Incêndios | Proteção Civil distribuiu 70 mil golas antifumo que, além de inflamáveis, não filtram fumo nenhum

A Proteção Civil entregou milhares de “kits de emergência” no âmbito do programa “Aldeia Segura – Pessoas Seguras” que, afinal, não são seguros para proteger as populações caso de incêndio – muito pelo contrário.

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Por exemplo, foram distribuídas 70 mil golas antifumo fabricadas com materiais inflamáveis, como o poliester, e sem qualquer tratamento anticarbonização, não tendo por isso eficácia na filtragem de fumos e na proteção de quem o usar em cenários de incêndio, revela hoje o Jornal de Notícias.

Cerca de 15 mil “kits de emergência” foram distribuídos por todo o país e duas mil povoações receberam estas 70 mil “golas antifumo” fornecidas pela empresa Foxtrot, que recebeu 328 mil euros da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil: 125 mil euros dizem respeito à aquisição destas 70 mil golas antifumo, e o restante valor pagou outros itens inseguros, como coletes refletores também produzidos com material inflamável.

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Estes kits, compostos ainda por uma lanterna, apito, garrafa de água, barra energética e bússola, estão a ser distribuídos desde o verão de 2018 em zonas de risco elevado de incêndio.

Ao JN, o proprietário da empresa fornecedora deste material justifica-se dizendo que a Proteção Civil nunca referiu que seriam para usar em caso de fogo: “Juro que achei que isto seria usado em ações de merchandising.”

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Ricardo Fernandes reafirmou esta manhã à Renascença que apenas se cingiu ao caderno de encargos. “Respeitámos tudo o que lá estava mencionado”, sublinhou, reconhecendo que as golas distribuídas à população “não são adequadas”.

As mais de 70 mil golas de proteção de fumo para pescoço e rosto que foram compradas pela Proteção Civil e depois foram distribuídas em aldeias localizadas em zona de especial risco de incêndio, mas que afinal eram inflamáveis, foram adquiridas a uma empresa detida pelo marido de uma autarca socialista. A notícia é avançada pela revista Sábado, que refere que a Foxtrot — Aventura, Unipessoal, Lda. pertence a Ricardo Nuno Peixoto Fernandes, residente em Longos, Guimarães e casado “em comunhão de adquiridos” com a presidente da junta de freguesia de Longos, Isilda Silva, eleita com o apoio do PS.

Meio ano depois de ser constituída, já em junho de 2018, a Foxtrot — Aventura, Unipessoal, Lda celebrou dois contratos com a Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC), vendendo as golas (que caso sejam utilizadas durante um incêndio representam risco acrescido para os cidadãos) e outro material de “auto-proteção” por um valor total de 328.356 euros.

A Proteção Civil justifica-se dizendo que estes “kits de emergência” não passam de um “estímulo à implementação local dos programas” e que “não assumem características de equipamento de proteção individual, nem se destinam a proporcionar proteção acrescida em caso de resposta a incêndios”.

Incêndios de 2017, Sardoal. Foto: Paulo Jorge de Sousa/mediotejo.net

O presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Jaime Marta Soares, disse ao Público que este caso é “gravíssimo” e pede ao Ministério da Administração Interna que abra um “inquérito rigoroso” para apurar responsáveis. Além disso, diz, as golas e coletes deveriam ser recuperados “imediatamente”, porque dão uma falsa ilusão de proteção a quem os use: “Pode estar em risco a vida das pessoas.”

Enquanto representante dos bombeiros portugueses, Jaime Marta Soares diz lamentar que uma estrutura preventiva esteja “a lançar achas para a fogueira”. E a ser verdade que esta decisão foi tomada por este material ser mais barato, “têm de ir a julgamento, porque é crime”, considera.

A Foxtrot é uma pequena empresa de animação turística com sede em Fafe (Foxtrot Aventura Unipessoal), ou seja, não é um fornecedor qualificado de material de proteção civil.

O programa “Aldeia Segura – Pessoas Seguras” foi criado após os grandes incêndios de 2017 e a tragédia de Pedrógão Grande, e resulta de um protocolo assinado entre a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, a Associação Nacional de Municípios Portugueses e a Associação Nacional de Freguesias, para implementar estratégias de proteção das localidades face a incêndios rurais e sensibilizar as populações para a adoção de práticas que minimizem o risco de incêndio.

É definido na Resolução do Conselho de Ministros no 157-A/2017, de 27 de outubro, como um “Programa de Proteção de Aglomerados Populacionais e de Proteção Florestal” destinado a estabelecer “medidas estruturais para proteção de pessoas e bens, e dos edificados na interface urbano-florestal, com a implementação e gestão de zonas de proteção aos aglomerados e de infraestruturas estratégicas, identificando pontos críticos e locais de refúgio”. Destina-se também a promover “ações de sensibilização para a prevenção de comportamentos de risco, medidas de autoproteção e realização de simulacros de planos de evacuação, em articulação com as autarquias locais”.

*Noticia atualizada às 15:30

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Patrícia Fonseca
Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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