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Segunda-feira, Janeiro 24, 2022
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Incêndios | Estado deve exercer “pedagogia do exemplo” com gestão das matas nacionais – investigador

O Estado deve exercer a “pedagogia do exemplo”, com a gestão florestal das matas nacionais, e evitar a “posição impositiva” da legislação aos cidadãos, defendeu hoje Luciano Lourenço, do núcleo de investigação de incêndios florestais da Universidade de Coimbra.

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“O problema trata-se, sobretudo, da paisagem florestal que temos, bastante abandonada ou então aparentemente tratada, mas que na generalidade continua entregue a si própria, e sem gestão, sem ocupação desse território, parece-me que não vamos conseguir resolver o problema dos incêndios”, afirmou o investigador Luciano Lourenço, em declarações à agência Lusa.

Para o especialista em incêndios florestais, a legislação produzida nesta área é “mais do que suficiente”, mas é preciso que seja aplicada no território.

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“Muito sinceramente, quando ando por aí, vejo a implementação de uma ou outra medida, mas não as vejo implementadas com carácter generalizado como seria suposto”, declarou o diretor do núcleo de investigação de incêndios florestais da Universidade de Coimbra, apontando, ainda, como grande falha a comunicação da legislação aos cidadãos.

Na perspetiva do investigador, o Estado tem-se colocado numa “posição impositiva”, produzindo a legislação e fiscalizando o cumprimento da mesma, “em vez de trabalhar junto dos cidadãos”, que não participam, normalmente, na elaboração das leis, mas sofrem as consequências dos incêndios.

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Além disso, os cidadãos “acabam por ficar, muitas vezes, sem possibilidade de compreender a própria legislação”, alertou Luciano Lourenço, defendendo a sensibilização junto das populações, através do trabalho das autarquias.

“Os incêndios florestais são, essencialmente, um problema de natureza social, são um risco social e é por aí que têm que ser atacados. Enquanto não forem atacados por essa via, muito provavelmente, vamos continuar a ter incêndios florestais e grandes incêndios florestais, porque sem o envolvimento das populações, dos proprietários florestais, dos agentes que intervêm na floresta não vamos conseguir encontrar forma de gerir o espaço florestal”, avançou o investigador, reconhecendo que as soluções tecnológicas são importantes, mas são insuficientes para resolver o problema.

Neste âmbito, o responsável pelo núcleo de investigação de incêndios florestais da Universidade de Coimbra disse que é necessário existir uma interligação entre o Governo central e as autarquias na implementação da legislação na área da floresta, com a disponibilização de recursos e meios, indicando que há “muitas particularidades a nível local e que têm que ser tratadas a nível local, porque as soluções que servem no município X podem não ser as adequadas ao município Y ou mesmo dentro do próprio município”.

“Penso que o Estado teria a obrigação de exercer a pedagogia do exemplo”, reforçou o especialista em incêndios florestais, referindo-se à gestão das matas nacionais, “que poderiam ter um aproveitamento florestal completamente diferente daquele que existe hoje”, através do arrendamento a longo prazo de terrenos que estão abandonados.

Segundo Luciano Lourenço, a solução para o problema dos incêndios tem que ser enquadrada em termos de médio e longo prazo.

“A aposta tem sido, essencialmente, tecnológica. Temos muitos mais meios do que tínhamos no passado, mas como se comprova eles não são suficientes para resolver o problema dos incêndios, porque antes disso há toda uma série de questões que estão subjacentes ao território, ao seu ordenamento, à sua gestão, à forma como a população participa ou não nessas medidas e que não se conseguem resolver de um ano para o outro”, sustentou o investigador, destacando a importância da continuidade das intervenções, em vez de “muitas ações pontuais, que podem ser muito mediáticas, mas que depois têm pouca visibilidade em termos práticos e em termos de execução”.

Sobre a reforma da floresta do atual Governo, o investigador considerou que “não traz muitas novidades em relação a outras anteriores”, acrescentando que, “em termos objetivos, as grandes reformas já vêm de trás”, lembrando que a primeira grande reforma foi em 1971.

Vários incêndios deflagraram no distrito de Castelo Branco ao início da tarde de sábado. Dois com origem na Sertã e um em Vila de Rei assumiram maiores dimensões, tendo este último alastrado, ainda no sábado, ao concelho de Mação, distrito de Santarém, tendo este sido dominado na terça-feira.

Agência de Notícias de Portugal

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