Incêndios | Crónica de uma noite de fogo e uma manhã de cinza

Gavião

Começo por uma conclusão: o grande aliado do fogo é o cansaço. Durante as minhas reportagens em incêndios nos concelhos de Abrantes, Mação e Gavião, o vento soprava forte, por vezes violento. O calor classificado como próprio de um verão escaldante, amante de terra queimada, seca que está por falta das chuvas invernosas. Mas se o corpo não tivesse urgência de descanso, o combate eventualmente seria mais simples. No fundo, se fossemos máquinas, isentas de dilemas, com escolhas programadas e corpos infalíveis.

Os operacionais que observei no terreno durante as semanas em que as chamas consumiram milhares de hectares nos conselhos do Médio Tejo, estavam mais cansados que desordenados. Vi rostos sujos pelo negrume da fuligem, doridos pelas mazelas do combate, exaustos de puxar mangueira em terrenos acidentados, graníticos e serranos. Aceleravam os carros pela urgência da batalha. Corriam para defender pessoas e habitações, baralhados pelas contínuas reactivações. Ninguém entendia os reacendimentos – em triângulo, em rectângulo, quem sabe em losango -, a velocidade da propagação.

A floresta ardia, mas nem com mil braços se vence a força da natureza. E se as gentes aflitas, no desespero de perder casas, gado, vinhas, olivais e pinhais consideravam a acção da Protecção Civil própria de uma “barata tonta”, também viram com olhos habituados às insónias, de noites mal dormidas, que na verdadeira angústia o instante não é folgado para uma natureza sem tréguas.

Alguns bombeiros batalhavam contra a ‘besta’ desde Pedrogão Grande. Muitos jovens, outros que já não caminham para novos fazendo um esforço para parecer que se é novo quando se anda nisto há cem mil anos. Tal como a maioria das pessoas que resgataram por estes dias nas centenas de aldeias em perigo, com o fogo colado às casas, com o céu vestido de negro parecendo uma noite infindável, cercados de chamas, gigantes incendiados em que se transformaram os eucaliptos, sem qualquer humidade que não fosse lágrimas vertidas por quem, desolado, vivia mais uma vez o inferno.

Por mais anos que viva, nunca esquecerei a noite das labaredas longas de 16 de agosto, em Mação. Aguardava com alguns jornalistas no Posto de Comando Operacional pelo ponto de situação. Entretanto, o céu enegreceu raiado de vermelho como veias de cólera. Fogos de um lado e do outro, colunas de fumo até ao céu. Uma extensa cortina negra cobria o Sol, revelando-se uma bola vermelha quando o fumo dissipava.

As chamas chegavam à zona industrial da vila. O vento empurrava o fogo e o ar facilmente se tornou irrespirável. O cheiro a queimado inflamava as narinas, contudo sofria-se mais na parte baixa de Mação, onde a tragédia entrava olhos dentro e fazia chorá-los, ora de desespero ora pela intensidade do fumo. Populares inquietos partilhavam receios em sobressalto, no café do Pica Fino, nas ruas junto à ponte velha, no alto do Centro Cultural Elvino Pereira. O fogo consumia Vale de Abelha, Rosmaninhal e Monte Penedo. “Que tragédia” ouvia-se por todo o lado. “Nunca se viu nada assim” repetia-se.

Ficámos sitiados. As estradas cortadas. De Mação ninguém sai e nem ninguém entra. No Largo da Feira carrinhas, jipes, carros de rasto, camiões cisterna, ambulâncias do INEM, da Cruz Vermelha, a Unidade Militar de Emergência espanhola concentram-se à volta das tendas. À meia-noite o vento acalmou, por Mação, por todos nós, alguns talvez em oração, pedindo tréguas numa batalha que os homens não estavam a conseguir vencer. A ‘besta’ rugia depois mais forte em Sardoal. Aldeias evacuadas, idosos em pânico. Gente intoxicada. Gente exausta. Nervosa e ansiosa para que o cenário dantesco desaparecesse rapidamente.

A manhã chegava mais tranquila, serenada pelo fresco da noite. O cenário verdejante havia desaparecido. Tudo à volta em tons de negro e cinza. E as gentes inconformadas pela perda. Mutiladas pelo medo, embora de pânico resolvido, chegava o súbito receio do pico do calor e do vendaval. E que tempo é esse que aí vem? Ou até se tempo havia, visto que por aquelas terras está tudo virado do avesso. Os mais idosos desolados temem já não resistir ao demorado ciclo natural de ver tudo florescer.

Os populares relembram o fogo de 2003, reavivado após um atenuado esquecimento. Afinal o verde tinha voltado, a floresta tinha crescido, o cenário era fresco e deslumbrante. E apostando, na mãe natureza, os autarcas trabalhavam com o objectivo de trazer de volta os filhos da terra.

Guardarei também na memória o uivo do vento a bater nas árvores chamuscadas, entre sombras, como murmúrios, moribundas em Vale de Coelho, que mais parece o vale da morte. E o nó na garganta quando cheguei à Quinta do Alamal, em Gavião, habituada que estava a minha alma à deslumbrante paisagem verdejante. Na vez dela, o reino das trevas, o rasto dantesco da ‘besta’ num cenário quase assombrado.

Mas no meio do inferno encontrei gente incansável, que na desgraça ajuda o próximo em nome da causa pública. Encontrei populares com acções que fazem deles melhores pessoas, verdadeiros campeões das pequenas batalhas, uma vez que a batalha fulcral travava-se alguns metros à frente. Gente que com sofrimento, entreajuda e coragem enfrenta o medo e o consegue derrotar. Um combate não por um lugar na história mas pela diferença entre a vida e a morte. Voluntários que fazem sandes aos milhares ou passam semanas com poucas horas de sono na missão de alimentar os bombeiros.

Agora é tempo de recomeços, de reerguer o que foi consumido pelas chamas. O tempo agora é de especialistas, de agendas, de reuniões, de políticos, de projectos e de ideias novas para que o território se ordene. Todos os nossos gurus irão avançar com planos. Espero que não esqueçam que o pobre centro do País mais pobre ficou. Os turistas fogem para outras paragens mais verdes e seguras. O interior já não pode contar com a sua beleza incomparável.

Aos adjectivados concelhos como desertos populacionais, não se esqueçam de acrescentar: desertos de cinza a precisar de ajuda.

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