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Incêndios | Adelino Gomes, vice-presidente da Liga dos Bombeiros, diz estarmos perante “atos terroristas” (C/Vídeo)

Mesmo no outono, Portugal volta a ser fustigado pelos incêndios. O País viveu o pior domingo do ano, no dia 15 de outubro, com o número de fogos a atingir os 523 e a provocar, até ao momento, 38 mortos. Adelino Gomes, vice-presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses falou ao mediotejo.net, esta segunda-feira, à margem de uma sessão de certificação de competências operacionais no quartel dos Bombeiros Voluntários de Abrantes. O também comandante dos Bombeiros Voluntários de Constância apontou o dedo à Autoridade Nacional de Proteção Civil, considerou existir descoordenação, falta de planeamento e classificou de “terrorismo” a deflagração de tantos focos de incêndio ao mesmo tempo.

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O vice-presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Adelino Gomes, espera que as mais de 100 mortes ocorridas nos últimos quatro meses em Portugal, nomeadamente no recente fatídico 15 de outubro “alerte consciências” sendo urgente “um planeamento” a montante relativamente aos incêndios. “Não temos de reagir mas planear e saber o que fazer em situação de tragédia”, advoga.

Foi lamentando a morte de “mais de três dezenas de cidadãos deste País que estavam a tentar defender os seus bens” que Adelino Gomes, bombeiro há mais de 40 anos, iniciou a conversa com o mediotejo.net, esta segunda-feira à tarde, no quartel dos Bombeiros Voluntários de Abrantes. Considerou que a tragédia dos incêndios florestais em Portugal, que além das vítimas mortais, no final de setembro tinham destruído mais de 215 mil hectares “não pode ser tratado de forma tão infantil”.

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O também comandante dos Bombeiros Voluntários de Constância admitiu a existência de seca extrema, condições meteorológicas adversas, uma “floresta muito mal tratada” aliada “à falta de dinheiro que as pessoas têm para fazer a limpeza dos terrenos à volta das casas” e ainda “o próprio desleixo das autarquias talvez também por falta de capacidade financeira”. No entanto, não hesita na crítica à gestão do combate pela Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC)  e defende que desde o início das ocorrências o verdadeiro problema reside na “falta de coordenação”.

Relembrou que na época do incêndio de Pedrogão Grande já afirmava que a responsabilidade da tragédia “ainda ia sobrar para os bombeiros”. E agora, dias depois de ser conhecido o relatório sobre a dinâmica do fogo em Pedrogão com a lista das falhas a centrarem-se nos meios e no comando, refere a tentativa de “atribuir responsabilidades ao mais pequenino, àqueles que tudo fizeram no terreno para poder fazer o seu trabalho bem feito”.

Para Adelino Gomes quem está a coordenar, referindo-se à ANPC, “não tem noção do País nem do que está a acontecer”. Como justificação das suas declarações exemplifica com um incêndio perdido. “Podem colocar mil ou dois mil bombeiros que não tem condições técnicas para ser apagado, e continuamos a meter meios nesse incêndio deixando crescer outros que estão nascentes”. A ser essa a “nova filosofia” da ANPC “está muito errada” considera, referindo também os meios aéreos “muitas vezes em causas perdidas, apenas a gastar horas” numa dispersão de meios.

“Quem chega aos comandos das operações não tem o mínimo conhecimento. Uma falta de experiência muito grande porque neste País entrou-se na fobia do canudo que não resolve tudo” sustenta.

Advoga um planeamento realizado “em primeiro lugar pelas autarquias e depois aceite pela ANPC” como a única solução tendo em conta as condições da floresta portuguesa e as condições atmosféricas que nos últimos dez anos sofreram alterações provocando “incêndios muito violentos”.

Adelino Gomes afirma que “ninguém acreditou naquilo que disseram aqueles três comandantes” englobando também o quarto comandante, “o 2º CODIS [Comandante Operacional Distrital de Operações de Socorro] de Leiria a quem atribuem hoje as responsabilidades”. No entanto, diz, “se tiverem coragem de ler a verdadeira fita do tempo daquilo que se passou em Pedrogão” conclui-se que “a responsabilidade é de quem não acreditou naquilo que o próprio IPMA afirmou na altura e das condições atmosféricas e climatéricas a desenvolver-se em Portugal” que resultariam neste desfecho.

O responsável refere não compreender a afirmação do primeiro-ministro ao declarar que “o governo não tem uma varinha mágica para poder resolver as situações”. Apesar de perceber que “o governo não vai apagar fogos” lamenta que não se confie nos homens que estão no terreno e que os incêndios estejam a ser combatidos a partir de Lisboa.

“Tem de acreditar nos homens que têm experiência” sendo a prova que “nesta situação critica os bombeiros têm cerca de três mil operacionais no terreno a combater incêndios e não estão a ganhar dinheiro” colocando em causa as declarações do secretário de Estado da Administração Interna que atribui aos bombeiros salários na ordem dos 1400 euros. “Estes homens são voluntários e não conseguem fazer mais do que estão a fazer”, defende.

E questiona: “como é possível que num dia, em menos de 24 horas, haja mais de 500 ignições e que as autoridades deste País não tenham conseguido apanhar alguém” em flagrante delito? E duvida dos números de policiais no terreno. “Não são tantos como era necessários muitas vezes e as autoridades de investigação que deveriam estar no terreno não estão”.

O comandante classifica como “ignições criminosas” as que têm início durante a noite e recorda as suas declarações em junho quando denunciou estarmos perante “atos terroristas”. Sustenta ser “incompreensível” que às 3 e 4 da manhã ocorram ignições. “Só pode ser terrorismo! E não me digam que são bêbados ou dementes mentais” reforça.

Acreditando em ‘mão criminosa’ e percorrendo o País de norte a sul, Adelino Gomes garante ter visto “muita coisa” mas recorda que “os bombeiros não são órgãos de investigação” sendo áreas da competência da Guarda Nacional Republicana e da Polícia Judiciária. Admite, contudo, que os bombeiros “levantam e identificam” muitas situações que até são investigadas, acabando por “não dar em nada por falta de provas”. Garante que “qualquer elemento dos bombeiros quando vê uma situação anormal reporta imediatamente às autoridades” apesar da investigação “não ser papel dos bombeiros” sendo a sua preocupação “a falta de planeamento”.

Aceita que a intenção dos incendiários “até não seja matar pessoas” mas sim “destruir a mancha florestal e a economia do País” podendo ser evitado com a antecipada preparação que impede a existência de incêndios de grandes proporções. “Alguns dos incendiários são conhecidos, há que os reter” durante o período de risco de incêndio, não defendendo a prisão mas a integração de forma a que “possam sentir na pele” as consequências das más ações.

Abrantes/ Comandante Adelino Gomes vice-presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses comenta os trágicos incêndios ocorridos este domingo 15 de outubro dos quais resultaram pelo menos 31 vítimas mortais.

Publicado por mediotejo.net em Segunda-feira, 16 de Outubro de 2017

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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