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Incêndios | Câmara de Mação diz que declarações de António Costa foram “imprudentes” e “ofensivas” (c/AUDIO)

O presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela, disse hoje ao mediotejo.net que as declarações do primeiro-ministro sobre a responsabilidade dos autarcas pela proteção civil “foram imprudentes e ofensivas” e garantiu esperar que a leitura feita dessas palavras seja corrigida.

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“O senhor primeiro ministro foi muito imprudente nas suas declarações, ofensivo para os autarcas, e não me revejo minimamente naquelas palavras, e numa altura em que o verão está quase que a começar não são palavras adequadas do Primeiro Ministro de Portugal”, vincou o autarca de Mação.

“Já respondi ontem ao senhor Primeiro-Ministro e da parte da Câmara Municipal de Mação tenho a dizer que essa carapuça não me enfia. Aliás, ele esteve cá em 2016 e elogiou o nosso trabalho. Portanto, deve estar a dirigir-se a outros autarcas que não os da Câmara de Mação, uma vez que tentamos fazer aquilo que nos foi pedido e exigido”, disse o autarca.

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“Não estou a dizer que fizemos tudo, tudo, tudo o que tínhamos para fazer, porque era impossível conseguir fazê-lo, ainda por cima em territórios abandonados, onde não há ninguém, onde não há sequer ninguém para fazer as coisas”, observou Vasco Estrela.

O primeiro-ministro sublinhou na segunda-feira que os autarcas são os “primeiros responsáveis pela proteção civil em cada concelho”, ao responder a críticas como a do vice-presidente da Câmara de Vila de Rei sobre a prevenção dos incêndios.

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“Eu não faço comentário enquanto os incêndios e as operações estão a decorrer e, sobretudo, não digo aos que são os primeiros responsáveis pela proteção civil em cada concelho, que são os autarcas, o que é que devem fazer para prevenir, através da boa gestão do seu território, os riscos de incêndio”, disse António Costa aos jornalistas.

Vasco Estrela durante o incêndio de julho de 2017 em Mação. Foto: Paulo Jorge de Sousa

Contactado pelo mediotejo.net, Vasco Estrela disse rejeitar as críticas e afirmou estar solidário com as declarações dos autarcas de Vila de Rei.

“O senhor primeiro ministro deveria ter direcionar bem as suas críticas, os seus recados, para outros autarcas que não o autarca de Mação. Não me senti atingido por isso, e aliás era bom que pudesse confirmar ou mandar confirmar na nossa região pelos serviços pela tutela ou comandante tutelar que autarcas fizeram o que nós fizemos, desde limpeza das estradas até dez metros de cada lado. Seria importante, para podermos confirmar isso, e ele depois ter a coragem de dizer se os autarcas o fizeram, até do Partido Socialista”, afirmou.

“Cometemos erros, não fizemos tudo, somos também pecadores, mas acho que foi perfeitamente inusitada a declaração do senhor primeiro ministro, até porque o presidente da CM Mação e os outros presidentes de Câmara não têm nenhuma palavra positiva, muito longe disso, em termos operacionais de disponibilização de meios para este ou para aquele local”, referiu Estrela.

“Aproveito para dizer que durante este incêndio não fui chamado para nenhuma decisão fundamental, e nenhuma decisão fundamental me foi comunicada com exceção desta decisão de o incêndio estar em resolução. Quando o posto de comando esteve em Vila de Rei nunca fui chamado lá, nunca me deram uma satisfação sobre o evoluir da situação, com exceção de algumas palavras do Comandante Mário Silvestre, que teve a amabilidade de vir duas vezes a Cardigos falar comigo, inteirar-se e explicar como as coisas estavam”, frisou o autarca de Mação.

“Se o senhor primeiro ministro acha que eu, como presidente de Câmara, sou o responsável máximo da Proteção Civil, devo dizer-lhe que é melhor que dê novas diretrizes à ANEPC para podermos realmente afinar procedimentos… porque o responsável máximo que não sabe o que se está a passar no território, que estão a evacuar populações e não lhe transmitem, não lhe reportam nada do que estão a fazer… Digamos que não mais faz do que – quase que diria – figura de palhaço.”

Vasco Estrela, presidente da Câmara Municipal de Mação. A autarquia avançou com providência cautelar por entender que houve discriminação nos apoios aos municípios afetados pelos incêndios de 2017. A justiça deu-lhe razão. Foto: Paulo Jorge de Sousa

A área ardida desde sábado em Mação é de cerca de 6 mil hectares, “praticamente toda” a área que escapou ao igualmente tenebroso incêndio de 2017, de 23 a 27 de julho, que consumiu mais de 18 mil hectares.

“Sobram-nos para já mil hectares, ou talvez nem isso, junto à zona de Cardigos”, disse Vasco Estrela, apontando para mais de 15 aldeias da freguesia de Cardigos e Amêndoa fustigadas pelas chamas.

Vasco Estrela acrescentou que foram deslocalizadas pessoas idosas, “por precaução” e para garantir “maior segurança”, estando distribuídas em várias instituições, caso do Lar de Carvoeiro e para o Lar da Santa Casa da Misericórdia de Cardigos.

No terreno, o município tem já técnicos da Ação Social a proceder “a levantamento das necessidades das pessoas”.

Questionado sobre se o pesadelo estaria perto do fim, o presidente da Câmara de Mação mostrou-se apreensivo, lembrando que cerca da hora de almoço de segunda-feira também se pensava estarem reunidas condições para dar por concluído o incêndio, o que acabou por inverter-se, dando lugar a mais uma tarde de luta contra três a quatro frentes ativas que passaram a arrasar as aldeias de São Bento, Chaveira e Chaveirinha, bem como na zona da Roda e Arganil, varrendo uma imensa área florestal, essencialmente composta por pinhal.

“Neste momento, é com esse sentimento que estamos, mas vamos tentar ver como as coisas podem ou não evoluir e vamos aguardar”, disse, prudente, uma vez que são as condições atmosféricas que irão ditar o destino nas próximas horas, sendo certo que o calor começa a apertar.

Vasco Estrela disse ainda ao mediotejo.net que tem cumprido a sua obrigação, estando junto das populações.

“É a minha obrigação tentar estar o mais próximo das pessoas, tentar passar pelos locais, tentar ver o que se passa e perceber o que outros estão a decidir para o meu território, para a minha população (…) estou com a consciência que de tudo fiz para evitar isto, os meus colegas autarcas, independentemente dos partidos políticos, também o fizeram, e os serviços da Câmara também. Estamos todos com a consciência de dever cumprido”, afirmou, sublinhando não ter certeza que “outros estejam com a mesma consciência com que estamos”.

Vasco Estrela, presidente da CM Mação, interpôs uma providência cautelar para incluir o município na distribuição de apoios e anunciou este mês nova ação judicial pelo desvio de meios operacionais do terreno. Entretanto, nova tragédia abate-se sobe o concelho e as críticas continua,. Foto arquivo: mediotejo.net

Quanto ao sentimento que perdura, ao fim de dias intensos e de aflição e sufoco, onde nada parecia favorecer um desfecho positivo no território, Vasco Estrela mostra dificuldade em conseguir expressar por palavras o desalento perante o cenário negro que assombra novamente o seu concelho.

“Se alguém se lembra de algo parecido, que tivesse acontecido no país nos últimos anos, e como é que ser humano, qualquer pessoa se sentiria – hoje é dia 23 de julho, fazem dois anos que se iniciou o fogo em Cardigos e que o nosso concelho começou a ser destruído – e como é que qualquer ser humano, qualquer pessoa com mínimo de bom senso, se sentiria se em dois anos perdesse 95% do seu território em termos florestais. Como é que qualquer pessoa se sente perante uma situação destas. E, sinceramente, mais não digo… Que sentimento qualquer pessoa pode ter perante isto…?”, refletiu, de voz embargada pelo desânimo, cansaço e tristeza, não só seus, mas de todo o concelho que representa.

Até ao momento sabe-se que arderam duas casas de primeira habitação, tendo ficado duas pessoas desalojadas.

Vasco Estrela avançou ainda ao nosso jornal que estará no concelho, em visita, Eduardo Cabrita, Ministro da Administração Interna. O governante visita Cardigos a partir das 15h00, estando ainda prevista passagem pelo posto de comando em Vila de Rei e pelo posto coordenador na Sertã.

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Joana Rita Santos
Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres: o conhecimento e o saber, a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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