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Quinta-feira, Janeiro 20, 2022
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Incêndios/Abrantes | Espírito solidário em Mouriscas fulcral no combate à tragédia e ao medo

O fogo voltou esta quinta-feira a não dar tréguas na freguesia de Mouriscas, no concelho de Abrantes. Uma frente entre Lercas e Entre Serras preocupava operacionais e populares que estavam preparados para passar a segunda noite em claro. Ninguém prega olho quando a aflição fala em voz alta. Entre os aflitos há sempre quem seja incansável na ajuda ao próximo e em nome da causa pública. Alice e Francisco são apenas dois dos rostos de alguns destes heróis invisíveis, e que hoje destacamos pelo trabalho desenvolvido em Mouriscas. 

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“Quer uma garrafa de água?” pergunta Francisco Neves ao repórter do mediotejo.net na povoação de Entre Serras, já passava das 19h00. As temperaturas altas começavam então a baixar, contrariamente aos populares e aos operacionais que no terreno combatiam, sem baixar os braços, o incêndio que teimava em manter-se activo na freguesia de Mouriscas, no concelho de Abrantes, depois de mais de 24 horas de uma fúria indizível.

Francisco Neves da ADREMS resgata bombeiros do fogo em Entre Serras

Francisco não vive em Entre Serras, nem sequer no concelho. Mora em Coimbra e desde o incêndio de Pedrogão Grande que não sabe o que é descanso, descendo geograficamente no território português em nome da organização ADREMS (Desenvolvimento, Recursos, Emergência e Saúde) resgatando quem precisa de ser resgatado, prestando cuidados de saúde, dando oxigénio no meio do fumo e das chamas.

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“Cheguei ontem a Lousa, passei lá o dia e descansei umas duas horas dentro do carro e quando abri os olhos o fogo tinha avançado muito”, explicou Francisco Neves ao mediotejo.net. A escolha foi por-se ao caminho para onde lhe parecia que o incêndio tinha maior intensidade. Foi então que o homem do socorro socorreu-se de uma consulta às ocorrência ativas “mas o fogo é mais rápido que as atualizações” das mesmas.

Entre Serras, na freguesia de Mouriscas concelho de Abrantes

Esta manhã viu “uma grande coluna de fogo” antes de Lercas, em Sobral. Nesse local Francisco e a sua equipa passaram “por dois episódios muito complicados”, descreve. O fumo e as chamas cobriam as viaturas dos bombeiros e Francisco deixou de os ver, complicando assim a missão de dedicação à emergência médica que traz consigo há mais de 30 anos.

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“Uma das minhas funções é o resgate”, explica. Para isso, entre o seu equipamento conta-se “ar enriquecido com nitrogénio e oxigénio para resgatar os bombeiros, militares da GNR e os próprios civis quando ficam asfixiados”. Francisco garante que durante esse processo de asfixiamento “nem sentem o calor das chamas e às vezes acontece que em vez de fugirem para nós” fogem para o fogo. A outra parte da intervenção de Francisco centra-se no socorro.

À semelhança dos dois concelhos vizinhos, Mação e Sardoal, em Abrantes o dia foi “complicado” na freguesia de Mouriscas, devido a “muitas condicionantes” como o vento e as temperaturas elevadas. À medida que as horas e os dias passam, a exaustão começa a espelhar-se nos rostos de quem socorre e de quem é socorrido. “Estou a precisar de cama, mas custa ir para casa e ver esta desgraça em que o nosso País está mergulhado”, afirma.

A presidente da Junta de Freguesia de Mouriscas no terreno durante o incêndio

E se o cansaço é visível a desolação também. Maria Teresa Dinis também mal pregou olho. “Está tudo desolado”, desabafa ao mediotejo.net. A presidente da Junta de Freguesia de Mouriscas descreve como “péssima” a noite passada. A manhã trouxe algumas melhorias mas o cenário agravou-se durante a tarde devido a reacendimentos. A maior preocupação da autarca “é as pessoas, as casas e os bens”. O tempo urge e é pouco para comprovar no terreno qual a situação mais grave, ao mesmo tempo que foi ao quartel do Bombeiros Municipais de Abrantes deixar garrafas de água e comprar melões para alimentar a refrescar os operacionais.

Maria Augusta é natural de Entre Serras e desde ontem que não dorme. “Nem sei dizer coisa com coisa” lamenta. A intensidade do incêndio que se aproxima vindo de Mação assusta e causa ansiedade. O medo prende-se com os “incendiários que andam por aí a deitar o fogo a colocar-nos a todos nós na miséria”. Maria Augusta acredita que este incêndio tem mão criminosa. “É impossível não ser”, acusa.

Maria Augusta vive em Entre Serras e não dorme desde que o incêndio começou. Há 15 dias perdeu duas propriedades com pinheiros no incêndio de Cabeça Gorda

Apesar de às 19h00 as chamas parecerem ter acalmado, Maria Augusta não demonstra tranquilidade. “Ainda existem duas frentes activas. Vamos passar mais uma noite dolorosa”, vaticina. Teme que o fogo de Ferreira do Zêzere acabe por juntar-se ao de Abrantes, Sardoal e Mação. Há 15 dias Maria Augusta perdeu “duas propriedades com pinheiros”. Ficou sem nada devido ao incêndio de Cabeça das Mós. “Um prejuízo muito elevado”, contudo pior que as perdas financeiras são as psicológicas. A tragédia altera o sistema nervoso e “ficamos doentes durante bastante tempo”.

Mas malgrado a desgraça há sempre quem seja incansável na ajuda ao próximo, pela causa pública, e enfrente a catástrofe com um sorriso no rosto. Alice Timóteo é uma dessas pessoas, onde o idealismo é imperativo.

Alice Timóteo residente em Entre Serras prepara por sua iniciativa comida caseira para os operacionais no terreno

Aos 58 anos, depois de ter cozinhado durante a Feira Mostra de Artesanato e Gastronomia de Mouriscas no passado fim-de-semana, cozinha agora para os operacionais no terreno e até para os jornalistas que por ali passam na missão de informação. Hoje havia arroz de pato, sopa, melão e até café.

Alice esperava o inferno há 15 dias quando lavrou em Cabeça das Mós. A sorte mudou os ventos e agora tenta ajudar. “Têm sempre uma mesa à disposição. Faz-se uma sopinha e mais qualquer coisa para comerem, alguma coisa de colher como eles dizem”. Eles são os bombeiros que, segundo Alice, “só a sandes não andam bem”.

Para esta acção de solidariedade Alice conta com a colaboração de outras pessoas. Nesse rol contabiliza-se a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Abrantes e também a presidente Maria Teresa que além dos melões “trouxe febras e café. E assim se faz “entre amigos”, afirma.

A presidente da Junta de Mouriscas, Maria Teresa Dinis e Fernando Marques em Entre Serras durante o incêndio

Em frente à morada de Alice, o terreno é direito, o que é raro naquela povoação de estradas estreitas e de considerável inclinação. É por isso um ponto privilegiado na escolha dos bombeiros para abastecerem os autotanques. Andam na floresta e pelas aldeias a proteger as habitações. “Uns vão e outros vêm, e vão comendo aqui”. Hoje muitos alimentaram-se em casa de Alice mas “a comida não acabou”, garante.

Alice Timóteo ainda não é sénior mas nessa união de simpatias e propósitos de cooperação está longe de ser uma novata. “Há muitos anos que faço isto cada vez que há incêndios”. E não se fica por aqui uma vez que ainda ajuda nas festas do escutismo e outros eventos. “Foi uma sorte não haver fogo durante a Mostra de Gastronomia”, sublinha.

Também Alice acredita na existência de mão criminosa. “Sim. Com os barulhos que se ouve para aí… estouros e outras coisas. Como é que o vento está em sentido contrário e vai mandar o fogo para o outro lado?”, questiona. “É impossível!”, garante, enquanto prepara mais umas talhadas de melão para os bombeiros no terreno.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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