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Sábado, Janeiro 22, 2022
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Incêndios | Uma crónica de cinzas, suor e lágrimas

Quando entrei na vila de Mação, na tarde de quinta-feira, 18 de agosto, marcava o relógio as 17 horas, parecia que estava no cenário de um filme de ação: estradas cortadas pelas autoridades, carros de bombeiros que circulavam em marcha de urgência para trás e para a frente, helicópteros que rugiam enquanto cruzavam os céus em manobras arriscadas, carrinhas pick-up carregadas de depósitos de água com populares empoleirados e pessoas, muitas pessoas, nas ruas com mangueiras e outros artifícios prontos a entrar em acção.

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Tudo porque as chamas – que já tinham obrigado à evacuação de dezenas de aldeias – agora ameaçavam a malha urbana da sede do concelho. Um arrepio percorreu-me a espinha só de pensar nessa possibilidade porque os bombeiros – mais de mil homens e mulheres, contavam-me – estavam a combater o fogo na floresta.

Para trás já tinha deixado quilómetros e quilómetros de aldeias desertas em Ferreira do Zêzere e Vila de Rei, dois concelhos igualmente fustigados pelos incêndios neste verão quente de 2017. Quente é um eufemismo. Infernal é o termo adequado quando se digerem estes momentos já a alguns dias de distância. Um inferno que se observa, a quilómetros de distância, quer na forma de chamas em vermelho vivo, quer na forma de uma nuvem de fumo negro. Muito negro. E, depois, achamos sempre que a nossa máquina fotográfica nunca vai conseguir captar, de forma fiel, a revolta dos populares, o esforço dos bombeiros, a expressão desanimada dos autarcas que olham para o negro do território. É o cansaço a atolar-nos o pensamento.

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Quem anda no terreno, a fazer reportagem de incêndios, já sabe que não tem uma tarefa fácil pela frente. É a incerteza do que vamos encontrar. É o calor, a fome e a sede porque não se pode parar quando se quer mas sim quando se pode. São as estradas e estradões a fumegar dos dois lados, os postes de telecomunicações ainda a arder, o cheiro a terra queimada, o fumo que irrita a garganta e causa ardor nos olhos, o “cemitério” de placas queimadas, a falha de rede e internet e, o mais difícil, o contacto com a desgraça alheia. Com aqueles que viram o fogo a ameaçar o seu lar, o filho da mãe que lhes roubou o sustento. Mesmo assim, o que mais me tocou por estes dias no terreno foi o enorme coração destas gentes que, estoicamente, se consegue reerguer das cinzas. É isso que me fica destes dias, agora que “a besta” cedeu ao trabalho dos homens ou, como muitos dizem, já não tem mais o que comer.

A força de um povo que não se verga perante as cinzas, mesmo com suor e lágrimas. A força do povo do Médio Tejo.

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Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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