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Quinta-feira, Outubro 28, 2021

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Incêndios/Mação | Idosos de Casas da Ribeira regressam às casas que o fogo lhes roubou (c/vídeo)

Foi uma manhã de emoções para Delfim Jacinto, 93 anos, e Maria de Jesus Marques, 86 anos, habitantes de Casas da Ribeira. Esta terça-feira, dia 30 de outubro, receberam finalmente as chaves das suas habitações, recuperadas com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, após terem ardido totalmente nos incêndios do verão de 2017. Ao todo, foram cinco as casas apoiadas, juntando outras três afetadas parcialmente nas localidades de Penhascoso, Serra e Vilar da Lapa.

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Apoiado no seu andarilho, Delfim entra na nova casa, seguido por um dos seus filhos, Manuel Jacinto, residente em Lisboa. “Foi uma sorte, por um lado, ele ter partido uma perna e na altura do incêndio estar em recuperação no lar. Se não, provavelmente, as coisas teriam sido muito piores…”, desabafou Manuel.

Foi com emoção que lembrou o dia em que teve de contar ao pai que a casa tinha sido devastada pelas chamas, e lembra a preparação que foi sendo feita para evitar que o choque fosse (ainda) maior. “Não foi fácil trazer cá o meu pai. Preparei-o antes de vir, a dizer que tinham ardido os terrenos todos… Mas quando chegou aqui, ao olhar para o que restava da casa… estava tudo destruído, inclusivamente havia copos de vidro derretidos, tal não foi a temperatura que ali se atingiu… Chorámos juntos, nessa altura.”

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Já Delfim Jacinto, proprietário da casa, mostrava-se sorridente e grato por lhe terem devolvido a esperança ao reerguer a habitação de uma vida, da qual sobraram apenas paredes, e distribuía agradecimentos a todos os presentes, emocionado e bem-disposto.

Delfim Jacinto recebe as chaves da casa recuperada. Foto: mediotejo.net

Noutra ponta da aldeia, uma história idêntica. Mas neste caso, Maria de Jesus Marques sentiu literalmente na pele as consequências do poder das chamas.

Aos 85 anos, muito despachada e senhora de si, já dava conta da prevenção “a ‘ogar’ à volta da casa, com mangueiras e baldes”. Porém, a certa altura, começou a chover lume, entrando pelo telhado e sótão. Gritou por socorro, desejando ter um telemóvel para chamar os bombeiros a sua casa, para que a acudissem. A casa, essa, não podia arder de maneira nenhuma. Tinha de a proteger, fosse como fosse.

“Quando andei a apagar o fogo, com um tapete molhado, andava a abafá-lo por cima, aqui e ali, e nunca pensei que me ardesse a casa. Ia ali apagava, depois ia além apagava… Até que começaram a cair barrotes para cima de mim”, lembrou a idosa, recordando que conseguiu depois pedir ajuda a alguns bombeiros para que a ajudassem a resgatar as suas coisas, que logo a aconselharam a esperar junto da estrada e a não sair dali. Mas Maria de Jesus queria conseguir salvar as suas coisas, antes que o fogo as consumisse.

Foi Pedro Jana, o comandante dos Bombeiros de Mação, que interveio na altura certa, ajudando a idosa que, sem ter consciência do estado em que se encontrava e quase fora de si, tinha várias queimaduras na pele e as vestes ardidas, tal como o lenço preto que trazia na cabeça e que hoje guarda, esburacado, num saco, prova de que até o cabelo ardeu.

Ficou como memória do dia em que o Comandante lhe ordenara seguir para o Centro de Saúde de ambulância. “Ele disse assim: ‘Você já não vai à sua casa, porque a sua casa alguém há-de ajudar a arranjar, e a sua vida ninguém lha dá. Você para ali não volta, e se não for a bem [para o Centro de Saúde] vai a mal’. E lá me levaram, e quando cheguei nem sabia que já lá tinha chegado”, contou a octogenária.

O alívio e a alegria de Maria de Jesus era tanto, que enquanto a entrevistávamos no seu renovado quarto, já dignamente mobilado, se atirou sem dores ou tristezas para o conforto da sua nova cama, pulando no colchão e acariciando a colcha.

“Agora já tenho a minha caminha, é uma cama boa e grande. E já me estou a sentir mais contente”, diz, esboçando um sorriso luminoso, que há muito tempo não tinha vontade de mostrar. “Dantes custava-me passar aqui, porque não tinha nada e dizia isso aos meus filhos. Trazia um nó muito grande por não estar na minha casa e não ter as minhas coisas. Até foi um filho meu que me comprou o fato para eu poder ir ao casamento da minha neta Marta, porque não sobrou nada.” Nem o guarda-fatos, nem a televisão, nem a arca frigorífico, ou os móveis. Restaram os leitos de ferro, ardidos e pousados no cabeço de frente para a casa, das camas que tinha nos quartos para os filhos e netos usarem quando a visitavam. Mas o que importa é que Maria de Jesus conseguiu curar as suas queimaduras, especialmente as dos braços, e mantém a sua vivacidade, bem como o pedaço de quintal com pomar à porta de casa. E agora pode voltar a consolar-se noutro lume: à lareira, nas noites frias que já se fazem sentir.

Maria de Jesus, na varanda da sua casa agora reconstruída, segurando confiante as chaves de um novo capítulo. Foto: mediotejo.net

Fundação Calouste Gulbenkian com “sensação de dever cumprido”

Luísa Valle, diretora do Programa Gulbenkian de Desenvolvimento Humano da Fundação Calouste Gulbenkian, que se fez acompanhar de Celso Matias, antigo diretor da Fundação e membro da equipa técnica, disse em declarações ao mediotejo.net que esta atuação surge no âmbito da “ajuda de pós-emergência”, ou seja, “situações como esta, com casas que foram ou muito danificadas ou totalmente danificadas, de primeira habitação e onde residiam pessoas”. Outra das vertentes é a ajuda a pessoas que praticavam agricultura de subsistência ou apicultores, aos quais são dadas “pequenas ajudas para que retomem e reponham os bens perdidos”. Este apoio acontece por via de doações de instituições, empresas ou pessoas singulares. Ao todo, quatro milhões de euros que estão a ser geridos pela Gulbenkian no apoio às vítimas dos incêndios, dando primazia aos concelhos que mais arderam, nomeadamente em junho de 2017.

A entrega destas duas habitações, as duas últimas de cinco recuperadas no âmbito do apoio da Fundação Gulbenkian, representa para Luísa Valle uma “sensação de dever cumprido”.

“Nós existimos para isto, para pensar nas pessoas, nas suas necessidades e para ajudar, tendo uma perspetiva de futuro. E aqui temos um pequeno exemplo de que cumprimos essa missão da Fundação.”

Por seu turno, Vasco Estrela, presidente da Câmara Municipal de Mação, sentiu que este foi “um momento reconfortante, tendo em conta a tragédia que aconteceu” no ano passado, e agradeceu à Gulbenkian, bem como a todas as entidades envolvidas e que “comparticiparam este fundo, para que fosse possível chegarmos ao dia de hoje terminando o processo de reabilitação das casas que arderam em 2017 no concelho de Mação”.

Luísa Valle, da Fundação Gulbenkian, Vasco Estrela, presidente da CM Mação, e Maria de Jesus Marques, no momento de entrega das chaves da casa agora totalmente recuperada. Foto: mediotejo.net

Para o autarca foi um “momento de alegria”, ainda que tenha lamentado o facto de “ninguém do Governo, nem nenhuma entidade estatal estar representada, nem nunca ter estado ou questionado a Câmara sobre este processo. Noutros locais vemos estes momentos serem mais pomposos. Não é que nós os quiséssemos, mas se calhar não teria ficado mal uma palavra (…). Mas o que importa para as pessoas é que as coisas estejam tratadas e resolvidas, e as atitudes ficam todas para quem as pratica”.

O sentimento de injustiça continua muito presente no seu discurso e, durante as suas declarações ao nosso jornal, Vasco Estrela frisa que Maria de Jesus Marques personifica a discriminação do Estado para com os maçaenses. “Esta senhora é uma vítima dos incêndios, atingida pelo fogo objetivamente, e para o Estado português esta senhora não é vítima dos incêndios. Quando esta senhora sofreu, literalmente, na pele as consequências do fogo, ao contrário de outros cidadãos portugueses, doutros locais. Mas esta senhora seria considerada ‘vítima de incêndio’ residindo noutro local”, lamentou, referindo-se à discriminação na distribuição de apoios pós-incêndios pelo governo, que deixou Mação de fora dos apoios a 100% [atribuindo-lhe apenas 60%], o que levou a autarquia a avançar com uma ação judicial contra o Estado.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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