”, ser feita em conjunto, com o conhecimento de quem estuda e analisa estas questões. Por isso mesmo, deixa um alerta: “Quando ocorrer uma precipitação mais intensa, aquilo que vai acontecer é que o solo arável que se encontra à superfície dos terrenos pode perder-se e, portanto, vamos assistir a um processo de degradação e de erosão dos solos e instabilidade de vertentes.”

As alterações climáticas nestes últimos anos podem ser, de alguma forma, responsáveis pelas situações de incêndios recentemente verificados em Portugal?

As alterações climáticas estão sempre subjacentes quando falamos de eventos como os fogos florestais porque as alterações climáticas têm várias vertentes. Com um clima extremado, maior propensão para um aumento de dias com temperaturas acima dos 30º graus principalmente fora de época (aquilo a que chamamos ondas de calor), humidade relativa extremamente baixa e ausência de precipitação, tudo isto faz com que haja uma maior perigosidade e uma maior vulnerabilidade dos territórios. Há a ocorrência de incêndios florestais, há o perigo da falta de abastecimento de água às populações e a qualidade da água nas albufeiras também diminui. Os incêndios são mais uma peça neste puzzle.

As alterações climáticas podem fazer-se sentir de diversas formas. Podemos falar em termos de temperatura, ondas de calor, mas podemos falar noutro tipo de eventos extremos, como por exemplo o furacão Ofélia. Passou ao largo dos Açores mas provocou mortes em Inglaterra, que é uma zona do nosso planeta que tipicamente não tem furacões. Quando eles passam mais para o norte da Europa significa que devemos meditar: o que estamos nós a fazer ao nosso planeta? A época de furacões tem sido extremamente intensa, com uma atividade atípica para a média do que se considera expectável, não só para a época do ano mas também em termos de número e intensidade. Infelizmente, é uma realidade com a qual nós vamos ter que viver porque enquanto não mudarmos radicalmente em termos de políticas ambientais, obviamente que vamos estando mais vulneráveis a estas realidades.

Como é que se consegue gerir a pouca água disponível, em épocas de seca, quando há diversos incêndios ao mesmo tempo?

Nós temos um sistema de classificação de seca que passa por três etapas em termos de impactos: seca meteorológica, agrícola e hidrológica. Quando estamos no primeiro patamar, ainda podemos remediar de alguma forma a situação. Quando passamos ao último patamar, que é aquele em que estamos agora (um período muito prolongado com temperaturas elevadas e sem precipitação com alguma intensidade, com as albufeiras muito abaixo do limite que é recomendável), os terrenos apresentam um grau de secura com um grande stress hídrico das plantas. Tudo aquilo que é a biomassa. Aquilo que é carga combustível que nós temos no solo, à superfície, torna-se altamente vulnerável aumentando o risco de incêndio. Basta um pequeno incidente como uma beata do cigarro para tornar algo que, se houvesse humidade, se houvesse o verde que nós estamos habituados a ver nos nossos campos, evitavam-se incêndios de grandes proporções.

Quando é que um meio ambiente se torna altamente perigoso? Quando temos mais de 30 dias sem chuva. Quando temos persistentemente temperaturas acima dos 30 graus. E quando temos ventos com uma intensidade de mais de 30km por hora. São os três fatores, em termos de condicionante meteorológica, que um incêndio que possa ser controlável, no início, tome proporções muito grandes e, num curto espaço de tempo, progrida a uma velocidade ainda maior. Quando há um incêndio, naquela área há outros fatores que o próprio incêndio alimenta e desencadeia, como o vento que facilita as projeções, aliado a declives pronunciados, vegetação e floresta não cuidadas, o tornam incontrolável.

As grandes vagas de incêndios de Pedrógão e de outubro podiam ter sido evitadas?

Falar nos incêndios florestais, nesta altura, é algo que nós temos que fazer com alguma delicadeza. Mesmo assim, aponto algumas estratégias que, do meu ponto de vista, seriam aquelas que nós deveríamos meditar.

Primeiro, não podemos pensar que o poder político vai fazer tudo e que nos vai resolver os problemas. Nós somos um país que, a vários níveis, tem uma legislação fabulosa, mas depois não faz a cumprir e as pessoas ignoram-na. Portanto, primeiro que tudo é preciso um grande consenso a nível nacional sobre a riqueza que para nós deverá ser a floresta e, só a partir daí, mudando mentalidades, é que nós vamos conseguir fazer alguma coisa ao nosso país. Sem o ordenamento do território eficaz, uma gestão ordenada e sustentada nós não vamos conseguir alterar tão cedo esta situação.

Segundo, não começar a casa pelo telhado, começar com os alicerces, ou seja, não apostar tudo no combate e começar a apostar mais na prevenção. Essa prevenção faz-se durante o Inverno, o Outono e a Primavera, não é no Verão que se vai combater, pura e simplesmente, ou se vai prevenir o incêndio. Tem que haver uma maior cultura cívica, como não fazer queimadas nem mandar a beata pela janela quando se vai a conduzir. Todos temos assistido a algo bastante caricato: em fins de semana em que houve imensos incêndios também houve algumas festas de aldeia e algumas pessoas ainda insistiram em lançar foguetes! Isto são comportamentos de uma atitude cívica irrefletida. Obviamente que, em termos políticos, há muita coisa a fazer. Tem-se falado num plano de gestão florestal de cadastro com alguns concelhos piloto. Ora, esquecem-se é que esses concelhos pilotos e esses planos de cadastro da propriedade rústica já ocorreram no nosso país. Este cadastro foi executado em sete municípios de Portugal Continental. No concelho de Oliveira do Hospital, que recentemente perdeu o seu coberto vegetal, todos os proprietários florestais foram obrigados a fazer o cadastro dos seus terrenos. Como é que isso se processou? Com a colocação de marcos de cimento com determinadas especificidades nas extremas das propriedades. Todos eles tiveram que ser georreferenciados e as Juntas de Freguesia foram os recolectores de toda esta informação. Portanto, o cadastro foi feito. Resolveu alguma coisa? Impediu o incêndio devastador de 15 de outubro? Não.

Outro aspeto que considero fundamental é ter as associações de produtores de mãos dadas com sapadores e de mãos dadas com as autarquias. O poder local aqui tem um papel extremamente relevante. Não só no ordenamento do território, mas também na ajuda ao pequeno produtor florestal, dando condições que permitam ter equipas para fazer a limpeza das matas. Não basta dizer ao produtor florestal que tem de limpar a floresta, quando se esquece que territórios como os nossos, que foram afetados a 15 de outubro, estão extremamente envelhecidos. Há muito pouca população e esta tem fracos recursos. Não são pessoas que tenham possibilidade de ir, de repente, para um terreno extremamente mau em termos de acessibilidade, fazer um trabalho de limpeza. Não há quem faça! Não há capacidade financeira nem física. Não há quem limpe estes territórios. O ato de georreferenciação e colocação de todos estes marcos, foi um ato de entrega, porque custaram muito dinheiro e, para além disso, foi muito difícil chegar a alguns locais para os colocar. Pedir a alguém que vá a terrenos, alguns com 30% inclinação, carregar marcos às costas para os colocar nas extremas dos terrenos, não é fácil… É preciso alguma cautela quando falamos nesta coisas porque só quem está no terreno é que conhece a realidade do terreno.

Depois é preciso implementar uma eficaz gestão das faixas de gestão florestal e de combustível. É necessário ter mais zonas que sejam pensadas, que deem acessibilidades aos bombeiros, agora, sim, já numa perspetiva de prevenção e de combate, assim como mais locais onde possa ser armazenada a água (porque as acessibilidades são difíceis nestas zonas, as estradas são estreitas, os acessos aos ribeiros são complicados e muitas das vezes as corporações têm que se deslocar às sedes de concelho para abastecer). Se um incêndio está minimamente controlado numa zona, mas falta água, os bombeiros têm de andar 30 ou 40 km para ir reabastecer, demoram imenso tempo, e quando chegam ao local incêndio ele já não está lá, já passou para outra zona, voltando a ter grandes proporções. Tem que haver um pensamento sobre este mosaico florestal do nosso país, concelho a concelho, mas numa lógica quer de prevenção, quer de uma maior eficácia no combate, ao nível do posicionamento dos homens no terreno e ao nível da ajuda às próprias populações, porque não podemos ter um bombeiro à porta de casa de cada pessoa. São situações verdadeiramente dramáticas que se viveram nestes últimos meses em Portugal, mas que nos devem fazer refletir a todos, enquanto sociedade.

Não podemos atribuir as culpas à Proteção Civil, não podemos atribuir as culpas ao Governo. Todos nós temos culpa desta situação, porque todos nós temos algum comportamento de risco, todos nós, proprietários, deveremos ter a visão de que a floresta é de todos, de todos os portugueses, quer tenham quer não tenham floresta.

Quando se fala em combate aos incêndios fala-se com muita frequência em ordenamento do território. O que se passa em relação a este assunto?

O território está completamente desordenado. Eu diria que é preciso fazer mais no contexto da prevenção. No combate já vamos tarde demais. Não podemos ter um bombeiro à porta de cada casa. A violência destes incêndios foi tão grande, que efetivamente é muito difícil controlá-los.

Quando se fala em ordenamento do território fala-se em pensar. Que espécies e onde é que elas deveram ser colocadas? Qual o limite de um concelho olhando para o mapa do território do coberto vegetal que ele deverá ter? Qual o limite em percentagem de cada uma das espécies? Temos espécies típicas do clima mediterrâneo como o carvalho, a azinheira, o castanheiro, o sobreiro, o medronheiro… Depois temos outras que foram importadas, como é o caso do eucalipto. O eucalipto está em Portugal há poucos anos, quando falo anos estou a falar de um século, mais ou menos. Falo numa perspetiva de gestão ordenada e sustentável.

Nós ainda não percebemos que temos que ter uma aposta na requalificação da nossa floresta, ou seja, nós podemos perceber que o pinheiro, o pinheiro manso, o carvalho, o castanheiro e o azevinho fazem falta, mas aonde é que eles fazem falta? De que forma é que nós podemos olhar para o mapa de um concelho e fazer um mosaico de reflorestação eficaz evitando a monocultura? Temos que perceber, em termos de declividade, de exposição solar e de acessibilidade aonde é que estas manchas florestais devem ficar para servir, por assim dizer, de tampão à progressão de um incêndio florestal. Porque há espécies que são mais resistentes do que outras ao fogo, há espécies que ardem muito rapidamente, que têm um potencial calorífico enorme e que são explosivas.

Temos outras árvores que têm um revestimento que as protege, elas são autóctones da zona do mediterrâneo, portanto, estão preparadas para este tipo de ocorrência, têm uma grande resiliência, uma grande resistência ao fogo. Portanto, é preciso decidir aonde é que elas devem ficar posicionadas no terreno. Mas aquilo a que nós assistimos é que se um produtor florestal decidir que quer colocar pinheiro na sua propriedade, planta o pinheiro. Se quer plantar eucalipto, planta eucalipto, mesmo junto a habitações, muito embora haja legislação que não é cumprida. Há muito pouco, neste momento a fazer quando não se cumpre a lei da distância (gestão de combustível) a que nós temos que ter das casas a floresta.

São os 10 metros?

São 50 metros, mas mesmo os 10 metros são complicados. A EDP tem uma faixa de segurança nas linhas da rede média e alta tensão e fazem um patrulhamento constante dessas zonas, não só para impedir que o coberto florestal ultrapasse os limites, mas para que as árvores de grande porte que estejam perto, havendo uma intempérie, não possam cair sobre as linhas. Há uma grande experiência por parte da EDP relativamente a estas faixas de segurança que nós devemos replicar nas nossas aldeias. Só que enquanto EDP tem por força da lei a autorização, entre aspas, de entrar nos terrenos e fazer o corte das árvores, infelizmente para um particular é muito difícil fazer-se cumprir a lei.

Há um fator importante no ordenamento do território que é o interface urbano-florestal. Estou a falar não só das cidades, mas principalmente das aldeias que estão perdidas nas terras. Falar em ordenamento do território é pensar também nestas aldeias, de como as proteger, de como munir as populações de ferramentas para que, em caso de uma necessidade, elas possam fazer aquilo que a maior parte delas fez, mas com o outro tipo de condições, como por exemplo, uma zona onde possam fazer a coleta de água da chuva. A água ficaria armazenada para ser usada nestas situações.

Perante este cenário, que opções devem ser feitas para melhorar as condições e os meios de combate?

Os meios foram manifestamente escassos. Atrevo-me a fazer uma crítica: nós temos um Instituto do Mar e da Atmosfera que faz algumas previsões de médio e longo prazo. No sítio da Internet eles têm alguns relatórios, alguns boletins, que já reportavam eventualmente esta onda de calor que nós tivemos, mostrando que esta onda de calor já era previsível. Ora, num contexto destes, depois de ter acontecido o que aconteceu no Pedrógão, depois do relatório que saiu do Pedrógão ter sido tornado público, apontando as diversas falhas que existiram… Eu acho absolutamente inaceitável não terem prolongado a fase Charlie. A fase Charlie é aquela que durante o período estival (1 de Julho a 30 de Setembro) é acionada e que movimenta e operacionaliza o maior número de meios que nós podemos ter no terreno. Terminou e não a prolongaram. Portanto, isto significou que mais de metade dos aviões que nós tínhamos ao dispor até essa data, não existiram. O número de operacionais também foi reduzido e muito. Portanto, a principal crítica que eu tenho a fazer é: como é que se deixa chegar a uma situação destas um país que já de si precisa e carece de meios mais especializados? Nós temos bons bombeiros, mas precisam de uma maior especialização, precisam de ter uma maior componente de formação em certas áreas, por exemplo em termos meteorológicos. E necessário ter em atenção outra coisa. Num país em que há três ramos das Forças Armadas, com especialização em comunicações, que atuam em cenários catastróficos não compreendo que não se utilize esse saber. Num cenário de guerra, não há telemóvel, não há fibra ótica, há poucos recursos, mas ainda assim comunica-se. Então, se há equipas especializadas em comunicações nas nossas forças armadas, por que não replicar esse conhecimento para a Proteção Civil, que está dependente de um sistema que já se sabe que falhou e que provavelmente irá continuar a falhar porque a fibra ótica, em vez de estar nas calhas que já foram colocadas em alguns locais, continua a ser aérea? Então o que esperar senão o pior? São as minhas as minhas críticas como cidadã, eu também tenho uma opinião.

Nesta região que é o Médio Tejo, uma das áreas mais afetadas a nível de incêndio, como nos podemos preparar para combater este risco a nível desta região?

Com uma política de ordenamento do território a nível florestal, com uma gestão florestal sustentável e mais eficaz, uma rede viária florestal maior e melhor, devidamente cadastrada. Criar um conjunto estratégico de pontos de recolha de água, por exemplo, charcas, como utilizam no Alentejo para irrigar alguns terrenos e para o gado poder ter água para beber.

Mais uma vez, é preciso uma sensibilização também da população para a necessidade de evitar comportamentos de risco e fazer cumprir a lei naquilo que diz respeito às distâncias de segurança, a limpar tudo aquilo que está ao redor das casas, nas aldeias e mesmo nas cidades, porque nós vimos que nem as cidades escaparam. Nós não estamos seguros por estarmos numa cidade, muito pelo contrário, porque há outro tipo de riscos associados ao facto de vivermos numa cidade.

Aqui no Médio Tejo houve uma grande aposta na prevenção, uma grande parte do território já está coberto por um sistema de videovigilância contra incêndios. Como nós vimos, infelizmente, esse sistema que é constituído por câmaras equipadas com sensores que vão fazendo a vigilância do território, não foi suficiente, porque a prevenção tem que ser um conjunto coletivo das forças que atuam no território.

Há um exemplo que é o de uma associação de produtores da Chamusca, a Associação dos Agricultores da Charneca (ACHAR), que faz um trabalho fantástico de agregação de produtores florestais, que engloba a limpeza e a vigilância ao longo de todo e já se verifica uma diminuição do número de ignições. Uma coisa é a ignição, outra coisa é a ignição dar origem a um grande incêndio florestal. As ignições vão sempre ocorrer, mas uma ignição dar origem a um incêndio de grandes proporções e descontrolado já é outra coisa. Graças a esta intervenção local e à participação ativa dos proprietários e Juntas de Freguesia, este conjugar de forças ajudou a que esta situação ficasse controlada neste concelho.

O êxodo rural pode também ser um fator a ter em conta?

O despovoamento e o envelhecimento destas populações é, de facto, um dos fatores de risco acrescido. Uma população ativa cuida do que é seu protege, guarda, vigia. Quando a população é constituída maioritariamente por pessoas com idade acima dos 70 anos, não são essas pessoas que vão para a floresta fazer a limpeza, não têm força anímica nem dinheiro para cuidar do que é seu. Por conseguinte, nós estamos a pagar um preço pelo êxodo rural. E isto vai ser agravado porque, mesmo dentro desta população, os mais jovens neste momento perderam também a sua fonte de rendimento. Aqueles jovens agricultores que ainda se encontram nestas zonas perderam tudo. Têm alguns benefícios, mas vão continuar a pagar empréstimos de algo que já não possuem e do qual não têm como ir buscar rendimento agora. Portanto, isto é dramático e só contribui para a perda de mais população naquelas zonas. Como ajudar estas pessoas a manterem-se, a sobreviverem, a ficarem naquelas zonas e não irem à procura de outro emprego de outro local ou, até, emigrarem?

Temos de repensar toda a política em termos de fixação e de incentivos a quem está no interior, sob pena de continuarmos a ter um país a duas velocidades, mas com um contraste ainda maior: a maior parte da população no litoral e depois uma população que está a desaparecer no interior. Temos que pensar neste país com um sistema agroflorestal que é fonte de riqueza e fonte de rendimento para as pessoas e um incentivo à fixação dos jovens no interior ou então nós estamos a desbaratar uma riqueza que nós temos no nosso país.

Há dados que indicam que até setembro arderam 216 mil hectares e estima-se que até depois do incêndio de outubro serão cerca de 500 mil hectares. O que fazer nestes terrenos queimados?

Reflorestar e reabilitar. Quando ocorrer uma precipitação mais intensa, aquilo que vai acontecer é que o solo arável que se encontra à superfície do terreno pode perder-se e, portanto, vamos assistir a um processo de degradação e de erosão dos solos e instabilidade de vertentes. O que é que isto implica? Tem duas consequências. Primeiro, o solo fica mais pobre e isso significa que a reflorestação nesses territórios vai ser mais complicada. Se forem terrenos agrícolas, vão ficar mais degradados e, portanto, vai ser muito difícil fazer a reabilitação do solo para que possa ser produtivo em termos agrícolas. Por outro lado, todas aquelas escorrências vão ter algum lado. E onde é que elas vão ter? Aos cursos de água. Isso vai ter um grande impacto em zonas onde a qualidade da água já não é a melhor. Algumas das albufeiras já estão abaixo dos limites mínimos e o abastecimento já está a ser feito por carros dos bombeiros porque já não se pode tirar mais nada da albufeira. Na barragem Castelo de Bode, em toda esta envolvente da bacia do rio Zêzere, já se verifica a deposição de lamas com alterações de ph., e não só, de compostos químicos da água. Isso vai-se repercutir, mais dia menos, dia na fatura consumidor, porque para a água chegar ao consumidor ela tem que ser tratada. Neste território a vulnerabilidade é ainda maior porque a barragem de Castelo de Bode abastece grande parte da população de Portugal, incluindo toda a área metropolitana de Lisboa.

Em que medida é que a investigação e o conhecimento produzido pelas instituições de ensino superior podem estar aliados com a realidade?

Não só podem como devem. O conhecimento adquirido sobre a dinâmica dos incêndios, por exemplo, a velocidade de propagação do fogo versus coberto vegetal, sobre as espécies mais resilientes, sobre onde é que elas devem ser colocadas através de modelos e simuladores de floresta, sobre uma melhor rede viária florestal, maior quantidade e melhor localização de pontos de água, sobre faixas de contenção que possam servir como zonas tampão que retardem a progressão de um incêndio… Este conhecimento em termos académicos deve ser facultado e, em ligação com o saber das populações e com o saber de quem atua no terreno, é muito importante.

Os incêndios têm uma vida e uma dinâmica muito próprias, por exemplo, criam fenómenos meteorológicos locais que são extremamente importantes para quem combate os incêndios. São fatores, que nós não podemos prever, mas podemos estudar, podemos analisar e depois podemos utilizar como exemplo para futuros combates. E aqui já estou a falar mesmo no combate, aliado àquilo que é a responsabilidade do poder político. É toda uma união de forças que tem que ter como desígnio nacional a Floresta. Nós, comunidade académica, fazemos parte desse desígnio nacional. Todo este contexto, neste momento em que nós vivemos no nosso país, talvez sirva também para a unir a comunidade civil à comunidade académica e à comunidade política. A ver vamos.

Como é que é possível que num país tão pequeno, com bombeiros voluntários, forças armadas, militares… por que é que não ajudam nessa prevenção dos incêndios?

Ponto um: há falta de coordenação. Ponto dois: há falta de vontade, também, penso eu, mas isto já é uma opinião pessoal há falta de vontade em se implementarem efetivamente alguns princípios básicos que deviam ser o da prevenção consertada.

Mas sabemos que as forças armadas têm treinos…

As forças armadas têm treino e no caso do Pedrógão foram para o terreno. Todos os operacionais são valiosos nestas situações, infelizmente, não estavam devidamente equipadas para tal. O relatório do Pedrogão faz menção a algumas falhas. Há falhas não só de comunicação, como também de entendimento do que é que se deve fazer. Portanto, na cadeia de comando, algo tem que mudar. Temos que ter as pessoas certas nos lugares certos.

Como é que a comunicação pode ajudar ao nível de prevenção e nos momentos de crise? Quais são os melhoramentos que se pode fazer na comunicação entre o pessoal (no terreno) e os superiores?

Primeiro que tudo é preciso repensar o Siresp. Temos que encontram alternativas viáveis que sirvam de backup nestas situações extremas, no limite comunicar via rádio, muito embora também tenha fragilidades.

As Juntas de Freguesia, na minha opinião, deverão ter um papel muito importante porque são quem está mais perto das populações. Se os bombeiros ou a GNR não se puderem deslocar a determinada população, deve ser criado um sistema que dote as Juntas de Freguesia da possibilidade de avisar as populações da ordem de evacuação. Uma das coisas que aconteceu a 15 de outubro, nomeadamente no concelho de Oliveira do Hospital, foi que as populações estiveram sozinhas, estiveram à mercê do fogo. Nalgumas povoações, mesmo que a GNR quisesse chegar até elas, não havia forma de o fazer porque são servidas por estradas únicas: entra-se e sai-se pelo mesmo sítio. Não havendo telemóveis, energia e telefones, como é que se comunica? Não se comunica…

Uma outra proposta é fazerem-se ao longo do Inverno exercícios de coordenação entre corporações de bombeiros, municípios e povoações. Fazer simulacros para experimentar algumas táticas e para se ver o que correu mal e como melhorar o que correu mal. Nós não temos essa prática sistemática. As pessoas não sabem o que fazer em caso de incêndio, não sabem o que fazer em caso de um sismo, não sabem proteger-se. Isto também é cultura para a cidadania. Todos nós somos proteção civil e esta também é a conclusão que tem que se tirar. Todos nós temos o dever e a obrigação de estar o mais informados possível para nós próprios nos podermos proteger, proteger os nossos, o que é nosso e ajudar o vizinho do lado, mas saber como o fazer.

Daqui a quantos anos é que vamos conseguimos reparar o que aconteceu neste Verão e em outubro?

No que diz respeito ao ordenamento do território, vão se precisas décadas. Vai proceder-se agora a um massivo corte das árvores queimadas em todas as áreas afetadas, nomeadamente no Pinhal de Leiria, um pinhal centenário que, infelizmente, ardeu em 80%. Portanto, neste momento a informação veiculada pelos meios de Comunicação Social é que toda essa biomassa que vai ser removida das florestas vai ser vendida e os fundos vão reverter para a requalificação e reabilitação destes territórios.

Os estudos podem ser feitos num prazo de meio ano, diria, e podemos pensar concelho a concelho (planos municipais) ou numa perspetiva regional (planos regionais de ordenamento) dentro deste prazo temporal: o que é que nós queremos para aquela região?, como e o que fazer? para depois passarmos à fase seguinte, que é o repovoamento florestal. Mas dentro da dinâmica de um plano de ordenamento nacional do território vão passar-se décadas, porque um pinheiro pode demorar entre 10 a 15 anos até atingir a maturidade, dependendo das espécies. Mas um carvalho precisa do tempo de uma geração, demora décadas. Portanto, neste momento vamos ter que pensar para as gerações dos jovens atuais, que legado é que queremos deixar-lhes, da mesma forma que os meus familiares pensaram há mais de um século que aqueles soutos que nos deixaram seriam uma fonte de rendimento no Inverno. A castanha era uma base da alimentação nesta época para quem pouco ou nada tinha para sobreviver. A cerejeira era outra fonte de rendimento, a nogueira outra fonte de proteína. Que legado é que nós queremos deixar para gerações vindouras: um bom ou um mau legado?

 

Entrevista conduzida pelos estudantes de Comunicação da ESTA, Joana Almeida e Tiago Soares, e redigida por Andreia Moreira, num trabalho preparado pela turma de Jornalismo do 2º ano

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