Incêndio/Mação | A história de uma ovelha bafejada pela sorte que se tornou viral

Foto: Artur Conde

Como resiste uma ovelha, sã e salva, a um cerco de chamas? Uma ovelha, quieta, presa a uma oliveira com uma corda, posa para a fotografia de Artur Conde, qual bicho sortudo no meio da tragédia. Tragédia essa em que muitos outros seres da sua espécie não terão tido a mesma sorte. Mas voltemos ao ponto de partida. Artur partilhou, em entrevista ao mediotejo.net, a experiência vivida na fatídica tarde de dia 25 de julho, onde o fogo alastrou bem mais rápido do que qualquer previsão do grupo em que seguia para levar alimento aos bombeiros no terreno.

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Uma imagem que, por si, já gerou discussão e partilha nas redes sociais, sabendo-se que os antigos tinham bem presente que a pastorícia seria uma das fiéis ferramentas de manutenção da propriedade rural. Acontece que este quadro, hoje, representa também um símbolo para memória futura de Artur Conde, de 26 anos, natural de Mação, e vice-presidente da Assembleia Geral da Associação Magalhães de Mação, que esta terça-feira, dia 25 de julho, se juntou aos camaradas Daniel Jana e Filipe Falua, presidente e vice-presidente da direção da mesma associação, para distribuir mantimentos em Envendos, tendo ficado cercados pelas chamas na aldeia até às 20h00. Altura em que Artur se deparou com um cenário imprevisível.

Em declarações ao mediotejo.net, Artur referiu que o grupo se encaminhava para o posto de abastecimento de Envendos, sendo que alguns bombeiros iriam buscar os mantimentos que tinham na sua posse.

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“Estávamos a ir para o Carvoeiro, e pelo caminho que queríamos seguir, a GNR já não deixava entrar. Já estavam também a evacuar as aldeias perto do Carvoeiro, e entretanto, há um outro caminho em direção aos Envendos, e encontrámos outros dois rapazes que queriam ir para os Degolados, perto do Carvoeiro e também não conseguiram entrar. Vinham de Envendos. E perguntámos se conseguíamos ir por aquele caminho e disseram que sim. E arriscámos, fomos por ali, pelo caminho de onde eles tinham vindo”, contou o jovem.

Mas as coisas, inesperadamente, não correram muito bem. “Chegámos à freguesia de Envendos, e perto de Venda Nova, deparámo-nos com o incêndio, e tivemos de voltar para trás. Estava de um lado e doutro, muito fumo, e não quisemos arriscar. A única hipótese seria voltar para trás, porque pensávamos que íamos ficar em segurança nos Envendos e que o incêndio estava muito longe ainda”, explicou.

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Eram cerca de 16h00, quando pararam em Envendos, e não se avistava fogo no alto da serra. Mas um quarto de hora depois, o fogo já estava nos Envendos, na sede de freguesia.

“Foi muito rápido”, assumiu Artur. “Muito rápido mesmo… Depois daquele dia… já acredito em tudo”.

Nesta tarde, até ao momento em que surge a oportunidade de fotografar este ser vivo resistente, houve momentos de pânico e adrenalina, onde o objetivo era apenas um: apagar o fogo e salvar pessoas e casas. “Tínhamos andado a apagar algumas casas, e evacuar pessoas com a GNR. Por que éramos só nós os 3, eu, o Daniel e o Filipe, e mais 4 guardas, e os populares estavam todos nas suas casas, a tentar guardar aquilo que era deles. E nós tivemos de fazer tudo o que estava ao nosso alcance. Gerou uma adrenalina gigante, e nem pensámos nas coisas. Nunca tínhamos passado por uma coisa daquelas, e o primeiro impulso foi mesmo ajudar”.

Notando o fogo já por perto, os elementos tiram algumas senhoras de suas casas, nas imediações, para o largo da Igreja, e partir deste momento correram Envendos “a ver onde estava a arder, e a ajudar as pessoas”.

Artur partilhou o momento vivido na tarde de terça-feira, dia 25, nas redes sociais, e o seu testemunho mereceu atenção de centenas de pessoas. Facebook/Artur Conde

Na publicação do Facebook, que este sábado de manhã contava já com mais de 800 gostos e reações, e mais de 230 partilhas. As reações continuam a surgir àquela publicação, e, para os mais crentes, terá sido mesmo um sinal divino, ou mesmo um milagre: a ovelha é, afinal, o símbolo central usado no brasão concelhio.

A ovelha é um elemento central no brasão da vila

Mas para os entendidos em matéria florestal, tratou-se de um exemplo claro de que a pastorícia é um instrumento eficaz quanto à prevenção de fogos florestais e gestão florestal, ajudando a regular a densidade de massa combustível no terreno.

Assim, na zona em que a ovelha conseguiu pastar, em 360 graus circundantes à oliveira, a erva seca, a palha, simplesmente não ardeu. Como que desenhado com ajuda de um compasso, aquele espaço permaneceu intacto, intocável pelas chamas, estando tudo o resto tingido de preto e cinza.

“Isto aconteceu cerca das 20h00, quando nós os três fomos fazer uma espécie de rescaldo pela terra. E encontramos a ovelha, que fotografámos”, disse.

” (…) passado o maior perigo, nós os 3 fomos fazer uma espécie de rescaldo e deparamo-nos com esta ovelha que deve ser o ser que teve mais sorte naquela tarde negra, ardeu tudo à volta da ovelha menos o local onde ela se situava, estava muito assustada mas sem qualquer ferimento! Foi um dia que ficará para sempre na nossa memória”, lê-se no post. Foto: Artur Conde

“Ontem foi daqueles dias em que espero não voltar a ter de enfrentar”, pode ler-se no início do post de Facebook de Artur Conde. “Estava eu, o Daniel Jana e o Filipe Falua a caminho da aldeia do Carvoeiro com uma carrinha cheia de mantimentos para os bombeiros quando a GNR nos barra a entrada para a aldeia, tentamos arriscar outro caminho em direção aos Envendos e até aí tudo bem, o pior foi quando tentámos ultrapassar essa localidade e nos deparamos com um cenário muito complicado não conseguindo sair de lá e também ninguém conseguia entrar, ou seja, estávamos cercados pelo fogo na aldeia com uma carrinha cheia de comida para alimentar os guerreiros que ajudavam no combate a este incêndio”, adianta aquela publicação.

Artur, Daniel e Filipe, elementos dos corpos sociais da Associação Magalhães de Mação, não ganharam para o susto na tarde de terça-feira, em que se vira obrigados a intervir junto da população de Envendos, apagando o fogo com os meios possíveis: baldes de água e mangueiras. Fotos DR

No testemunho pessoal pode ler-se ainda que “quando tudo parecia tranquilo o incêndio desce serra a baixo com uma velocidade estonteante em direção a aldeia onde estávamos trancados, foi um cenário devastador porque em poucos minutos a localidade de Envendos estava completamente debaixo de fogo e sem qualquer meio que nos ajudasse (o acesso estava cortado e nem os bombeiros conseguiram chegar à localidade) nós 3 com a ajuda de 4 GNRs e uns populares tivemos de fazer o trabalho de bombeiros com todos os meios que nos fossem disponibilizados pelos locais (baldes de água e mangueiras)!”

Os mantimentos, que seguiriam para o posto de abastecimento de Envendos, e cuja entrega acabou por ser atribulada pela velocidade com que as chamas atingiram a localidade. Foto DR

“A nossa preocupação era entregar os mantimentos, porque pensávamos estar em segurança ao fazer aquele caminho, porque já o tínhamos feito várias vezes, e nestes dias fizemos aquele caminho imensas vezes, mas depois de nos depararmos com aquele cenário… Não estávamos à espera. Estivemos nos Envendos até cerca das dez da noite, sem eletricidade, sem rede, não podíamos comunicar com ninguém, não foi fácil. Estivemos à espera que nos dessem ordens ou para voltar parar trás ou para continuar o caminho para levar os mantimentos, acabámos por criar ali um posto de abastecimento”, descreveu.

“Foram horas de sofrimento sem conseguirmos ver um palmo a nossa frente e sem conseguirmos respirar mas lá conseguimos fazer tudo o que estava a nosso alcance…”

“Esta é uma memória que nunca me sairá da cabeça. Nunca mesmo. Nem da minha, nem de ninguém”, terminou Artur.

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